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Uma caixa grega de bronze previa eclipses há 2.100 anos

Mergulhadores de esponja tiraram a peça do mar em 1901. Só a tomografia de 2006 mostrou as 30 engrenagens.

Fragmentos de bronze esverdeado com engrenagens à mostra.

O maior fragmento do mecanismo, em Atenas

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223 meses. Era o tamanho da espiral gravada no verso de uma caixa grega de cerca de 100 a.C., e cada casa dessa espiral marcava um mês em que podia haver eclipse.

A caixa saiu do fundo do mar perto de Antikythera, uma ilha pequena entre Creta e o Peloponeso, no sul da Grécia. Em 1900, um barco de mergulhadores de esponja da ilha de Symi se abrigou ali de uma tempestade, e um deles desceu cerca de 45 metros e voltou dizendo ter visto corpos espalhados no fundo.

Eram estátuas. O capitão Dimitrios Kontos desceu, trouxe o braço de bronze de uma delas e avisou o governo grego. Entre 1900 e 1901, os mergulhadores tiraram do naufrágio estátuas de bronze e de mármore, ânforas (jarros de cerâmica para vinho e azeite), vidros e moedas de um navio afundado no século I a.C.

Entre essa carga havia um bloco de bronze e madeira do tamanho de uma caixa de sapatos, tão corroído que ninguém deu atenção a ele. O bloco seguiu para o Museu Arqueológico Nacional, em Atenas, e ficou num depósito enquanto os restauradores cuidavam das estátuas. Com a madeira secando, ele rachou em pedaços.

Em maio de 1902, o arqueólogo Valerios Stais, do museu, olhou os fragmentos e viu uma roda dentada encravada no bronze, com dentes triangulares. Viu também letras gregas minúsculas gravadas na superfície.

A descoberta parecia impossível. Nenhum texto antigo conhecido descrevia uma máquina de engrenagens tão pequena, e nenhum outro objeto com rodas dentadas daquele tipo aparece nos registros antes dos relógios astronômicos da Europa medieval, mais de mil anos depois.

Por décadas, a peça foi chamada de astrolábio, de relógio e até de fraude. Os pedaços eram opacos, colados uns nos outros pela corrosão, e só a superfície podia ser lida.

Três perguntas ficam abertas por enquanto: o que havia dentro do bronze, como uma caixa previa o céu e quem a construiu. As três têm resposta nesta edição, inclusive a parte que segue sem resposta.

Foi preciso olhar por dentro do metal sem quebrar nada. O próximo bloco conta como um aparelho de raios X levado até Atenas mostrou o mecanismo por dentro, dente por dente.

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I  A Curiosidade do Dia

O raio X que atravessou o bronze

O Mecanismo de Antikythera, como os pesquisadores chamam a caixa, chegou ao século XXI dividido em 82 fragmentos guardados no Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Até 2005, nenhum aparelho conseguia enxergar através das camadas de bronze corroído sem danificar a peça.

Em 2005, um grupo de pesquisadores gregos e britânicos, o Antikythera Mechanism Research Project (Projeto de Pesquisa do Mecanismo de Antikythera), levou ao museu um tomógrafo construído pela empresa inglesa X-Tek Systems. Os fragmentos eram frágeis demais para viajar, então o aparelho viajou até eles.

O que a tomografia mostrou

O tomógrafo girou cada fragmento diante de um feixe de raios X e montou imagens em fatias finas, como as de um exame de hospital. Nas fatias apareceram rodas dentadas inteiras escondidas debaixo da crosta verde, além de letras gregas gravadas nas faces internas.

Em 2006, a equipe publicou o resultado na revista Nature, num artigo assinado por Tony Freeth, Mike Edmunds, Yanis Bitsakos, Xenophon Moussas e outros pesquisadores. O texto contou 30 engrenagens de bronze preservadas e descreveu a função de cada mostrador.

Os dentes tinham sido cortados à mão, em forma de triângulo, em placas finas de bronze. A maior roda, segundo o artigo da Nature de 2006, tinha 223 dentes, o mesmo número de meses da espiral dos eclipses.

Um computador de manivela

O mecanismo funcionava por uma manivela na lateral da caixa. Quem girava a manivela fazia avançar a data num mostrador frontal, e as engrenagens moviam ponteiros para o Sol e a Lua.

Uma volta completa da roda principal correspondia a um ano. Por esse motivo o aparelho costuma ser chamado de computador analógico (máquina que calcula por movimento, sem dígitos): ele reproduzia ciclos do céu com proporções entre dentes.

A tomografia de 2006 provou que o Mecanismo de Antikythera era uma calculadora de engrenagens, e não um enfeite ou um astrolábio.

As primeiras suspeitas sobre o interior vinham de muito antes. Em 1959, o físico e historiador britânico Derek de Solla Price publicou na revista Scientific American o artigo “An Ancient Greek Computer” (Um computador grego antigo).

“É um pouco assustador saber que, pouco antes da queda de sua grande civilização, os gregos antigos tinham chegado tão perto da nossa época”, escreveu Price no mesmo artigo da Scientific American, em 1959.

Em 1974, com radiografias feitas pelo físico grego Charalambos Karakalos, Price lançou o livro “Gears from the Greeks” (Engrenagens dos gregos), com um esquema completo das rodas. Parte das contagens dele estava errada, e só a tomografia corrigiu os números.

 
 

II  A História Por Trás

O céu dentro da caixa

O mostrador de 223 meses fica no verso do Mecanismo de Antikythera, gravado como uma espiral de quatro voltas. Os astrônomos chamam esse ciclo de saros (ciclo de eclipses de cerca de 18 anos e 11 dias): depois de 223 meses lunares, Sol, Terra e Lua voltam quase à posição de partida, e os eclipses se repetem.

Os babilônios já usavam o ciclo séculos antes, anotando eclipses em tabuinhas de argila. O mecanismo pôs esse conhecimento em bronze. As casas da espiral traziam, quando havia previsão, um símbolo: Σ para eclipse da Lua (de selene, Lua em grego) e Η para eclipse do Sol (de helios, Sol em grego), com a hora prevista.

Dois calendários no verso

Acima da espiral dos eclipses ficava outra, de 235 meses, que acompanhava o ciclo metônico (os 19 anos em que as fases da Lua voltam às mesmas datas do ano solar), atribuído ao astrônomo ateniense Méton, do século V a.C. Servia para ajustar o calendário lunar ao ano das estações.

Em 2008, a mesma equipe de Freeth publicou na Nature outro achado: um mostrador menor marcava os anos dos jogos pan-helênicos (competições que reuniam as cidades gregas), entre eles os Jogos Olímpicos. A palavra OLYMPIA (Olímpia, o santuário dos jogos) estava gravada nele.

A Lua que acelera

A peça mais engenhosa é um par de engrenagens montadas fora de centro, uma sobre a outra, ligadas por um pino que corre numa fenda. O arranjo faz o ponteiro da Lua andar mais rápido em parte do mês e mais devagar no restante, como a Lua faz no céu, porque a órbita dela é elíptica.

A teoria desse movimento é associada ao astrônomo grego Hiparco de Niceia, que trabalhou na ilha de Rodes no século II a.C. Daí vem uma das hipóteses, que aponta uma oficina de Rodes como origem do aparelho.

O saros de 223 meses vinha da Babilônia; a engrenagem que o transformou em ponteiro foi invenção grega.

O político romano Marco Túlio Cícero descreveu, no livro “Da República”, escrito entre 54 e 51 a.C., uma esfera de bronze atribuída a Arquimedes que mostrava os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. Durante séculos, os estudiosos leram o trecho como exagero.

O mecanismo mudou a leitura. Ele mostrou que os gregos sabiam montar aparelhos desse tipo, e que a esfera de Cícero podia ser um parente dele, e não uma lenda.

Um manual gravado na tampa

Na frente e no verso, placas de bronze traziam instruções escritas em grego. Em 2016, a equipe liderada pelo historiador Alexander Jones publicou na revista Almagest a leitura de cerca de 3.400 caracteres desses textos.

As inscrições citam os planetas visíveis a olho nu, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, e as cores previstas para alguns eclipses. A frente da caixa, portanto, mostrava mais do que o Sol e a Lua.

 

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III  O Resto da História

O navio, o dono e a parte perdida

O navio que levava o Mecanismo de Antikythera afundou no século I a.C. As moedas achadas no naufrágio foram cunhadas em Pérgamo e Éfeso, cidades gregas da atual Turquia, e indicam a rota: o barco vinha do Mediterrâneo oriental.

A carga de estátuas, vidros finos e móveis de bronze era de luxo. A hipótese mais aceita é que o navio seguisse para a Itália, onde famílias ricas de Roma compravam arte grega para decorar casas e jardins.

O que ainda falta saber

Ninguém sabe quem construiu o mecanismo, nem quem era o dono. Nenhum nome de fabricante aparece nas inscrições lidas, e nenhum texto antigo cita a peça. A hipótese de Rodes se apoia na teoria de Hiparco, não em assinatura.

Também ninguém sabe quantos aparelhos parecidos existiram. Bronze era caro e costumava ser derretido para fazer moedas, armas e ferramentas. Um objeto assim sobreviveu porque afundou, e o mar o guardou longe dos fundidores.

Parte da frente se perdeu. Em 2021, a equipe de Tony Freeth, na University College London, publicou na revista Scientific Reports um modelo que reconstrói os ponteiros dos cinco planetas, com base nas inscrições e nos furos das placas.

De volta ao fundo do mar

Os mergulhadores voltaram ao naufrágio. Em 1953 e em 1976, o oceanógrafo francês Jacques Cousteau trouxe novas peças. Em 2014, uma equipe internacional retomou as escavações com equipamento moderno, e o trabalho seguiu nos anos seguintes.

Em terra, o mecanismo ganhou cópias que funcionam. Michael Wright, então curador de engenharia mecânica do Science Museum de Londres, estudou os fragmentos com radiografias próprias e construiu, nos anos 2000, uma réplica de bronze com manivela, ponteiros e mostradores.

A réplica de Wright e os modelos da equipe de Freeth discordam em detalhes, como a posição de algumas rodas da frente. Os dois concordam no essencial: a caixa reproduzia o céu grego com engrenagens, e ninguém voltou a fazer algo tão pequeno e preciso na Europa por mais de mil anos.

Ninguém sabe quem fez a caixa, mas cada nova leitura confirma o tamanho do conhecimento grego guardado nela.

Se for contar a alguém, três passos:

1. Comece pelo susto: em 1900, um mergulhador de esponja viu estátuas no fundo e jurou serem corpos.

2. Mostre a espiral: 223 meses gravados em bronze avisavam quando viria um eclipse.

3. Termine no raio X: só a tomografia de 2006 contou as 30 engrenagens escondidas.

Hoje os fragmentos ficam numa sala própria do Museu Arqueológico Nacional de Atenas, com réplicas que deixam o visitante girar a manivela.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o artigo publicado na Nature em 2006, quantos dentes tinha a maior engrenagem do Mecanismo de Antikythera?

A82 dentes
B235 dentes
C223 dentes
D30 dentes

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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