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O mostrador de 223 meses fica no verso do Mecanismo de Antikythera, gravado como uma espiral de quatro voltas. Os astrônomos chamam esse ciclo de saros (ciclo de eclipses de cerca de 18 anos e 11 dias): depois de 223 meses lunares, Sol, Terra e Lua voltam quase à posição de partida, e os eclipses se repetem.
Os babilônios já usavam o ciclo séculos antes, anotando eclipses em tabuinhas de argila. O mecanismo pôs esse conhecimento em bronze. As casas da espiral traziam, quando havia previsão, um símbolo: Σ para eclipse da Lua (de selene, Lua em grego) e Η para eclipse do Sol (de helios, Sol em grego), com a hora prevista.
Dois calendários no verso
Acima da espiral dos eclipses ficava outra, de 235 meses, que acompanhava o ciclo metônico (os 19 anos em que as fases da Lua voltam às mesmas datas do ano solar), atribuído ao astrônomo ateniense Méton, do século V a.C. Servia para ajustar o calendário lunar ao ano das estações.
Em 2008, a mesma equipe de Freeth publicou na Nature outro achado: um mostrador menor marcava os anos dos jogos pan-helênicos (competições que reuniam as cidades gregas), entre eles os Jogos Olímpicos. A palavra OLYMPIA (Olímpia, o santuário dos jogos) estava gravada nele.
A Lua que acelera
A peça mais engenhosa é um par de engrenagens montadas fora de centro, uma sobre a outra, ligadas por um pino que corre numa fenda. O arranjo faz o ponteiro da Lua andar mais rápido em parte do mês e mais devagar no restante, como a Lua faz no céu, porque a órbita dela é elíptica.
A teoria desse movimento é associada ao astrônomo grego Hiparco de Niceia, que trabalhou na ilha de Rodes no século II a.C. Daí vem uma das hipóteses, que aponta uma oficina de Rodes como origem do aparelho.
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O saros de 223 meses vinha da Babilônia; a engrenagem que o transformou em ponteiro foi invenção grega.
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O político romano Marco Túlio Cícero descreveu, no livro “Da República”, escrito entre 54 e 51 a.C., uma esfera de bronze atribuída a Arquimedes que mostrava os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. Durante séculos, os estudiosos leram o trecho como exagero.
O mecanismo mudou a leitura. Ele mostrou que os gregos sabiam montar aparelhos desse tipo, e que a esfera de Cícero podia ser um parente dele, e não uma lenda.
Um manual gravado na tampa
Na frente e no verso, placas de bronze traziam instruções escritas em grego. Em 2016, a equipe liderada pelo historiador Alexander Jones publicou na revista Almagest a leitura de cerca de 3.400 caracteres desses textos.
As inscrições citam os planetas visíveis a olho nu, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, e as cores previstas para alguns eclipses. A frente da caixa, portanto, mostrava mais do que o Sol e a Lua.
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