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Um só monge copiou o Codex Gigas de 75 quilos

Na Boêmia do século XIII, um monge recluso encheu 620 páginas de pergaminho. Em 1648, o exército sueco levou o livro de Praga.

Página do Codex Gigas com um diabo de chifres e garras pintado.

Codex Gigas, folha 290

▼
 

26 de julho de 1648. Foi a madrugada em que soldados suecos escalaram as muralhas do Castelo de Praga, nos últimos meses da Guerra dos Trinta Anos.

A paz já estava sendo negociada na Vestfália, e os tratados encerrariam o conflito em outubro. Os suecos sabiam que tinham pouco tempo e foram direto às coleções reunidas pelo imperador Rodolfo II, que reinou até 1612.

Rodolfo tinha juntado em Praga quadros, relógios, instrumentos de astronomia, animais empalhados e manuscritos. Os saqueadores encheram carroças e barcos com o acervo.

A cidade tinha sido a capital do Sacro Império Romano-Germânico por décadas, e o castelo guardava o que os Habsburgo reuniram de mais raro.

Entre os volumes, havia um que pedia dois homens para ser erguido. Tinha 92 centímetros de altura, 50 de largura e 22 de espessura, e pesava 75 quilos.

Era o Codex Gigas, nome latino para “livro gigante”. As folhas eram de pergaminho, pele de bezerro raspada e seca, e somavam a pele de uns 160 animais, segundo o levantamento da Biblioteca Nacional da Suécia publicado em 2007.

O livro tinha sido escrito na Boêmia, no começo do século XIII, num mosteiro beneditino pequeno e pobre em Podlažice, perto da cidade de Chrudim. O mosteiro não existe mais: foi destruído no século XV.

A letra, do começo ao fim, parece de uma mão só. São 620 páginas com o mesmo traço, a mesma tinta e o mesmo tamanho de letra, sem as trocas de copista comuns nos livros da época.

Em Estocolmo, o livro entrou na biblioteca real e ficou por lá. Hoje está na Biblioteca Nacional da Suécia, numa vitrine aberta a qualquer visitante.

Abaixo, quem foi o monge que escreveu o livro sozinho, o caminho do volume até Praga e a página com um diabo de meio metro que deu ao códice o apelido de Bíblia do Diabo.

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I  A Curiosidade do Dia

O recluso de Podlažice

O único nome ligado ao Codex Gigas aparece num calendário dentro do próprio livro: Hermannus monachus inclusus, latim para “Herman, monge recluso”. Nada além disso se sabe do autor: nem data de nascimento, nem rosto, nem outra obra.

Recluso, na Idade Média, era um título religioso. O monge recluso aceitava viver trancado numa cela pequena, às vezes encostada à igreja, com uma janela por onde recebia comida e acompanhava a missa. Alguns ficavam ali até o fim da vida.

A cela explica parte do enigma. Um homem sem tarefas no campo, sem viagens e sem visitas tinha o dia inteiro para copiar. O livro grande podia ser a penitência dele, o trabalho de anos que dava sentido à reclusão.

O paleógrafo britânico Michael Gullick, especialista em escrita medieval, examinou o códice para a Biblioteca Nacional da Suécia e publicou a análise em 2007. Pela letra e pelo volume do texto, ele estimou entre 20 e 30 anos de trabalho para copiar o livro inteiro.

A letra não muda ao longo das 620 páginas: nem o cansaço, nem a doença, nem a idade alteraram o traço do copista.

A pressa não fazia parte do plano. O texto saiu em escrita gótica, a letra compacta e de hastes retas dos livros do século XIII, com iniciais pintadas em vermelho, azul, verde e dourado.

Cada pele passava por semanas de preparo: ficava de molho em cal, era raspada com lâmina curva, esticada numa moldura e lixada com pedra-pomes até ficar lisa dos dois lados.

O conteúdo mostra a ambição. Estão ali a Bíblia inteira na Vulgata, a tradução latina de São Jerônimo, e duas obras do historiador judeu Flávio Josefo sobre a história e as guerras do seu povo.

Há também as Etimologias de Isidoro de Sevilha, uma enciclopédia do século VII, tratados de medicina, fórmulas de exorcismo e a Crônica dos Boêmios, de Cosmas de Praga, a primeira história escrita da região.

Era uma biblioteca inteira encadernada num volume só. Para um mosteiro pobre, um livro assim valia por dezenas de manuscritos menores.

A data do término sai do calendário. As anotações mais antigas feitas nele indicam que a cópia terminou antes de 1230.

O códice tem hoje 310 folhas, e marcas na costura mostram que outras foram cortadas depois da encadernação. Ninguém sabe o que elas traziam: há palpites, como as regras do mosteiro, mas nenhuma cópia ou descrição antiga dessas páginas sobreviveu para confirmar.

 
 

II  A História Por Trás

De mosteiro em mosteiro até Praga

O livro não ficou muito tempo em Podlažice. Em 1295, os monges deram o Codex Gigas como garantia de dívida ao mosteiro cisterciense de Sedlec, perto de Kutná Hora.

Pouco depois, o abade Bavor, do mosteiro beneditino de Břevnov, em Praga, recomprou o volume. Uma nota no próprio códice registra a recompra e o orgulho dos beneditinos por terem trazido a obra de volta.

No século XV, as guerras hussitas varreram a Boêmia. Os seguidores do reformador Jan Hus, queimado como herege em 1415, atacaram mosteiros católicos, e foi nesse período que Podlažice, onde o livro nasceu, virou ruína.

O códice escapou longe dali. Ele acabou no mosteiro beneditino de Broumov, no nordeste da Boêmia, onde ficou de 1477 a 1593.

Em 1594, o imperador Rodolfo II mandou buscar o livro e o levou para Praga. Rodolfo era colecionador obsessivo de raridades, de fósseis a mapas celestes, e mantinha na corte astrônomos como Johannes Kepler e Tycho Brahe.

Ele tinha mudado a sede do império de Viena para Praga em 1583, e a cidade virou ímã de artistas, alquimistas e eruditos de toda a Europa.

O gosto de Rodolfo pelo raro reuniu o Codex Gigas num castelo, e foi esse castelo que os suecos saquearam.

Os suecos chegaram em julho de 1648 sob o comando do general Hans Christoph von Königsmarck. A tomada do castelo foi a última grande ação militar da Guerra dos Trinta Anos.

Königsmarck era alemão de nascimento e servia à Suécia como militar de carreira. O saque de Praga fez dele um dos homens mais ricos do reino.

O saque seguiu para Estocolmo, para a coleção da rainha Cristina, então com 21 anos e decidida a transformar a capital sueca num centro de cultura europeia.

Cristina abdicou em 1654, se converteu ao catolicismo e levou parte dos manuscritos para Roma. O Codex Gigas não foi com ela e ficou na biblioteca real sueca.

Na Suécia, o livro passou séculos como propriedade do Estado. Os pedidos tchecos de devolução nunca prosperaram, porque o saque aconteceu antes de existir qualquer tratado sobre bens culturais tomados em guerra.

Em 2007, o códice voltou a Praga pela primeira vez desde 1648, emprestado por quatro meses à Biblioteca Nacional Tcheca, no Clementinum. No começo de 2008, o volume retornou a Estocolmo, onde segue.

 

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III  Pra Contar na Mesa

O diabo da folha 290

A página que fez a fama do livro está na folha 290. Ocupa quase a altura inteira: um diabo de uns 50 centímetros, agachado, com chifres, garras e uma língua vermelha bifurcada para fora da boca.

Na página oposta, há a Cidade Celestial, a Jerusalém do céu, desenhada como um conjunto de torres sem gente. A dupla põe o paraíso e o inferno frente a frente, cada um ocupando uma folha.

O diabo aparece sozinho, sem santo, sem anjo e sem alma condenada por perto. A arte medieval costumava mostrar o demônio dentro de cenas do Juízo Final, quase nunca isolado numa página inteira.

A lenda nasceu do desenho. Segundo ela, Herman quebrou os votos e foi condenado a ser emparedado vivo. Para escapar, prometeu escrever numa noite um livro com todo o saber humano.

Perto da meia-noite, viu que não conseguiria e pediu ajuda ao diabo, em troca da alma. O diabo terminou o livro, e o monge, grato, pintou o retrato do ajudante na folha 290.

Os chifres vermelhos e a pele com manchas de arminho seguem convenções de pintura da época. O arminho era pele de luxo, usada por reis, e há estudiosos que leem o detalhe como ironia: o diabo vestido de nobre.

Os fatos desmentem a história. Os 20 a 30 anos estimados por Gullick não cabem numa noite, e a reclusão era um voto religioso escolhido pelo próprio monge.

A lenda pede uma noite; a letra uniforme de 620 páginas pede duas décadas.

O apelido de Bíblia do Diabo pegou mesmo assim, e ajudou o livro a sobreviver. Volume com fama de amaldiçoado vira peça de coleção, e peça de coleção ganha cofre e guarda.

A Biblioteca Nacional da Suécia digitalizou o códice inteiro, e as 620 páginas podem ser folheadas no site da instituição, inclusive a folha 290 em alta resolução.

Para levar a história à mesa, três passos:

1. Comece pelo peso: 75 quilos e 92 centímetros de altura, o maior manuscrito medieval preservado na Europa.

2. Conte a lenda: o monge Herman, a noite única e o pacto com o diabo pintado na folha 290.

3. Termine nos fatos: a letra de uma mão só, os 20 a 30 anos de cópia e o saque sueco de 1648.

“Você sabia que o maior livro medieval da Europa foi parar na Suécia como saque de guerra?”

O livro sobreviveu aos hussitas, a um saque e a séculos de exposição, mas o maior risco veio de dentro do palácio sueco.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que o Codex Gigas foi atirado por uma janela de Estocolmo em 1697?

★ RARO

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