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Curiosidade do Dia   Curiosidade do Dia
ED 038
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Um morango são duzentas frutas

Cada grãozinho amarelo da casca é um fruto inteiro, e a polpa vermelha é o talo da flor, inchado por um hormônio.

Morango maduro visto de perto, com os aquênios amarelos salpicados na superfície vermelha.

Aquênios na superfície de um morango maduro

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Duzentos frutos. É mais ou menos o que a mão segura ao pegar um único morango maduro, se a contagem obedecer à definição que a botânica usa para separar fruto de qualquer outra parte da planta.

A conta soa absurda porque a fruta chega à mesa como unidade. Ela cabe entre dois dedos, some em duas mordidas, é vendida por caixinha e cortada em rodelas como se fosse uma peça só. Ninguém pesa um morango pensando que está segurando um punhado de unidades separadas.

A definição, porém, não tem nada de subjetiva. Fruto é a estrutura que se forma a partir do ovário da flor depois da fecundação, e que guarda a semente dentro. Em uma laranja, o ovário virou os gomos. Em um pêssego, virou a polpa e o caroço. No morango, o ovário virou cada um daqueles grãozinhos amarelos que ficam espalhados pela superfície vermelha.

Cada grão desses tem nome próprio: aquênio. É um fruto seco, de casca dura, que não se abre sozinho na maturação e que carrega uma única semente lá dentro. O mesmo tipo de fruto do girassol e do dente de leão. A diferença é que no girassol os aquênios ficam empilhados no miolo da flor, e no morango eles ficam do lado de fora, grudados na superfície, o que engana o olho de quem cresceu chamando aquilo de semente.

Sobra a pergunta do que é a parte vermelha, a que tem gosto, água e açúcar. A resposta é a que menos agrada a quem gosta de comer morango: a polpa não é fruto nenhum. É o receptáculo, o topo do talo onde a flor se prende, que inchou, ganhou cor e virou o produto que o supermercado vende. Um talo gordo carregando duzentos frutinhos nas costas.

O que faz esse talo inchar é a parte que mais rende conversa, porque o crescimento não é automático: ele depende de uma ordem química que sai de dentro dos grãozinhos.

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I  A Curiosidade do Dia

Duzentos frutos na palma da mão

A demonstração de que o comando vem dos aquênios coube a um experimento simples de bancada. Em 1950, o fisiologista vegetal John P. Nitsch publicou no American Journal of Botany o trabalho Growth and Morphogenesis of the Strawberry as Related to Auxin, feito com morangueiros da variedade Marshall.

Nitsch pegou flores recém fecundadas e removeu os aquênios da superfície com uma pinça, deixando o receptáculo intacto. O resultado foi imediato: o receptáculo parou de crescer. Sem os grãozinhos, o talo não inchava, não avermelhava, não virava morango. Ficava do tamanho em que estava, como um botão seco preso ao caule.

Depois veio a parte que fechou a prova. Ele removeu todos os aquênios de novo, mas dessa vez passou sobre a superfície nua uma pasta de lanolina com auxina, o hormônio de crescimento das plantas. O receptáculo voltou a crescer e engordou sem nenhum grão em cima. O morango se formou sem os frutos que deveriam tê-lo comandado, porque o químico substituiu a ordem que eles davam.

Ao remover os aquênios de morangos da variedade Marshall, John Nitsch mostrou em 1950 que o receptáculo só engorda quando recebe auxina, produzida pelos próprios grãozinhos.

A experiência explica um defeito que qualquer pessoa já viu na feira sem saber o nome. Morango torto, com um lado cheio e outro murcho, não é praga nem falta de água na maioria das vezes: é aquênio que não foi fecundado. Onde o grão não pegou, não sai auxina, e a região do receptáculo embaixo dele fica para trás enquanto o resto engorda.

Daí vem a dependência que a lavoura leva a sério. A flor do morangueiro tem muitos ovários separados, e cada um precisa receber pólen por conta própria, o que o vento sozinho faz mal. O pesquisador Björn Klatt e colegas publicaram na Proceedings of the Royal Society B, em 2014, um estudo com morangos alemães em que os frutos visitados por abelhas ficaram mais pesados, mais firmes e com prateleira mais longa do que os polinizados só pelo vento ou por autopolinização.

Há ainda a forma correta de nomear o conjunto todo, útil quando alguém quiser conferir depois. Um morango inteiro não é uma fruta simples nem um cacho: é um etaério, o nome que a botânica dá ao agrupamento de vários frutos pequenos nascidos de uma flor só. A framboesa e a amora seguem a mesma lógica, com a diferença de que ali cada unidade é carnuda e o conjunto lembra mais um mosaico do que uma bola lisa.

 
 

II  A História Por Trás

O morango que Frézier trouxe do Chile

O morango grande e vermelho da caixinha de supermercado não existia antes do século XVIII. A Europa comia o morango silvestre, Fragaria vesca, uma fruta do tamanho de uma unha, perfumada e trabalhosa de colher, que crescia na beira das matas e nos jardins de mosteiro.

A mudança começou com um espião. Em 1712, o engenheiro militar francês Amédée François Frézier foi enviado à costa do Pacífico para mapear fortificações espanholas, e no Chile encontrou uma planta cultivada pelos mapuches que dava frutos muito maiores que os europeus, a Fragaria chiloensis. Ele levou cinco mudas na viagem de volta e desembarcou em Marselha em 1714, depois de meses dividindo com as plantas a água racionada do navio.

As mudas chilenas eram todas fêmeas, o que ninguém entendia na época, e não davam fruto sozinhas nos jardins franceses. Plantadas perto de exemplares de Fragaria virginiana, a espécie que já tinha vindo da América do Norte no século anterior, elas cruzaram. O resultado foi um híbrido de fruto grande, vermelho e suculento que nenhuma das duas espécies produzia sozinha.

Quem entendeu o que estava acontecendo foi um adolescente. Antoine Nicolas Duchesne, jardineiro em Versalhes, publicou em 1766 a obra Histoire naturelle des fraisiers, aos dezenove anos, descrevendo a origem híbrida da planta nova e a existência de pés separados por sexo no gênero, uma ideia que contrariava a botânica da corte.

"O morangueiro de Versalhes nasceu do cruzamento entre as duas espécies americanas cultivadas lado a lado." Antoine Nicolas Duchesne, em Histoire naturelle des fraisiers, 1766.

O morango cultivado hoje no mundo inteiro é Fragaria x ananassa, o híbrido acidental entre uma espécie chilena e uma norte americana que se encontraram em jardins franceses no século XVIII.

O nome da espécie guarda a impressão de quem provou primeiro. O epíteto ananassa vem do aroma do fruto novo, que os franceses acharam parecido com abacaxi, e o híbrido foi chamado de morango ananás antes de virar simplesmente morango na boca do público.

A genética por trás da fruta explica parte do tamanho. Fragaria x ananassa é octoploide, com oito conjuntos de cromossomos, contra os dois do morango silvestre europeu, e essa carga extra de genoma é uma das razões pelas quais o fruto híbrido engorda muito além do que o ancestral do bosque conseguia.

Duchesne morreu sem ver a escala do que descreveu. A planta que ele catalogou em Versalhes virou a base de toda a produção comercial do planeta, e o morango deixou de ser fruta de mato para virar cultura de campo, com variedade selecionada, colheita manual e cadeia de frio, tudo construído em cima de um cruzamento que ninguém planejou.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três frases e um teste na cozinha

A conversa rende mais se a informação sair na ordem certa, e três frases dão conta:

1. Comece pelo grão: cada pontinho amarelo na superfície do morango é um aquênio, um fruto seco completo com uma semente dentro, e um morango médio carrega perto de duzentos deles.

2. Explique a polpa: a parte vermelha é o receptáculo, o topo do talo onde a flor se prendia, que inchou e virou o que a gente come.

3. Feche com a prova de bancada: John Nitsch removeu os aquênios de morangos em 1950 e o receptáculo parou de crescer, voltando a engordar só quando recebeu auxina aplicada em pasta.

O teste que convence na hora dispensa laboratório. Raspe a superfície de um morango com a unha ou com a ponta de uma faca: o grão se solta inteiro, duro, e não deixa buraco na polpa. Aberto com cuidado na unha, aparece a casca dura por fora e a semente por dentro, dois elementos separados que nenhuma semente solta teria.

A comparação que ancora a ideia está na mesma cozinha. O girassol dá aquênios, e o que se come como semente de girassol é um aquênio com a casca listrada, quebrada entre os dentes para chegar ao miolo. O morango faz igual, só que em escala miniatura e do lado de fora de um talo doce.

Um morango médio carrega perto de duzentos aquênios na superfície, cada um deles um fruto completo com casca e semente.

Vale ter a ressalva pronta, porque alguém sempre pergunta. O número duzentos é média, não constante: varia com a variedade, com o tamanho da flor e com a fecundação, e há morangos com pouco mais de cem grãos e outros que passam bem dos trezentos. O que não varia é a função de cada grão.

A mesma definição desmonta outras certezas da fruteira, e vale segurar uma para o final da conversa. Pela definição botânica, a banana é uma baga, o tomate também, o abacate igualmente, enquanto o caju vermelho e suculento é um talo inchado como o do morango e o fruto verdadeiro é a castanha pendurada na ponta.

Quem cultiva morango convive com essa anatomia todo dia sem precisar do vocabulário. O produtor sabe que a colmeia perto da lavoura melhora o formato do fruto, que flor mal polinizada vira morango torto e que o grão da superfície não serve para plantar em escala, porque a propagação comercial se faz por estolho, o galho rasteiro que a planta lança para criar mudas clones dela mesma.

"Se o que você chama de fruta é um talo e o que você chama de semente é fruta, quantos outros nomes da fruteira estão trocados?"

 
 

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Quiz da edição

Em 1950, ao remover os aquênios de morangos da variedade Marshall e aplicar auxina na superfície nua, o que John Nitsch observou?

AO receptáculo apodreceu sem os grãozinhos
BO receptáculo voltou a crescer e engordar mesmo sem nenhum aquênio
CA planta produziu aquênios novos no lugar dos removidos
DO receptáculo cresceu, mas não ganhou cor vermelha

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