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Cada satélite do GPS carrega relógio atômico a bordo, em geral dois de césio e dois de rubídio, com folga de reserva porque trocar peça em órbita não é opção. Um relógio desses erra menos de um segundo em trezentos mil anos.
Precisão, no entanto, não resolve o problema. Os relógios lá em cima estão certos, o relógio do seu bolso está certo, e mesmo assim os dois discordam sobre quanto tempo passou.
A órbita explica a discordância. O satélite voa a vinte mil e duzentos quilômetros de altitude, dá uma volta completa em onze horas e cinquenta e oito minutos e cruza o espaço a quase quatorze mil quilômetros por hora.
Duas coisas acontecem nessa altura, e elas apontam para lados contrários.
A primeira vem da velocidade. Relógio em movimento bate mais devagar que relógio parado, e a diferença cresce junto com a velocidade. Nos quatorze mil quilômetros por hora do satélite, a conta atrasa o relógio de bordo em sete microssegundos por dia.
A segunda vem da gravidade. Quanto mais forte o campo gravitacional, mais devagar o tempo corre, e a vinte mil quilômetros do chão a Terra puxa bem menos do que puxa a sua cozinha. Nessa altura o relógio adianta quarenta e cinco microssegundos por dia.
Some as duas e sobra o número que sustenta o sistema inteiro: trinta e oito microssegundos de adiantamento a cada vinte e quatro horas.
Trinta e oito microssegundos parece um nada. Uma piscada de olho dura cem mil microssegundos, quase três mil vezes mais que a diferença acumulada num dia.
A régua da conversão, porém, não perdoa. Trinta e oito mil bilionésimos de segundo, multiplicados pelos trinta centímetros que a luz cobre em cada bilionésimo, dão perto de onze quilômetros de erro depois de um único dia.
E o erro não zera à meia-noite. Ele se empilha. Dois dias sem correção passam de vinte quilômetros, uma semana passa de setenta, e a bolinha azul acaba num município vizinho.
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"Os princípios e efeitos relativísticos que precisam ser considerados incluem a constância da velocidade da luz, o princípio da equivalência, o efeito Sagnac, a dilatação do tempo, os desvios gravitacionais de frequência e a relatividade da simultaneidade." Neil Ashby, Relativity in the Global Positioning System, 2003.
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A engenharia resolveu a parte grossa do problema antes mesmo do lançamento, com uma solução de uma linha. O relógio de bordo deveria bater em 10,23 megahertz, e os satélites saem de fábrica ajustados para 10,22999999543 megahertz.
Sintonizado de propósito um tiquinho devagar aqui embaixo, o relógio chega à órbita batendo exatamente na frequência combinada, do ponto de vista de quem ficou no chão.
O resto virou rotina de manutenção. As estações de controle em terra medem o desvio residual de cada satélite e sobem correções para a memória de bordo.
Nada disso era consenso quando o programa começou. Havia gente graduada convencida de que a correção relativística era matemática bonita sem consequência prática, e o desempate exigiu um satélite inteiro.
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