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Seis gramas de ouro numa medalha de prata
A Carta Olímpica exige no mínimo 92,5% de prata na medalha de ouro e apenas 6 gramas de ouro puro no banho que cobre a superfície.
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Prata de lei sob 6 gramas de ouro
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6 gramas. É todo o ouro que a Carta Olímpica, o documento de regras do Comitê Olímpico Internacional, obriga a colocar numa medalha de ouro dos Jogos, e a exigência valia assim nos Jogos de Paris, em 2024. O restante da peça, mais de 95% do peso, é prata.
A conta fica clara quando se olha a medalha de Paris pela ficha técnica que a Monnaie de Paris, a casa da moeda francesa que fabricou as peças, divulgou em fevereiro de 2024. Cada medalha de ouro pesava 529 gramas: 505 gramas de prata, 18 gramas de ferro retirado de vigas originais da Torre Eiffel e 6 gramas de ouro puro aplicados por fora.
O atleta que morde a peça na foto do pódio está mordendo prata banhada, e a camada dourada que ele encosta no dente é fina o bastante para caber muitas vezes na espessura de um fio de cabelo. Nenhum comitê organizador esconde a composição: ela sai publicada em cada edição dos Jogos, em ficha aberta, e quase ninguém lê.
A confusão nasce do vocabulário, e ele engana há mais de um século. "Medalha de ouro" virou nome de posição, não descrição de material, do mesmo jeito que ninguém espera encontrar bronze puro numa estatueta de bronze. O pódio premia com uma cor, e a cor sai de um banho industrial barato aplicado nos últimos minutos da fabricação.
O peso de prata, por outro lado, é generoso. Meio quilo de prata de lei por peça, multiplicado por algumas milhares de medalhas por edição, faz da premiação olímpica uma encomenda de metal precioso respeitável para qualquer casa da moeda, ainda que o ouro apareça na conta como detalhe de acabamento.
A pergunta que salta é quando a medalha deixou de ser maciça. A resposta tem endereço e ano, passa por uma cidade nórdica, por um atleta que teve o título cassado por causa de um verão jogando beisebol por dinheiro e por uma guerra que encareceu metal no mundo inteiro.
O que vem primeiro é a regra escrita: o que exatamente o Comitê Olímpico Internacional manda cada cidade-sede fazer, em milímetros, em gramas e em teor de metal, para que uma peça possa ser chamada de medalha olímpica.
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I A Curiosidade do Dia
Prata por dentro, seis gramas por fora
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A Carta Olímpica, o texto que reúne as regras do Comitê Olímpico Internacional e que a entidade atualiza a cada poucos anos, trata das medalhas num trecho curto e bem específico, dentro das regras sobre premiação e diplomas. É lá que moram os números que definem o que o pódio entrega.
O primeiro parâmetro é geométrico. A medalha precisa ter no mínimo 60 milímetros de diâmetro e 3 milímetros de espessura, o que dá à cidade-sede liberdade total para desenhar peças maiores e mais pesadas, como fazem quase todas desde os anos 1990.
O segundo parâmetro é de metal, e ele derruba a imagem que o nome da premiação cria. A medalha de primeiro lugar e a de segundo lugar precisam ser feitas de prata com teor mínimo de 925 milésimos, ou seja, 92,5% de prata pura, o padrão que a joalheria chama de prata de lei. A peça de primeiro lugar recebe por cima um mínimo de 6 gramas de ouro puro.
Ou seja, primeiro e segundo lugar recebem o mesmo corpo de prata. O que separa as duas peças é o banho de ouro aplicado numa delas, feito por galvanoplastia, o processo que usa corrente elétrica para depositar uma camada finíssima de metal sobre a superfície de outro.
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Seis gramas de ouro numa peça de 529 gramas dão pouco mais de 1% do peso. Em espessura, a camada que cobre a medalha de Paris fica na casa de alguns micrômetros, o suficiente para dar cor, brilho e resistência ao desgaste do manuseio, e insuficiente para mudar o que a peça é por dentro.
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A terceira medalha segue outra receita. O bronze olímpico é uma liga de cobre com estanho e, em algumas edições, com zinco, e a Carta Olímpica não fixa um teor mínimo para ela, o que deixa a composição a critério de quem fabrica.
Há ainda uma exigência que não fala de metal nenhum. O nome da modalidade e da prova precisa aparecer gravado na peça, e as medalhas dos Jogos Olímpicos e dos Jogos Paralímpicos saem da mesma casa fabricante em cada edição, com desenhos irmãos.
Quem executa o desenho muda a cada sede. Em Paris, o projeto saiu da joalheria Chaumet e a produção ficou com a Monnaie de Paris; em Tóquio, em 2021, o desenho foi do designer japonês Junichi Kawanishi, escolhido num concurso aberto com mais de quatrocentas inscrições.
O valor de mercado do metal derretido fica muito abaixo do que a peça vale como troféu, e o mercado de leilões confirma a distância: medalhas de nomes célebres já foram arrematadas por cifras milionárias, enquanto o metal de uma peça comum vale o que vale meio quilo de prata.
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II A História Por Trás
Estocolmo, 1912, a última de ouro maciço
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Os Jogos Olímpicos de Estocolmo, disputados na capital sueca no verão de 1912, foram a última edição em que o primeiro lugar recebeu uma medalha de ouro maciço, conforme o registro histórico que o próprio Comitê Olímpico Internacional mantém sobre a premiação dos Jogos.
Aquelas peças eram pequenas e caras. Tinham cerca de 33 milímetros de diâmetro e pouco mais de 24 gramas, quase todo o peso em ouro, e o tamanho modesto tinha explicação direta: ouro maciço numa peça grande custaria ao comitê organizador um dinheiro que ele não tinha.
O atleta mais lembrado daquela edição é James Francis Thorpe, o Jim Thorpe, nascido em Oklahoma e integrante da nação indígena Sac and Fox, que venceu o pentatlo e o decatlo em Estocolmo. Em 1913, um jornal americano revelou que ele havia recebido pagamento para jogar beisebol de liga menor em 1909 e 1910, o que na época quebrava a regra do amadorismo, e o comitê retirou os dois títulos dele.
O caso levou setenta anos para virar. O Comitê Olímpico Internacional devolveu as medalhas à família em 1983, e em julho de 2022 reconheceu Thorpe como campeão único das duas provas, apagando os nomes que haviam sido promovidos ao primeiro lugar na planilha oficial.
O ouro maciço não voltou depois de 1912 por motivo econômico. A Primeira Guerra Mundial estourou em 1914, encareceu metal e cancelou os Jogos de 1916, e quando a competição foi retomada em Antuérpia, em 1920, a peça de primeiro lugar já era de prata com banho de ouro, no formato que sobreviveu até hoje.
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Nenhum atleta vivo recebeu uma medalha de ouro olímpica maciça. Todo pódio dourado desde 1920 entrega prata banhada, e a regra dos 6 gramas apenas escreveu num documento aquilo que a economia já tinha decidido um século atrás.
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O século seguinte mudou a matéria-prima de novo, agora por escolha. O comitê organizador de Tóquio informou que as 5 mil medalhas dos Jogos de 2021 saíram inteiramente de metal extraído de eletrônicos doados pela população japonesa, num programa que recolheu 78.985 toneladas de aparelhos, entre eles 6,21 milhões de celulares usados.
Paris seguiu a mesma linha com outro símbolo. Cada medalha da edição de 2024 recebeu um hexágono de ferro retirado de vigas originais da Torre Eiffel, guardadas pela empresa que administra o monumento desde reformas antigas, e o formato do hexágono repete o contorno do mapa da França.
A execução francesa rendeu um problema público. Semanas depois dos Jogos, atletas como o skatista americano Nyjah Huston mostraram nas redes sociais medalhas de bronze com a superfície manchada e descascada, e a Monnaie de Paris anunciou que trocaria as peças danificadas, atribuindo a falha ao verniz de proteção.
Um ponto do caso continua sem número público, e vale dizer com todas as letras: nem o comitê organizador de Paris nem a casa da moeda francesa divulgaram quantas medalhas foram efetivamente substituídas, porque a troca corre por pedido individual de cada atleta e não existe obrigação de publicar o total.
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