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Os 730 quilômetros que fazem do Brasil vizinho da França

A fronteira terrestre mais longa da França é com o Brasil: 730 quilômetros pela Guiana Francesa, contra 623 quilômetros com a Espanha.

O rio Oiapoque visto do alto, com mata fechada nas duas margens e a ponte binacional ao fundo.

O rio Oiapoque separa Amapá da França

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730 quilômetros. É quanto mede a linha que separa o território francês do território brasileiro, segundo as fichas de país do World Factbook, o anuário geográfico publicado pela CIA e atualizado ano a ano. Nenhuma outra fronteira terrestre francesa chega perto.

A comparação é o que faz a cabeça travar. Com a Espanha, do Atlântico ao Mediterrâneo pelos Pireneus, a França divide 623 quilômetros. Com a Bélgica, 620. Com a Alemanha, 448. Com a Itália, 515. O maior vizinho terrestre da França, por comprimento de linha, fala português e fica do outro lado do Atlântico.

O truque está na geografia administrativa. A Guiana Francesa não é colônia nem protetorado: desde 1946 ela é um departamento ultramarino, pedaço pleno da República Francesa, com prefeito nomeado em Paris, deputados na Assembleia Nacional, euro nos caixas eletrônicos e legislação europeia em vigor. Quem atravessa o rio a partir do Amapá entra na União Europeia sem sair da América do Sul.

Boa parte do traçado segue água. O rio Oiapoque desce da serra de Tumucumaque até o Atlântico e faz o papel de linha divisória na maior parte do percurso, com vilarejos ribeirinhos nas duas margens, canoas cruzando o canal em minutos e comércio que ignora o mapa. O resto da linha corre por divisor de águas em mata fechada, onde não existe cidade, estrada nem posto de fiscalização.

O Amapá, portanto, faz fronteira com a União Europeia, e nenhum outro estado brasileiro faz. Quem mora em Oiapoque tem do outro lado da margem uma comuna francesa chamada Saint-Georges de l'Oyapock, com escola pública francesa, posto de saúde francês e gendarmes patrulhando o cais.

O que a seção a seguir mostra é como essa linha funciona hoje no chão: quem fiscaliza, o que atravessa, e por que a ponte de concreto construída sobre o rio passou seis anos pronta e fechada.

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I  A Curiosidade do Dia

Um rio, uma ponte e a Europa na outra margem

A linha divisória entre Brasil e Guiana Francesa se divide em dois trechos de natureza bem distinta. O primeiro acompanha o curso do rio Oiapoque, da foz no Atlântico até as nascentes; o segundo corre por terra firme, seguindo o divisor de águas da serra de Tumucumaque, que separa as bacias que drenam para o norte das que drenam para o sul.

Nenhum dos dois trechos tem cerca, muro ou linha pintada. A fiscalização se concentra em um ponto só, o par de cidades gêmeas formado por Oiapoque, no extremo norte do Amapá, e Saint-Georges de l'Oyapock, comuna francesa de pouco mais de 4 mil habitantes na margem oposta.

Entre as duas fica a Ponte Binacional sobre o rio Oiapoque, uma estrutura estaiada de 378 metros de vão, com dois pilones de 83 metros, construída com recursos do governo brasileiro. A obra ficou pronta em 2011.

O concreto ficou parado por muito mais tempo do que levou para ser erguido. A ponte só foi aberta ao tráfego regular em março de 2017, seis anos depois de concluída, porque faltavam do lado francês o posto alfandegário, o controle migratório e o acordo sobre habilitação de motorista, e do lado brasileiro a pavimentação completa da BR-156 até a cidade.

Enquanto a ponte esperava carimbo, o rio seguiu funcionando como sempre funcionou. As catraias, canoas motorizadas que fazem a travessia em poucos minutos, continuaram levando gente e mercadoria de uma margem à outra, e continuam levando hoje, porque cobram menos e não pedem documento.

A assimetria econômica explica o fluxo. Do lado francês, o salário mínimo é europeu, o euro é a moeda e os benefícios sociais seguem a lei da França; do lado brasileiro, o real vale uma fração disso. O resultado prático é uma migração constante de brasileiros para Caiena e para os garimpos do interior guianense.

O ouro é o outro motor. A mata guianense abriga garimpo ilegal em escala industrial, tocado em grande parte por brasileiros, e a gendarmaria francesa mantém desde 2008 uma operação militar permanente chamada Harpie, criada para destruir acampamentos e apreender equipamento clandestino dentro do Parque Amazônico da Guiana.

Existe ainda um vizinho improvável dessa fronteira. O Centro Espacial de Kourou, base de lançamento da Agência Espacial Europeia desde 1968, fica a pouco mais de 400 quilômetros do território brasileiro, e os foguetes Ariane decolam de uma costa que fica geograficamente mais perto de Macapá do que de qualquer capital europeia.

Do lado brasileiro, o trecho de fronteira está quase todo dentro de terras protegidas. O Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, criado em 2002, cobre 3,8 milhões de hectares e encosta na linha divisória, fazendo par com o parque francês do outro lado, num corredor contínuo de floresta sem estrada.

 
 

II  A História Por Trás

Berna, 1900, o laudo que deu o Amapá ao Brasil

A linha de hoje não nasceu de acordo amigável. Ela saiu de uma arbitragem internacional julgada na Suíça em 1900, depois de quase dois séculos de disputa entre Portugal e França, e depois Brasil e França, sobre um território de cerca de 260 mil quilômetros quadrados que hoje corresponde ao estado do Amapá.

A origem da confusão está num tratado mal redigido. O Tratado de Utrecht, assinado em 1713, fixou o limite entre as possessões portuguesa e francesa no "rio Japoc ou Vicente Pinzón", e ninguém jamais concordou sobre qual curso d'água era esse. Paris sustentava que se tratava de um rio bem ao sul, o Araguari; Lisboa, e depois o Rio de Janeiro, sustentavam que era o Oiapoque.

A área ficou em suspenso por décadas, com o nome de Contestado Franco-Brasileiro, e sem administração de nenhum dos dois lados. Em 1886, um aventureiro francês chamado Jules Gros, sentado em Paris, proclamou sobre aquele vazio a República Independente do Cunani, nomeou a si mesmo presidente, distribuiu títulos de nobreza e nunca pisou no lugar que dizia governar.

A descoberta de ouro no fim do século transformou o impasse em conflito armado. Em maio de 1895, uma tropa francesa vinda de Caiena subiu o rio Amapá para prender o líder local Francisco Xavier da Veiga Cabral, o Cabralzinho, que comandava a milícia dos moradores brasileiros da área; o combate deixou mortos dos dois lados, inclusive o oficial francês que chefiava a expedição.

O episódio empurrou os dois governos para a mesa. Em 1897, Brasil e França assinaram em Paris o compromisso de entregar a questão a um árbitro neutro, e o escolhido foi o Conselho Federal Suíço, que designou o então presidente da confederação, Walter Hauser, para relatar o caso.

A defesa brasileira coube a José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, que passou três anos garimpando arquivos em bibliotecas europeias e entregou aos suíços um memorial de seis volumes, com mapas antigos, correspondência diplomática e relatos de viajantes que amarravam o "Vicente Pinzón" do Tratado de Utrecht ao Oiapoque.

O laudo saiu em 1º de dezembro de 1900 e deu ganho de causa ao Brasil em quase toda a extensão pedida. A linha ficou no rio Oiapoque e, a partir das nascentes, no divisor de águas do Tumucumaque, exatamente onde ela está hoje. O território incorporado virou o Território Federal do Amapá em 1943 e estado em 1988.

O detalhe que fecha a história diz respeito ao próprio Rio Branco. A vitória em Berna consolidou a reputação que o levou ao Ministério das Relações Exteriores em 1902, cargo que ele ocupou até 1912, e de onde negociou por acordo direto, sem novas arbitragens, os limites com a Bolívia, o Peru, a Colômbia e o Uruguai.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três frases, 730 quilômetros e um rio

A curiosidade rende mais contada em ordem, e três frases resolvem a mesa:

1. Comece pelo número: a maior fronteira terrestre da França mede 730 quilômetros e fica com o Brasil, contra 623 quilômetros da linha com a Espanha, pelas fichas do World Factbook.

2. Explique a geografia: o vizinho é a Guiana Francesa, departamento ultramarino desde 1946, com euro em circulação e leis europeias em vigor.

3. Feche com a história: o traçado saiu de uma arbitragem suíça de 1900 que entregou ao Brasil o território que hoje se chama Amapá.

Para conferir sem depender de contador de caso, o caminho é curto: as fichas de país do World Factbook trazem o comprimento de cada fronteira francesa em quilômetros, e o laudo arbitral de 1900 está reproduzido na íntegra nas publicações oficiais do Itamaraty sobre a obra do Barão do Rio Branco.

O detalhe que mais surpreende na mesa tem a ver com o dinheiro. Um brasileiro que atravessa o rio em Oiapoque passa a gastar euro, faz compra sujeita ao imposto francês e entra num território onde vale o direito da União Europeia, sem ter saído da América do Sul nem pegado avião.

Vale corrigir de passagem um engano popular sobre o mapa. A expressão "do Oiapoque ao Chuí" sugere que a cidade amapaense marca o ponto mais ao norte do país, e ela não marca: o extremo setentrional brasileiro é o Monte Caburaí, em Roraima, cerca de 100 quilômetros acima da latitude de Oiapoque.

Há um efeito colateral pouco lembrado dessa vizinhança. Como a Guiana Francesa integra a União Europeia, o Brasil aparece na lista oficial de países que fazem fronteira terrestre com o bloco europeu, ao lado de nomes esperados como Noruega, Suíça, Turquia e Rússia.

A travessia cotidiana tem regra própria e pouca gente sabe dela. Moradores das duas cidades gêmeas circulam com um documento de fronteira, sem passaporte, num regime de trânsito local que os dois governos mantêm para quem vive na faixa, e que não vale para quem chega de fora.

"Você atravessaria de canoa uma fronteira que separa dois continentes jurídicos?"

Amanhã: o fuso horário do Nepal, adiantado em 45 minutos por decisão de uma montanha.

 
 
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Quiz da edição

Em maio de 1895, uma tropa francesa vinda de Caiena subiu o rio Amapá para prender o líder que comandava a milícia dos moradores brasileiros da área. Quem era ele?

AJules Gros
BWalter Hauser
CFrancisco Xavier da Veiga Cabral, o Cabralzinho
DBarão do Rio Branco

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