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Os 44 centímetros que a Torre de Pisa devolveu

Entre 1990 e 2001, engenheiros tiraram terra de baixo do lado norte da fundação e levaram a torre de volta à inclinação que ela tinha em 1838.

A Torre de Pisa inclinada sobre o gramado da Piazza del Duomo, vista da base, com o mármore claro dos oito andares.

A torre de Pisa vista do gramado da praça

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44 centímetros. Foi quanto o topo da Torre de Pisa recuou entre 1990 e 2001, depois que uma comissão de engenheiros passou onze anos retirando terra de baixo do lado norte da fundação. A correção devolveu ao campanário, a torre dos sinos da catedral de Pisa, a mesma inclinação que ele tinha por volta de 1838.

O número parece modesto e não é. A torre mede cerca de 57 metros do chão ao topo, e o ângulo caiu de aproximadamente 5,5 graus para menos de 4 graus, medida que a Opera della Primaziale Pisana, a instituição italiana que administra o conjunto da catedral desde o século XII, acompanha por sensores instalados na estrutura.

A obra nasceu de um susto concreto. O governo italiano fechou a torre à visitação em janeiro de 1990, quatro anos depois de a torre cívica de Pavia desabar sozinha numa manhã de março de 1989, sem rachadura prévia que avisasse os moradores. Ninguém queria descobrir na prática se o campanário de Pisa tinha a mesma vocação.

A solução escolhida contraria a intuição de quem olha o prédio de fora. Em vez de empurrar a torre para cima, os engenheiros tiraram solo do lado oposto ao da queda e deixaram o peso do próprio edifício acompanhar o vazio que se abria embaixo, num método chamado subescavação, a retirada controlada de terra por baixo de uma fundação.

O projeto também precisou responder uma pergunta que ninguém esperava ouvir num canteiro de restauro: quanto de torta a torre deveria continuar. A cidade vive do prédio inclinado, recebe milhões de visitantes por ano por causa dele, e endireitar a estrutura até o prumo apagaria a razão pela qual o mundo sabe onde fica Pisa.

A seção seguinte mostra como o canteiro funcionou por dentro: quem presidiu a comissão, quantas toneladas de chumbo seguraram a estrutura enquanto as sondas trabalhavam, quanto solo saiu por baixo e o que aconteceu na única vez em que a torre andou para o lado errado.

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I  A Curiosidade do Dia

A terra que saiu de baixo do lado norte

A comissão que resolveu o problema tinha presidente e endereço. Nomeada pelo governo italiano em 1990, ela foi presidida por Michele Jamiolkowski, professor de engenharia geotécnica do Politécnico de Turim, e reuniu especialistas em solo, estrutura e restauro de várias nacionalidades; o método que acabou vencendo veio de John Burland, do Imperial College London.

A primeira providência protegeu a pedra, não o ângulo. Em 1992, cintas de aço revestidas de plástico foram apertadas em volta do segundo andar, porque a torre é feita de duas cascas de mármore com um miolo de pedra e argamassa entre elas, e esse miolo estava sob compressão alta demais no lado sul, o lado para onde a estrutura pende.

O contrapeso veio em seguida e era feito de chumbo. Em julho de 1993, a equipe empilhou cerca de 600 toneladas de lingotes sobre um anel de concreto montado na base do lado norte, e a torre respondeu recuando cerca de um centímetro no topo, movimento pequeno que provou que a fundação ainda reagia a carga.

O chumbo resolvia o presente e criava um problema de imagem: quase mil toneladas de metal empilhadas na base do monumento mais fotografado da Itália não podiam ficar ali para sempre. A comissão precisava de uma solução que sumisse da paisagem depois de pronta, e foi essa exigência que levou à ideia de mexer no solo em vez de mexer na torre.

A tentativa de trocar o chumbo por cabos deu errado. No fim de 1995, a equipe tentou congelar o terreno para instalar ancoragens subterrâneas e liberar o contrapeso, o solo congelado se comportou de forma inesperada e a torre inclinou mais em poucas noites do que num ano inteiro; o episódio ficou conhecido no canteiro como o setembro negro do projeto, e a resposta foi elevar a carga de chumbo para cerca de 900 toneladas.

A subescavação começou de verdade em 1999. Doze sondas inclinadas, depois ampliadas para quarenta e uma, foram enfiadas obliquamente sob a fundação pelo lado norte, cada uma retirando alguns litros de argila por vez, num ritmo lento o bastante para que os sensores registrassem cada milímetro de reação da estrutura.

O volume total surpreende pela modéstia. Segundo o relato técnico de John Burland sobre a intervenção, saíram dali por volta de 38 metros cúbicos de solo, menos do que cabe num caminhão basculante grande, e esse vazio distribuído foi suficiente para a torre se acomodar de volta ao ângulo pretendido.

O chumbo desceu da base em 2001 e a torre foi reaberta à visitação em dezembro daquele ano, com escada liberada e número de visitantes controlado por horário. A comissão calculou que a correção compraria pelo menos duzentos anos de estabilidade, prazo assumido como meta desde o começo.

O monitoramento continuou depois da festa. Em 2008, os sensores registraram a estrutura parada pela primeira vez em sua história documentada, e em 2018 a Opera della Primaziale Pisana anunciou que a torre havia recuado mais cerca de quatro centímetros por conta própria, sem intervenção nova.

 
 

II  A História Por Trás

1173, o canteiro que afundou no terceiro andar

A pedra fundamental foi assentada em agosto de 1173. O campanário devia completar o conjunto da Piazza del Duomo, ao lado da catedral e do batistério, e a autoria do projeto é disputada entre Bonanno Pisano e Diotisalvi, dois construtores ativos na Pisa daquele século, sem documento que encerre a questão.

O defeito apareceu cedo e por baixo. Por volta de 1178, com o terceiro andar erguido, a estrutura já pendia, porque a fundação de apenas três metros de profundidade se apoiava numa camada de argila mole misturada a areia e conchas, herança de uma antiga zona de maré que ocupava o terreno.

A guerra salvou o prédio sem querer. As campanhas de Pisa contra Gênova, Lucca e Florença interromperam a obra por quase um século, e esse intervalo permitiu que o solo saturado se adensasse sob o peso já construído; com o canteiro ativo, a torre teria virado escombro antes de chegar ao meio.

A construção recomeçou em 1272, sob Giovanni di Simone. Diante de uma base torta, ele fez o que parecia razoável: ergueu os andares novos levemente curvos, com os degraus de um lado mais altos que os do outro, de modo que a torre tem hoje um perfil de banana, curvada na tentativa de corrigir o rumo enquanto subia.

A decisão de construir torto sobre torto é o que mantém o prédio de pé. Cada andar novo foi inclinado para dentro, na direção contrária à queda, e o centro de gravidade acabou recuando para perto do eixo da base; sem essa correção feita no olho por um mestre de obras do século XIII, a estrutura teria ultrapassado o limite de equilíbrio muito antes da era dos sensores.

A segunda parada veio da derrota naval. Depois da batalha da Meloria, em 1284, Pisa perdeu poder e dinheiro, e o topo só foi concluído por volta de 1372, com a câmara dos sinos atribuída a Tommaso Pisano, quase duzentos anos depois da primeira pedra.

O século XIX piorou tudo por excesso de zelo. Em 1838, o arquiteto Alessandro Della Gherardesca escavou uma vala em volta da base para expor as colunas da fundação, que o terreno havia engolido; a água do lençol freático aflorou no lado norte, o solo cedeu e a torre ganhou alguns centímetros de inclinação extra num intervalo curto.

O século XX repetiu o erro com material moderno. Em 1934, uma intervenção ordenada pelo governo de Benito Mussolini injetou centenas de furos de argamassa de cimento na fundação para consolidá-la, e a medição seguinte apontou novo agravamento do ângulo, porque a injeção comprimiu o solo de forma desigual.

O fechamento de 1990 encerrou a era das tentativas improvisadas. Dali em diante cada movimento passou a ser precedido de modelo matemático, ensaio em escala reduzida e simulação em laboratório, e a torre virou o experimento geotécnico mais observado da Europa.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três frases e os 44 centímetros da torre

A curiosidade rende mais contada em ordem, e três frases resolvem a mesa:

1. Comece pelo número: entre 1990 e 2001, o topo da Torre de Pisa recuou cerca de 44 centímetros e voltou à inclinação que tinha em 1838.

2. Explique o método: ninguém empurrou a torre, tiraram por volta de 38 metros cúbicos de argila por baixo do lado norte com sondas inclinadas, e o prédio se acomodou sozinho.

3. Feche com a escolha: a comissão presidida por Michele Jamiolkowski parou de propósito longe do prumo, porque uma torre reta deixaria de ser a Torre de Pisa.

Quem quiser conferir sem depender de contador de caso tem caminho curto: a Opera della Primaziale Pisana publica os boletins de monitoramento da estrutura, e John Burland, o engenheiro do Imperial College London que assinou o método, descreveu a intervenção em artigos técnicos abertos sobre o caso.

O detalhe que mais rende na mesa tem a ver com o peso. A torre soma cerca de 14.500 toneladas distribuídas em oito andares de mármore, apoiadas numa fundação rasa de três metros, e essa desproporção entre carga e base é a razão de o prédio ter começado a pender ainda no canteiro.

Vale desfazer de passagem a lenda mais repetida sobre o lugar. A história de Galileu Galilei soltando duas esferas de pesos diferentes do alto da torre aparece na biografia escrita por Vincenzo Viviani, discípulo dele, publicada em 1717, e não tem registro em nenhum texto do próprio Galileu nem em documento da época.

Há uma consequência prática pouco lembrada de tudo isso. A subescavação virou técnica de uso corrente na engenharia civil e foi aplicada depois em prédios afetados por escavação de metrô e de túnel em cidades europeias, o que faz do canteiro de Pisa um laboratório com aplicação bem além do turismo.

A visita também tem regra própria e pouca gente sabe dela. A subida percorre 251 degraus em espiral dentro da parede dupla de mármore, o acesso é feito em grupos com horário marcado, e crianças abaixo de oito anos não entram, porque a inclinação muda a sensação de equilíbrio de quem sobe e a escada não tem corrimão contínuo.

"Você subiria os degraus de um prédio que a engenharia decidiu deixar torto de propósito?"

Amanhã: o pigmento azul que um fabricante de tinta de Berlim obteve por acidente em 1706 e que os gravadores japoneses adotaram um século depois.

 
 
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