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Os 300 ossos do bebê que viram 206

O recém-nascido carrega quase cem ossos a mais que o adulto, e nenhum se perde: a moleira e o sacro mostram onde eles se soldam.

Radiografia da mão de uma criança, com espaços escuros de cartilagem entre os ossos do punho.

Mão de criança na radiografia

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300 ossos, em conta redonda. É o que um recém-nascido de 50 centímetros carrega debaixo da pele na primeira hora de vida, entre peças já calcificadas e peças que ainda são metade cartilagem. O adulto que esse bebê vai virar terá 206, a contagem que o manual Gray's Anatomy, publicado em Londres desde 1858, fixou como padrão do esqueleto humano.

A diferença de quase cem peças costuma gerar uma suspeita errada: a de que o corpo descarta ossos enquanto cresce. Nenhum osso é jogado fora. Eles se juntam. Peças que nascem separadas, presas por cartilagem ou por tecido fibroso, vão soldando umas nas outras até formar um bloco único, e cada solda reduz a conta em uma unidade.

Quem já segurou um bebê no colo sentiu a prova com a ponta dos dedos. No alto da cabeça existe uma área macia, em forma de losango, que os brasileiros chamam de moleira. Ali os ossos do crânio ainda não se encontraram, e o cérebro fica protegido só por uma membrana resistente e pelo couro cabeludo.

A moleira não é defeito nem fragilidade. Ela resolve dois problemas de engenharia. O primeiro é o parto: com as placas soltas, a cabeça se molda para atravessar o canal da pelve materna, e por essa razão muitos bebês nascem com o crânio levemente alongado, que se arredonda nas semanas seguintes. O segundo é o crescimento: o cérebro aumenta depressa nos primeiros anos, e um crânio já fechado não teria espaço para acompanhar.

A base da coluna faz a mesma operação em câmera lenta. As cinco vértebras que formam o sacro, o osso triangular que encaixa a coluna na bacia, nascem separadas e levam duas décadas para terminar de soldar. O quadril, o queixo e a testa também começam divididos e chegam inteiros à vida adulta.

A primeira seção mostra onde ficam essas soldas no corpo, qual fecha cedo e qual espera a vida adulta para fechar.

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I  A Curiosidade do Dia

Onde o esqueleto do bebê vai soldar

O esqueleto do recém-nascido é em boa parte um molde de cartilagem, o tecido firme e flexível que forma a ponta do nariz e a orelha. Dentro desse molde aparecem os centros de ossificação (pontos onde o cálcio começa a se depositar e a cartilagem vira osso), e cada centro conta como uma peça separada até encostar no vizinho.

O crânio é o exemplo mais visível. Ao nascer, a calota é formada por placas soltas: dois frontais, dois parietais, um occipital e as partes dos dois temporais, ligadas por suturas (faixas de tecido fibroso que funcionam como dobradiças). Onde três ou quatro placas se encontram sem se tocar ficam as fontanelas, o termo médico para moleira.

São seis fontanelas, e elas não fecham na mesma época. A posterior, na nuca, costuma se fechar entre o segundo e o terceiro mês de vida. A anterior, o losango do topo da cabeça, é a última e se fecha em geral entre os 12 e os 18 meses, faixa descrita pelas anatomistas Louise Scheuer e Sue Black no livro Developmental Juvenile Osteology, de 2000.

O osso da testa ensina a conta melhor que qualquer outro. O bebê nasce com dois frontais, separados por uma sutura vertical chamada metópica (do grego metopon, testa). Ela se fecha ainda no primeiro ano, e as duas metades viram o único osso frontal do adulto. Em algumas pessoas a sutura persiste e aparece na radiografia como uma linha vertical no centro da testa, sem prejuízo algum.

A bacia guarda a solda mais engenhosa do corpo. Cada osso do quadril nasce como três peças, o ílio, o ísquio e o púbis, que se encontram numa cartilagem em forma de Y dentro do acetábulo (a cavidade onde a cabeça do fêmur se encaixa). As três só se fundem na adolescência, e o encaixe da perna fica exatamente no ponto onde elas se juntaram.

A coluna segue o mesmo roteiro. O sacro começa como cinco vértebras independentes, cada uma com seus próprios centros de ossificação, e a solda entre elas avança durante a adolescência até terminar por volta dos 25 anos, segundo o livro de Scheuer e Black. Logo abaixo, o cóccix junta de três a cinco vértebras pequenas num osso só.

Os ossos longos, como o fêmur e o úmero, fazem uma soma diferente. Cada um nasce com um corpo central e extremidades separadas, as epífises, unidas por uma placa de crescimento (uma faixa de cartilagem que produz osso novo e alonga o membro). Enquanto a placa existe, o osso cresce; quando ela ossifica, extremidade e corpo viram peça única e a altura para de subir.

A última solda do esqueleto costuma ser a ponta da clavícula que encosta no esterno, que Scheuer e Black situam entre os 25 e os 30 anos. Por essa razão a conta de 206 só vale de fato para o adulto maduro, e um jovem de 18 anos ainda carrega peças que não terminaram de se juntar.

 
 

II  A História Por Trás

1543, o anatomista que corrigiu o queixo

O primeiro a contar os ossos humanos olhando para ossos humanos foi Andreas Vesalius, médico nascido em Bruxelas em 1514. Professor de anatomia na Universidade de Pádua, ele publicou em 1543, na cidade suíça de Basileia, o livro De humani corporis fabrica (Sobre a estrutura do corpo humano), com dezenas de gravuras de esqueletos e músculos desenhados a partir de cadáveres dissecados em aula.

Até ali, a autoridade era Galeno, médico grego que trabalhou em Roma no século II. Galeno dissecava sobretudo macacos e porcos, porque os costumes romanos vetavam abrir corpos humanos, e transferiu para o homem o que via nos animais. Durante cerca de 1.300 anos, as escolas de medicina da Europa ensinaram a anatomia dele sem conferir no cadáver.

A mandíbula virou uma das correções mais famosas. Galeno descreveu o osso do queixo como duas peças, o que vale para o cão e para o macaco. Vesalius mostrou que no adulto humano a mandíbula é peça única. As duas metades existem, mas só no bebê: a sínfise mandibular (a junta no centro do queixo) as solda no primeiro ano de vida, e Galeno tinha descrito como definitivo um estágio que no homem dura poucos meses.

A dissecação de adultos, porém, só mostrava o ponto de chegada. Para ver as soldas acontecendo num corpo vivo, a medicina esperou 352 anos, até dezembro de 1895, quando o físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen, em Würzburg, fotografou os ossos da mão da esposa, Anna Bertha, com um raio que atravessava a carne.

Com a radiografia, os pediatras passaram a enxergar cartilagem e osso em crianças saudáveis. A cartilagem aparece escura na chapa, porque deixa o raio passar, e o osso aparece branco. Os espaços escuros entre as peças do punho de uma criança são exatamente as soldas que ainda não aconteceram.

O passo seguinte veio de Cleveland, nos Estados Unidos. Entre 1931 e 1942, um estudo financiado pela Fundação Brush radiografou a mão e o punho de centenas de crianças da cidade em intervalos regulares, do nascimento à adolescência, e guardou as chapas numa série contínua.

Com esse arquivo, o anatomista William Walter Greulich e a pesquisadora S. Idell Pyle publicaram em 1950, pela Stanford University Press, o Radiographic Atlas of Skeletal Development of the Hand and Wrist (Atlas radiográfico do desenvolvimento esquelético da mão e do punho). O livro organiza as imagens por idade e sexo e permite comparar a chapa de uma criança com o padrão.

O atlas criou a ideia de idade óssea, usada até hoje nos consultórios. Uma criança de 10 anos com o punho típico de 8 tem ossificação atrasada, e o médico investiga hormônio de crescimento, tireoide ou nutrição. Legistas e tribunais usam o mesmo método para estimar a idade de quem não tem documento, e tratam o resultado como faixa provável, nunca como data exata, porque crianças saudáveis variam bastante entre si.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três frases sobre os ossos que se juntam

A curiosidade rende mais contada em ordem, e três frases resolvem a mesa:

1. Comece pela conta: o bebê nasce com cerca de 300 ossos e o adulto fica com 206, a contagem padrão do manual Gray's Anatomy, e nenhum osso some no caminho.

2. Explique a solda: as peças nascem separadas por cartilagem ou tecido fibroso e se fundem com o crescimento, como as placas do crânio, que deixam a moleira aberta até perto dos 18 meses, e as cinco vértebras do sacro, que só viram um osso perto dos 25 anos.

3. Termine com a virada histórica: Andreas Vesalius, em 1543, corrigiu Galeno ao mostrar que a mandíbula humana adulta é um osso só, quando o médico grego a descrevia em duas partes a partir de animais.

A conta de 206 é convenção, não lei. Ela inclui as duas patelas, mas deixa fora os demais sesamoides (ossinhos que crescem dentro de tendões, comuns no polegar e no pé) e os ossos suturais, pequenas ilhas ósseas que às vezes surgem entre as placas do crânio. Um adulto pode ter alguns ossos a mais que o vizinho e continuar perfeitamente normal.

A patela, o osso do joelho, rende um segundo espanto. O bebê nasce com ela inteira em cartilagem, e a ossificação só começa entre os 3 e os 6 anos, segundo Scheuer e Black. Quem engatinha apoia o joelho num disco macio, não num osso.

O punho explica por que os livros não batem na conta do nascimento. Os oito ossos do carpo nascem como cartilagem pura e só aparecem na radiografia um a um, do primeiro ano até o começo da adolescência. Quem conta essas peças de cartilagem chega perto de 300; quem conta só o que já calcificou fica mais perto de 270. As duas contas estão certas, cada uma com seu critério.

Para quem tem filho pequeno, a moleira aberta é o sinal esperado, não o problema. O pediatra mede o fechamento nas consultas porque uma sutura que solda cedo demais, quadro chamado craniossinostose (fechamento precoce das suturas do crânio), pode deformar a cabeça e exige cirurgia, enquanto a moleira que fecha no prazo só confirma que o roteiro das soldas está andando.

"Você imaginava que o seu esqueleto ainda estava terminando de se formar depois dos 20 anos?"

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