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Os 18 da Victoria voltaram com 1 dia a menos

Na primeira volta ao mundo, o diário marcava quarta-feira, e Cabo Verde já vivia a quinta. Ninguém tinha errado a conta.

A nau Victoria, de velas gastas, ancorada diante da ilha de Santiago, em Cabo Verde.

Nau Victoria em Cabo Verde, 1522

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1 dia. Era a diferença entre o diário de bordo da nau Victoria e o calendário de Santiago, ilha de Cabo Verde, quando o navio lançou âncora ali no dia 9 de julho de 1522.

A bordo vinham os restos da expedição de Fernão de Magalhães, a primeira a dar a volta completa ao planeta. O casco fazia água, o porão cheirava a cravo, e a tripulação passava fome havia semanas.

A ilha era portuguesa. Espanha e Portugal disputavam as rotas das especiarias, e a Victoria navegava a serviço da Espanha. O capitão Juan Sebastián Elcano mandou um bote à terra com uma história inventada: o navio voltava da América e tinha perdido o mastro numa tempestade.

Antes de partir, os homens do bote receberam uma ordem curiosa. Deviam perguntar em terra qual era o dia da semana.

Em terra responderam: quinta-feira. No navio, todo mundo tinha certeza de que era quarta.

O piloto Francisco Albo, que guardava o diário de navegação com as posições do sol, também marcava quarta-feira. Dois registros feitos por mãos diferentes, com o mesmo atraso, descartavam o descuido de um homem só.

Antonio Pigafetta, o cronista italiano da viagem, levou um susto. Ele tinha anotado cada dia, sem pular nenhum, desde a saída da Espanha, quase três anos antes. Os pilotos também conferiam a data a cada manhã para calcular a posição do navio.

Ninguém tinha errado a conta. Mesmo assim, o calendário de bordo estava atrasado, e as igrejas, os mercados e os portos da Europa e da África concordavam com a ilha, não com o navio.

A dúvida acompanhou os sobreviventes até a Espanha. Nenhum deles sabia explicar como um diário escrito com tanto cuidado podia estar errado.

A resposta estava no céu, na rota do sol. A primeira parte abaixo mostra como uma viagem sempre para oeste apaga uma data inteira, sem que ninguém perceba o furto.

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I  A Curiosidade do Dia

A data que o sol engoliu

A resposta de ontem

Qual palavra do guugu yimithirr o mundo usa desde 1770?

Canguru. Em 1770, com o Endeavour parado para conserto no rio onde hoje fica Cooktown, Cook e o naturalista Joseph Banks anotaram kangooroo, do guugu yimithirr gangurru, o canguru-cinzento. A lenda de que a palavra queria dizer "não entendo" caiu em 1972, quando o linguista John Haviland ouviu gangurru dos falantes de Hope Vale.

A Terra gira uma volta completa a cada 24 horas, de oeste para leste. Quem fica parado vê o sol nascer, cruzar o céu e se pôr, e conta um dia a cada volta.

Agora coloque um navio andando no sentido contrário, para oeste. Ele foge do sol um pouco a cada dia. O meio-dia, hora em que o sol fica mais alto, chega para a tripulação alguns minutos depois do horário em que chegaria se o navio estivesse parado.

A conta é simples. O planeta tem 360 graus de volta, e o sol percorre 15 graus por hora. Cada 15 graus vencidos rumo a oeste atrasam o relógio do navio em uma hora.

Na Victoria, os dias de bordo ficaram um pouco mais compridos que 24 horas. Os pilotos marcavam o meio-dia pelo sol, como se fazia na época, e acertavam a ampulheta (relógio de areia) por ele. Sem perceber, esticavam cada dia.

Em três anos, a soma dos minutos fechou exatamente 24 horas, porque o navio completou uma volta inteira de 360 graus no sentido oeste. A tripulação viu um nascer do sol a menos do que quem ficou em Sevilha.

Quem dá a volta ao mundo para oeste vê um nascer do sol a menos. Quem dá a volta para leste vê um a mais.

A perda não depende da velocidade nem da duração da viagem. Um avião que circule o planeta para oeste em dois dias perde exatamente a data que a Victoria perdeu em três anos. O que conta é a volta completa em torno do eixo.

No sentido contrário, o efeito se inverte. Um navio que siga sempre para leste corre ao encontro do sol, encurta cada dia e chega em casa com uma data sobrando no diário.

Nenhum relógio da época podia denunciar o atraso. Ampulhetas e relógios de sol medem o dia local, e o dia local da Victoria era o dia certo para o trecho de mar onde ela estava. O erro só aparecia ao comparar o diário com o calendário de quem tinha ficado parado.

Foi o que aconteceu em Santiago. A ilha guardava o calendário europeu, contado por gente que nunca saiu do lugar, e a comparação revelou a data que faltava.

Pigafetta conta que a dúvida rondou o convés. Os homens repassaram as anotações e não acharam falha. A explicação viria em terra firme, dada por um diplomata italiano na corte espanhola.

 
 

II  A História Por Trás

Três anos atrás do sol

A expedição tinha saído de Sanlúcar de Barrameda, na Espanha, no dia 20 de setembro de 1519, com cinco naus (navios grandes de carga) e cerca de 240 homens, sob o comando do português Fernão de Magalhães, a serviço do rei Carlos I da Espanha.

O objetivo era comercial. Magalhães queria chegar às Molucas, as ilhas das especiarias, na atual Indonésia, navegando para oeste, longe das rotas que o Tratado de Tordesilhas, de 1494, reservava a Portugal.

Em 1520, a frota encontrou a passagem no sul da América que hoje leva o sobrenome do comandante, o Estreito de Magalhães. Uma das naus, a San Antonio, desertou ali e voltou sozinha para a Espanha. Outra, a Santiago, já tinha naufragado num reconhecimento da costa.

A travessia do Pacífico durou mais de três meses sem terra à vista. Pigafetta registrou que os homens comeram biscoito podre, serragem e o couro que protegia as vergas (as traves que seguram as velas), amolecido na água do mar.

Em abril de 1521, Magalhães caiu em combate na ilha de Mactan, nas Filipinas, numa luta contra o chefe local Lapu-Lapu. Sem gente para tantos navios, a frota queimou a nau Concepción.

A Trinidad tentou voltar pelo Pacífico e acabou capturada pelos portugueses nas Molucas. Restou a Victoria, sob Juan Sebastián Elcano, um basco que tinha embarcado como mestre (o oficial logo abaixo do capitão).

Elcano escolheu o caminho mais arriscado para casa: cruzar o oceano Índico e contornar a África, longe dos portos portugueses, com o porão cheio de cravo.

Das cinco naus que saíram em 1519, só a Victoria completou a volta, e só 18 homens desembarcaram dela na Espanha.

A parada em Santiago custou caro. Na segunda viagem do bote, um marinheiro tentou pagar arroz com cravo, e os portugueses perceberam de onde o navio vinha. Prenderam 13 homens em terra, e a Victoria fugiu antes de ser tomada.

No dia 6 de setembro de 1522, a nau entrou em Sanlúcar com 18 tripulantes europeus. Dois dias depois, já em Sevilha, eles caminharam descalços, de vela na mão, até a igreja de Santa María de la Victoria para cumprir a promessa feita no mar.

Pigafetta deixou o susto por escrito na Relazione del primo viaggio intorno al mondo (Relato da primeira viagem ao redor do mundo), terminada por volta de 1524:

“Mandamos perguntar em terra que dia era, e nos disseram que para eles era quinta-feira. Ficamos espantados, porque para nós era quarta-feira, e não sabíamos como tínhamos errado.”

A explicação chegou pela boca de Gasparo Contarini, embaixador de Veneza junto a Carlos I. Ele ouviu o caso na corte e deu a resposta certa: navegando atrás do sol, a tripulação tinha contado um dia a menos.

O cronista Pedro Mártir de Anglería, que entrevistou os sobreviventes, registrou a mesma conta em latim nas Décadas do Novo Mundo e tratou o dia perdido como uma das maravilhas da viagem.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Uma linha no meio do Pacífico

A data que a Victoria perdeu continua sendo perdida e devolvida a cada dia, por todo navio e avião que cruza o Pacífico. A diferença é que hoje existe um lugar combinado para o acerto.

A Linha Internacional de Data corre pelo meio do Pacífico, perto do meridiano 180 (a linha imaginária oposta à de Greenwich). Quem cruza a linha rumo a oeste pula um dia no calendário; quem cruza rumo a leste repete um.

A Conferência Internacional do Meridiano, reunida em Washington em 1884, escolheu Greenwich como ponto zero das longitudes. A linha de data veio como consequência prática, e os países foram ajustando o traçado aos próprios interesses.

As Filipinas viveram três séculos com o calendário da Victoria. Colonizadas por espanhóis que chegavam pelo México, navegando para oeste, as ilhas contavam um dia atrás dos vizinhos asiáticos. Em 1844, o governo colonial apagou o dia 31 de dezembro para entrar no calendário de Macau e de Cantão.

Júlio Verne fez do fenômeno o desfecho de A Volta ao Mundo em 80 Dias, de 1873. Phileas Fogg viaja para leste, acha que perdeu a aposta por um dia e descobre, quase tarde demais, que ganhou uma data no caminho.

O dia da Victoria não sumiu: ele ficou no mar, e cada viajante que cruza o Pacífico perde ou recupera aquela mesma data.

Para levar a história ao jantar, três passos:

1. Pergunte quantos nasceres do sol vê quem dá a volta ao mundo: quase todo mundo responde que vê o mesmo número de quem ficou em casa.

2. Conte a cena de Santiago: o diário marcava quarta-feira, a ilha dizia quinta, e Pigafetta tinha anotado todos os dias.

3. Explique pelo relógio: 15 graus rumo a oeste atrasam o meio-dia em uma hora, e 360 graus somam um dia inteiro.

“Você sabia que os primeiros homens a dar a volta ao mundo voltaram para casa com um dia a menos no calendário?”

A linha de data ainda muda de lugar quando um governo decide. Em 2011, um país inteiro do Pacífico trocou de lado para acertar o calendário com a Austrália e a Nova Zelândia, e a população foi dormir numa quinta-feira para acordar no sábado.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual país do Pacífico pulou a sexta-feira 30 de dezembro de 2011 inteira?

 
 
Quiz da edição

Quem deu a Juan Sebastián Elcano e à corte espanhola a explicação certa pro dia perdido no diário da Victoria?

AAntonio Pigafetta, cronista italiano da viagem
BFrancisco Albo, piloto que guardava o diário de navegação
CGasparo Contarini, embaixador de Veneza na corte espanhola
DPedro Mártir de Anglería, cronista que entrevistou os sobreviventes

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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