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Os 14 navios que passaram 8 anos presos no Canal de Suez
Em 1967, a guerra trancou 14 cargueiros num lago egípcio. As tripulações criaram uma associação, um correio e uma olimpíada.
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A Frota Amarela no Grande Lago Amargo
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14 navios, 5 de junho de 1967. Foi o número de cargueiros que ficou trancado no Grande Lago Amargo, no meio do Canal de Suez, quando a Guerra dos Seis Dias estourou entre Israel e Egito.
Os comandantes tinham entrado no canal para uma travessia de rotina entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo. O comboio parou no lago largo, a meio caminho, para esperar os navios que vinham no sentido oposto. A espera virou outra história quando os tiros começaram.
O Egito afundou barcaças, dragas e navios velhos nos trechos estreitos para bloquear a passagem. Atrás e à frente dos cargueiros, a água ficou entupida de cascos afundados e minas. Não havia rota de saída.
O nome do lago vem da própria água. O Grande Lago Amargo fica numa bacia rasa do deserto, onde o sol evapora a água mais depressa, e a água acaba mais salgada que o mar nas duas pontas do canal.
Ninguém a bordo imaginava quanto tempo a parada ia durar. Os comandantes falavam em dias, depois em semanas. A resposta chegou só em 1975, oito anos depois.
Nesse intervalo, o vento do deserto cobriu conveses, mastros e guinchos com uma camada fina de areia. De longe, os cascos pareciam pintados da mesma cor, e os jornais passaram a chamar o grupo de Frota Amarela.
As bandeiras dos 14 cargueiros vinham de oito países, e a Guerra Fria cortava o lago ao meio. De um lado da Cortina de Ferro estavam navios britânicos, alemães ocidentais, suecos, franceses e um americano. Do outro, dois poloneses, um búlgaro e um tchecoslovaco.
Em terra, os governos desses países mal se falavam. Na água parada, os marinheiros descobriram que precisavam uns dos outros para conseguir comida, trocar peças, tratar um doente e atravessar semanas sem nada para fazer.
Os marinheiros não esperaram ordem de ninguém. Montaram uma pequena república flutuante, com regras, correio próprio, cinema, missa de domingo e, no segundo ano, uma olimpíada. Os três capítulos a seguir contam como tripulações de lados rivais transformaram um lago salgado em endereço fixo.
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I A Curiosidade do Dia
Uma associação com sede na água
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A Frota Amarela, apelido dos 14 cargueiros presos no Grande Lago Amargo, ganhou forma de organização ainda em 1967, poucos meses depois do fechamento do canal.
Os comandantes fundaram a Great Bitter Lake Association (Associação do Grande Lago Amargo), um clube com sócios, reuniões e símbolo próprio. Cada navio era membro, e as reuniões mudavam de convés conforme a vez de receber.
A divisão de tarefas seguiu a especialidade de cada casco. Um navio com câmara frigorífica guardava comida para os vizinhos. Outro tinha médico a bordo e atendia quem ficasse doente. Um terceiro exibia filmes, e as tripulações cruzavam a água em botes salva-vidas para assistir.
A missa de domingo também circulava. Marinheiros católicos poloneses e protestantes britânicos rezavam juntos num convés, sem que ninguém perguntasse de que lado da Guerra Fria o vizinho estava.
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A associação fez o que os governos não fizeram: pôs marinheiros de oito bandeiras rivais para dividir comida, remédio e diversão durante oito anos.
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O esporte virou a atividade mais levada a sério. Em 1968, ano dos Jogos Olímpicos da Cidade do México, a associação organizou as suas próprias Olimpíadas do Lago Amargo, com provas adaptadas ao que havia disponível.
A vela foi disputada com botes salva-vidas e lonas improvisadas. Houve corrida, salto em altura, arremesso, tiro e futebol, jogado nos conveses mais largos. Os pódios foram montados em cima das tampas dos porões.
As medalhas saíram das oficinas de bordo, recortadas e gravadas à mão. A delegação da Polônia terminou no topo do quadro de medalhas, e a vitória virou motivo de festa nos dois navios poloneses.
Os jogos serviram a um propósito prático. Tripulações reduzidas, isoladas e sem prazo de saída tinham tudo para brigar entre si. Uma competição com regras, torcida e troféu dava um motivo para treinar, conversar e rir.
O correio foi a criação mais engenhosa. Os marinheiros desenharam selos próprios da associação, com o nome do lago e desenhos dos navios, e passaram a carimbar as cartas que mandavam para casa.
As autoridades egípcias deixaram as cartas seguirem pelo correio oficial, desde que levassem também o selo egípcio. Com o tempo, os envelopes com os dois selos viraram peça de colecionador, disputados por filatelistas (colecionadores de selos) de vários países.
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II A História Por Trás
A guerra que trancou o canal por oito anos
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O Canal de Suez, aberto em 1869 para ligar o Mediterrâneo ao Mar Vermelho, fechou em junho de 1967 porque virou linha de frente da Guerra dos Seis Dias.
Em seis dias de combate, Israel ocupou a Península do Sinai, e as tropas israelenses chegaram à margem leste do canal. O Egito ficou na margem oeste. A água virou fronteira armada, e nenhum dos dois lados tinha interesse em abrir passagem para o outro.
Os navios parados no Grande Lago Amargo ficaram exatamente entre os dois exércitos. As tripulações ouviam tiroteios e bombardeios nas margens durante a chamada Guerra de Atrito, a série de ataques trocados entre Egito e Israel de 1967 a 1970.
Os donos dos navios tentaram tirá-los dali desde o primeiro ano. O Egito recusou todas as propostas de retirada, porque limpar um trecho do canal abriria caminho também para os adversários.
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Os cargueiros nunca foram abandonados: os armadores mantiveram tripulações a bordo durante os oito anos para não perder a posse do navio e da carga.
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A lei marítima pesou na decisão. Navio sem ninguém a bordo podia ser tratado como abandonado, e as seguradoras e os donos da carga tinham milhões em jogo. A solução foi deixar equipes mínimas cuidando das máquinas e do casco.
As equipes grandes do começo foram encolhendo. Com o tempo, cada navio passou a manter só alguns homens, trocados em rodízio a cada poucos meses. Os marinheiros novos chegavam de barco pelo lado egípcio e ficavam até a próxima troca.
A carga teve destinos diferentes. Frutas, ovos e alimentos perecíveis apodreceram nos porões nos primeiros meses e foram despejados no lago. Algodão, metais e produtos industriais aguentaram a espera e seguiram guardados.
Os navios foram reunidos em grupos, amarrados lado a lado, para facilitar a vigilância e a travessia entre os cascos. A cena lembrava um bairro flutuante, com passarelas de tábua ligando um convés ao seguinte.
Em outubro de 1973, uma nova guerra atingiu a região. Na Guerra do Yom Kippur (o Dia do Perdão judaico, data em que o ataque começou), tropas egípcias atravessaram o canal, e a luta passou mais uma vez pela margem do lago.
A guerra de 1973 mudou o equilíbrio político. O acordo de retirada negociado depois dela abriu caminho para a limpeza do canal, feita com ajuda de equipes americanas, britânicas e francesas que removeram minas e cascos afundados.
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