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O vulcão que apagou o verão de 1816

Em abril de 1815, o Tambora explodiu na Indonésia. No ano seguinte, nevou em junho nos Estados Unidos e nasceu o Frankenstein.

Céu cinzento e neve sobre um campo de milho no verão de 1816.

Neve em junho, na Nova Inglaterra de 1816

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2.600 quilômetros, abril de 1815. Foi a distância que o estrondo de um vulcão percorreu pelo arquipélago que hoje forma a Indonésia, segundo os relatos reunidos pelo governador britânico de Java, Thomas Stamford Raffles.

Os estampidos chegaram a ilhas tão afastadas que os soldados acharam que era tiro de canhão. Em Java, Raffles mandou tropas para a costa atrás de piratas ou de um navio em combate. Não encontraram nada.

O barulho vinha do monte Tambora, na ilha de Sumbawa. A montanha tinha passado séculos quieta, coberta de mata, e os moradores dos reinos em volta nem a tratavam como vulcão ativo.

Na noite de 10 de abril, a montanha se abriu. Três colunas de fogo subiram do topo e se juntaram no céu, contaram sobreviventes aos funcionários britânicos que chegaram semanas depois.

A cinza caiu por dias. Em partes de Sumbawa e da ilha vizinha de Lombok, o dia virou noite, as plantações sumiram debaixo de uma camada cinzenta e a água dos poços ficou imprestável.

Quem sobreviveu à explosão enfrentou a fome que veio atrás. Dois reinos da ilha, Tambora e Sanggar, deixaram de existir, com a população inteira soterrada ou espalhada.

Até aqui, a história parece local: uma tragédia numa ilha distante, contada em cartas coloniais que quase ninguém na Europa leu naquele ano.

O que ninguém sabia em 1815 é que a montanha tinha jogado outra carga, invisível, muito acima das nuvens. Essa carga deu a volta no planeta e levou o frio para lugares que nunca tinham ouvido falar de Sumbawa.

Um ano depois, fazendeiros da Nova Inglaterra, no nordeste dos Estados Unidos, viram neve cair em pleno junho. Na Suíça, a chuva não parou. E numa casa alugada à beira do lago de Genebra, um grupo de jovens escritores, preso pelo mau tempo, fez uma aposta que mudou a literatura.

As três partes a seguir contam como um vulcão esfriou o hemisfério norte, o que aconteceu dentro daquela casa e o que o ano sem verão deixou de herança.

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I  A Curiosidade do Dia

A névoa seca que ninguém enxergava

O monte Tambora, vulcão da ilha de Sumbawa, na Indonésia, soltou em abril de 1815 a maior erupção registrada por testemunhas na história humana. A montanha perdeu o topo: tinha mais de 4.000 metros e ficou com 2.850, com uma cratera de 6 quilômetros de largura no lugar do pico.

A parte que mudou o clima não foi a lava nem a cinza grossa. Foi o gás. A erupção lançou dióxido de enxofre (gás que, no alto do céu, reage com água e vira gotículas de ácido) até a estratosfera (camada do ar acima das nuvens, onde não chove).

Lá em cima, sem chuva para lavar o céu, as gotículas ficaram flutuando por meses. Os ventos da estratosfera espalharam o véu pelo globo inteiro, dos trópicos até os polos.

O véu funcionou como um guarda-sol fino. Deixava passar a claridade, mas refletia de volta ao espaço uma parte do calor do Sol. Na Terra, o dia continuava claro e o ar ficava mais frio.

O vulcanólogo Clive Oppenheimer, da Universidade de Cambridge, calculou em 2003, na revista Progress in Physical Geography, que a temperatura média do hemisfério norte caiu entre 0,4 °C e 0,7 °C no ano seguinte à erupção.

Parece pouco, e para o clima é muito. A média esconde os extremos: ondas de ar polar que desceram fora de época e geadas em semanas que deveriam ser as mais quentes do ano.

Em 6 de junho de 1816, nevou em Vermont e em New Hampshire. Em julho e agosto, geadas mataram o milho em fazendas da Nova Inglaterra. Os moradores apelidaram o ano de "Eighteen Hundred and Froze to Death" ("Mil oitocentos e morreu de frio").

Na Europa, o problema foi a chuva. Na Suíça e no sul da Alemanha, as colheitas apodreceram no campo. O preço do pão disparou, houve saques a padarias na França e na Inglaterra, e milhares de famílias da Europa Central emigraram para a América atrás de comida.

Ninguém em 1816 ligou o frio ao vulcão. Os jornais culpavam as manchas solares, os raios e até os para-raios recém-instalados. A ligação só apareceu em 1920, quando o físico americano William Humphreys, do Serviço Meteorológico dos Estados Unidos, cruzou os registros de temperatura com as grandes erupções do século anterior.

 
 

II  A História Por Trás

A aposta na Villa Diodati

Mary Wollstonecraft Godwin, de 18 anos, que dois anos depois assinaria Mary Shelley, chegou ao lago de Genebra em maio de 1816, com o poeta Percy Bysshe Shelley e a meia-irmã Claire Clairmont.

Os três se hospedaram perto da Villa Diodati, uma casa de pedra alugada pelo poeta Lord Byron, o escritor mais famoso da Inglaterra naquele ano. Byron viajava com o médico particular, John Polidori, de 20 anos.

O plano era passar o verão velejando no lago e caminhando pelos Alpes. O céu não deixou. Tempestades atravessavam o vale quase todo dia, e o grupo passou semanas trancado na sala da casa, lendo em voz alta.

"Mas o verão se mostrou úmido e pouco amigável, e a chuva incessante muitas vezes nos confinava por dias dentro de casa." (Mary Shelley, introdução de "Frankenstein", edição de 1831)

Numa dessas noites, em meados de junho, depois de lerem uma coletânea alemã de contos de fantasmas, Byron propôs uma competição: cada um escreveria a sua história de terror.

Da aposta feita por cinco pessoas presas pela chuva saíram dois gêneros: o Frankenstein de Mary, que abriu a ficção científica, e "O Vampiro", de Polidori, primeiro conto em inglês com o vampiro aristocrata.

Mary passou dias sem ideia. A história veio numa madrugada, depois de uma conversa entre Byron e Percy sobre experimentos com eletricidade e sobre a possibilidade de devolver movimento a um corpo sem vida.

Ela contou depois que viu a cena de olhos fechados, na cama: um estudante ajoelhado junto da criatura que tinha montado, e a criatura começando a se mexer. Na manhã seguinte, escreveu as primeiras linhas.

O conto cresceu até virar romance. "Frankenstein, ou o Prometeu Moderno" saiu em Londres em 1º de janeiro de 1818, sem o nome da autora na capa. Muitos críticos atribuíram o livro a Percy.

O clima do verão entrou nas páginas. Os cenários de geleira, tempestade e céu escuro do livro são os Alpes de 1816, que Mary viu num passeio ao vale de Chamonix em julho, debaixo de chuva.

Byron também escreveu naquele ano. O poema "Darkness" ("Escuridão"), de julho de 1816, descreve um mundo em que o Sol se apagou e as pessoas queimam as casas para ter luz.

Polidori publicou "O Vampiro" em 1819. O editor pôs o nome de Byron na capa, e o médico passou meses tentando provar que o conto era dele.

Mary só teve o nome impresso na capa na segunda edição, de 1823, cinco anos depois da estreia. A partir daí, a autoria do romance deixou de ser dúvida.

 

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III  Pra Contar na Mesa

O frio que ficou nas telas e nas rodas

O pintor inglês J. M. W. Turner pintou nos anos seguintes a 1815 alguns dos céus mais alaranjados da história da arte. O pó do vulcão, espalhado na estratosfera, deixava o pôr do sol na Europa com cores mais fortes.

Em 2007, uma equipe liderada pelo físico grego Christos Zerefos, da Academia de Atenas, mediu na revista Atmospheric Chemistry and Physics a proporção de vermelho e verde em mais de 500 quadros de pôr do sol e achou o céu mais vermelho nos anos depois das grandes erupções.

Há quem ligue o ano sem verão também à bicicleta. O historiador alemão Hans-Erhard Lessing defende que a falta de aveia matou cavalos e empurrou o inventor Karl Drais a criar, em 1817, a draisiana (bicicleta de madeira sem pedal, empurrada com os pés). Outros historiadores acham a ligação fraca, e ela segue como hipótese, sem documento do próprio Drais que a confirme.

Nos Estados Unidos, o frio de 1816 empurrou famílias da Nova Inglaterra para o oeste, rumo a Ohio e Indiana, atrás de terra com verão mais seguro.

O rastro químico da erupção também ficou guardado no gelo. Cilindros de gelo retirados da Groenlândia e da Antártida trazem uma camada de sulfato (sal do enxofre que caiu com a neve) depositada entre 1815 e 1816, e é por ela que os cientistas reconhecem o Tambora nos registros do gelo.

O livro de Mary teve vida mais longa que o frio. Frankenstein chegou ao cinema em 1910, num curta mudo produzido pelo estúdio de Thomas Edison, e a criatura virou um dos personagens mais adaptados da ficção.

O Tambora ainda é um vulcão ativo. Hoje tem 2.850 metros, e a cratera de 1815 guarda um lago. Uma equipe do vulcanólogo Haraldur Sigurdsson, da Universidade de Rhode Island, encontrou em 2004, sob a cinza, restos de casas, cerâmica e ossos de moradores do reino de Tambora.

Para contar a história numa roda de conversa, três passos bastam:

1. Comece pela data: em abril de 1815, o monte Tambora explodiu na Indonésia e jogou enxofre acima das nuvens.

2. Conte o efeito: em 1816, nevou em junho nos Estados Unidos e a chuva não parou na Europa.

3. Termine na casa: presos pela chuva em Genebra, Byron e amigos apostaram quem escrevia o melhor conto de terror, e Mary Shelley escreveu o Frankenstein.

"Se um verão chuvoso trancasse você em casa por semanas, o que você escreveria?"

Amanhã: o farol de Alexandria e o espelho que guiava navios à noite.

 
 
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Segundo o texto, além do Frankenstein de Mary Shelley, que outro gênero literário nasceu da aposta feita na Villa Diodati em 1816?

AO romance histórico, com Walter Scott
BO conto de vampiro aristocrata, com O Vampiro de John Polidori
CO romance gótico americano, com Edgar Allan Poe
DA ficção de viagem no tempo, com H.G. Wells

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