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O vombate faz cocô em forma de cubo
A parede do intestino tem faixas de elasticidade diferente e molda de 80 a 100 cubos por noite, achado premiado com o Ig Nobel de 2019.
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Vombate e a pilha de cubos sobre a pedra
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De 80 a 100 cubos por noite. É quanto um vombate adulto deixa nas trilhas, nos troncos caídos e no alto das pedras do mato australiano, cada peça com cerca de dois centímetros de lado e quinas que se enxergam a olho nu.
A forma incomoda porque o corpo de animal nenhum costuma entregar ângulo reto. Cristal de sal tem quina, favo de abelha tem quina, mas tubo digestivo é cilindro molhado, e cilindro molhado devolve bolinha, salsicha ou placa mole. O vombate devolve dado de jogar.
A explicação intuitiva aponta para a saída. Se a peça tem quatro faces planas, alguém imagina um orifício quadrado funcionando como bico de confeiteiro, extrudando a massa contra as bordas até formar a aresta. A dissecação derruba a hipótese em dez segundos: o ânus do vombate é redondo e elástico como o de qualquer outro mamífero, e a peça já sai pronta, com as quinas feitas antes de chegar ali.
O animal em questão é o vombate-comum, batizado em latim como Vombatus ursinus, marsupial escavador de uns 25 quilos, parente próximo do coala, que vive no sul da Austrália e na Tasmânia. Passa o dia num túnel que ele mesmo cava e sai à noite para comer capim duro, raiz e casca, alimento pobre e fibroso que exige um aparelho digestivo lento.
A lentidão é o primeiro pedaço da resposta. A comida atravessa o vombate em até quatro dias, tempo em que o animal retira quase toda a água disponível e chega ao fim do processo com uma massa seca, firme, mais parecida com argila enxuta do que com pasta. Massa mole não guardaria aresta nenhuma; a massa do vombate guarda.
Falta então o segundo pedaço, o que dobra a quina. Ele apareceu quando dois engenheiros levaram intestinos de vombate para a bancada, cortaram anéis do trecho final e encheram cada anel de ar para medir onde a parede cedia.
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I A Curiosidade do Dia
Duas faixas duras e duas moles
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A medição saiu do laboratório de Patricia Yang e David Hu, engenheiros do Georgia Institute of Technology, nos Estados Unidos, que em 2018 abriram intestinos de vombates atropelados cedidos pelo ecologista Scott Carver, da Universidade da Tasmânia.
O primeiro dado veio antes de qualquer instrumento. Ao abrir o tubo em toda a extensão, a equipe encontrou a massa ainda pastosa e sem forma durante quase todo o percurso, e cubos já prontos, empilhados como blocos de montar, apenas nos últimos centímetros. O trecho final, algo perto de 17% do comprimento do intestino, é a oficina.
O teste seguinte foi grosseiro de propósito. Eles cortaram anéis desse trecho, inflaram cada anel como se fosse um balão e mediram quanto cada pedaço da circunferência esticava sob a mesma pressão. Num tubo comum, a parede cede por igual e o anel vira círculo maior. No vombate, a volta esticou de forma desigual: dois trechos opostos se alongaram bastante e dois trechos, também opostos, quase não cederam.
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Ao inflar anéis do trecho final do intestino de vombate, Patricia Yang e David Hu mostraram em 2018 que a parede estica muito em dois pontos e quase nada em outros dois, e é essa desigualdade que produz as quinas.
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Com o mapa de rigidez na mão, o resto da mecânica se desenha sozinho. O intestino aperta a massa em ondas, o peristaltismo, o movimento de contração que empurra o conteúdo adiante. A cada aperto, as faixas moles se abaúlam e formam face plana, as faixas duras seguram e vincam a aresta, e a repetição do gesto ao longo de dias vai gravando o mesmo vinco sempre no mesmo lugar.
A secura entra como condição de sobrevivência da forma. O vombate é um dos mamíferos que mais recupera água no intestino grosso, e a massa chega ao trecho final com pouca água livre, o suficiente para se deixar amassar e depois manter o formato. Uma massa úmida cederia de volta ao redondo assim que a contração afrouxasse.
O resultado não é um cubo de geometria escolar. As faces saem levemente côncavas, as arestas têm cantos arredondados e o tamanho varia com a idade e o capim da estação, mas a peça é reconhecível de longe e continua sendo um poliedro de quatro faces laterais, forma que nenhum outro animal conhecido fabrica dentro do próprio corpo.
O interesse dos engenheiros nunca foi escatológico. Fabricar objeto com quina exige, na indústria, molde rígido ou corte, e um tubo mole que produz aresta só variando a elasticidade da parede sugere um terceiro caminho de manufatura, barato, que o laboratório de Hu passou a testar em tubos de borracha com regiões de rigidez diferente.
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II A História Por Trás
O prêmio que veio antes da explicação
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O primeiro a insistir no assunto foi Scott Carver, ecologista da Universidade da Tasmânia, que estudava vombates em campo e via os cubos empilhados todos os dias sem encontrar ninguém capaz de explicar a geometria. Ele levou a pergunta a Patricia Yang num encontro de pesquisa, e a reação inicial dela foi de descrença: um tubo mole não deveria conseguir aquilo.
A dúvida virou apresentação pública em 2018, num encontro da Sociedade Americana de Física, e a repercussão fez o trabalho sair do circuito acadêmico. No ano seguinte veio o reconhecimento mais barulhento: o Ig Nobel de Física de 2019, entregue no Sanders Theatre, da Universidade Harvard, a Patricia Yang, Miles Chan, Alexander Lee, Scott Carver e David Hu.
"Primeiro fazem rir, depois fazem pensar." Marc Abrahams, em The Ig Nobel Prizes, 2002.
O Ig Nobel, criado por Marc Abrahams em 1991, premia pesquisa real que provoca riso e, logo depois, curiosidade genuína. A lista de vencedores tem gente que voltou ao palco em circunstância bem mais solene: Andre Geim ganhou o Ig Nobel de Física em 2000 por levitar um sapo vivo com ímã e, em 2010, dividiu o Nobel de Física pelo grafeno.
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O prêmio chegou com o fenômeno descrito e o mecanismo ainda em aberto: a medição completa da rigidez variável da parede intestinal só foi publicada na revista Soft Matter em 2021.
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O intervalo entre uma etapa e outra explica por que a primeira versão da história circulou torta. Em 2019, a equipe já tinha o achado das faixas moles e duras, mas faltava o trabalho fino de mapear a rigidez ponto a ponto do tecido e comparar com o intestino de porco, que não forma quina alguma. O artigo de 2021 fechou a conta e transformou a curiosidade em modelo mecânico.
Carver seguiu com o lado aplicado da história, longe da bancada de engenharia. Vombate selvagem sofre de sarna sarcóptica, doença de pele causada por ácaro que devasta populações inteiras na Tasmânia, e animal doente muda de alimentação, de hidratação e de trânsito intestinal. A forma da peça deixada na pedra funciona como sinal de campo: cubo bem definido indica bicho hidratado e comendo bem, peça amolecida e sem aresta acende o alerta antes de qualquer captura.
A pesquisa também mexeu com quem fabrica peça rígida. Engenheiros de manufatura e gente de robótica mole passaram a citar o vombate ao discutir como dar forma a material sem prensa nem fôrma, usando só a diferença de rigidez de uma membrana, e o animal virou referência em artigo técnico que nunca pretendeu falar de marsupial.
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