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O urso que foi alistado no exército polonês

Artilheiros poloneses adotaram um filhote no Irã, deram a ele número de soldado para embarcar e o viram carregar munição em Monte Cassino.

Filhote de urso-pardo ao lado de artilheiros poloneses num acampamento militar.

Wojtek, o urso que virou soldado

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8 de abril de 1942. Foi o dia em que soldados poloneses, numa estrada perto de Hamadã, no oeste do Irã, pararam o caminhão ao ver um menino carregando um saco de lona que se mexia.

Dentro do saco havia um filhote de urso-pardo sírio, com poucos meses de vida. O menino contou que a mãe do animal tinha sido abatida por caçadores nas montanhas. O filhote mal parava em pé e pedia comida sem parar.

Os soldados tinham pouco para oferecer. Eram poloneses libertados dos campos de trabalho soviéticos meses antes, magros, vestindo uniformes cedidos pelos britânicos. Os relatos variam sobre o pagamento; os mais repetidos falam em chocolate, um canivete e latas de carne em conserva.

O menino aceitou a troca. O filhote subiu no caminhão e passou a mamar leite condensado diluído em água, servido numa garrafa de vodca vazia, com um pano enrolado no gargalo fazendo as vezes de bico.

Ganhou o apelido de Wojtek, forma carinhosa de Wojciech, nome polonês que costuma ser traduzido como "guerreiro sorridente". Em poucas semanas, o urso dormia nas barracas, seguia os homens pelo acampamento e tentava imitar os gestos deles.

Filhote de urso cresce rápido, e Wojtek cresceu dentro de uma tropa em movimento. Irã, Iraque, Síria, Palestina e Egito passaram pela janela da carroceria enquanto ele ganhava peso, força e manias de caserna.

Os homens que o criavam não tinham casa para onde voltar. A Polônia estava ocupada, as famílias estavam espalhadas ou desaparecidas, e a unidade virou a família possível. O urso entrou nela como irmão caçula, mimado por todos e disputado nas horas de folga.

O problema apareceu em 1944, na hora de atravessar o Mediterrâneo. O navio que levaria a companhia do Egito para a Itália não aceitava bichos, e deixar o urso para trás estava fora de cogitação para aqueles homens.

A primeira seção mostra como um urso entrou na lista de soldados e o que a farda mudou na rotina dele.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Curiosidade do Dia

A papelada que transformou um urso em soldado

Wojtek, o urso-pardo sírio da 22ª Companhia de Suprimento de Artilharia do 2º Corpo Polonês, ganhou em 1944 algo que nenhum mascote da tropa tinha: matrícula de soldado.

A razão estava no regulamento britânico. O 2º Corpo lutava sob comando aliado, e os navios que o levariam do Egito ao sul da Itália seguiam regras de transporte que proibiam mascotes e animais de estimação a bordo.

A saída encontrada foi burocrática. Os oficiais da companhia registraram Wojtek como szeregowy (soldado raso, o posto mais baixo da tropa polonesa), com nome, posto e número de série nos papéis de embarque. Para o controle do porto, ele deixava de ser bicho e passava a ser efetivo.

O alistamento resolveu o embarque sem esconder o urso. Wojtek subiu no navio como soldado registrado, e o controle britânico não tinha regra para barrar um militar com documentos em ordem.

Com o registro vieram obrigações e vantagens. Ele recebia ração como qualquer praça, dormia na barraca com os colegas e tinha um tratador fixo, o soldado Piotr Prendys, encarregado da comida, dos passeios e das broncas.

A dieta era de quartel. Os veteranos contavam que Wojtek bebia cerveja direto da garrafa e aceitava cigarros, que costumava mastigar e engolir em vez de fumar. Frutas, mel e xarope eram prêmio para bom comportamento.

A diversão preferida era a luta. Wojtek ficava de pé nas patas traseiras e agarrava os soldados em brincadeiras de corpo a corpo, medindo a força para não machucar ninguém. Os mais novos da companhia faziam fila para enfrentar o urso nas tardes sem serviço.

Ele também gostava de água. No Iraque, descobriu a cabana de chuveiro do acampamento e passou a entrar nela sempre que achava a porta aberta, o que obrigou a tropa a vigiar o tanque para não ficar sem reserva no deserto.

Numa dessas visitas ao chuveiro, segundo os relatos da companhia, Wojtek encontrou um homem escondido lá dentro. Era um ladrão que vinha rondando o depósito de munição. O susto o fez gritar, os soldados correram e o homem foi preso. A história não aparece em documento oficial; ela chegou até hoje pela memória dos veteranos.

O posto também mudou com o tempo. Wojtek terminou a guerra como kapral (cabo), promovido pela mesma papelada que o tinha feito soldado. No papel, era mais um entre milhares de militares do 2º Corpo. No acampamento, virou o colega mais conhecido da tropa, e a fama iria crescer ainda mais na Itália.

 
 

II  A História Por Trás

Da Sibéria a Monte Cassino na carroceria de um caminhão

Os homens que adotaram Wojtek só estavam no Irã por causa de um acordo assinado em 1941. Depois que a Alemanha invadiu a União Soviética, o governo polonês no exílio, chefiado pelo general Władysław Sikorski, fechou com Moscou o acordo Sikorski-Maiski, que libertou poloneses presos em campos soviéticos desde 1939.

Com os libertos, o general Władysław Anders montou um exército. Em 1942, dezenas de milhares de soldados e civis cruzaram o Mar Cáspio até o Irã, muitos doentes de tifo e desnutrição. Foi dessa leva que saíram os artilheiros da estrada de Hamadã.

Nos primeiros meses, o filhote não ficou só com a tropa. Uma adolescente polonesa refugiada, Irena Bokiewicz, cuidou dele num campo de civis perto de Teerã, onde Wojtek virou atração entre as crianças. Quando cresceu, voltou para os soldados, que o adotaram de vez como mascote da companhia.

O exército de Anders virou o 2º Corpo Polonês e seguiu para o Oriente Médio sob comando britânico. Em 1944, foi mandado à Itália, onde os Aliados estavam parados diante de Monte Cassino, um monte com um mosteiro beneditino no alto que bloqueava a estrada para Roma.

Três ataques aliados tinham falhado ali desde janeiro de 1944. Em maio, os poloneses receberam a missão de tomar as encostas. Em 18 de maio, depois de dias de combate, a bandeira polonesa subiu nas ruínas do mosteiro.

Durante a batalha, segundo os veteranos da 22ª Companhia, Wojtek carregava caixas de munição de artilharia do caminhão até as pilhas junto aos canhões, de pé nas patas traseiras, imitando os soldados que faziam o mesmo trabalho.

O relato tem limite claro. Nenhum documento oficial da batalha registra o urso trabalhando; a cena vem de testemunhos de soldados da companhia, entre eles Wojciech Narębski, que repetiu a história em entrevistas por décadas. Também ficou sem registro quantas caixas Wojtek carregou e por quanto tempo, porque ninguém anotava o serviço de um mascote durante o bombardeio.

A escritora escocesa Aileen Orr reuniu esses depoimentos no livro "Wojtek the Bear: Polish War Hero" (Wojtek, o urso: herói de guerra polonês), de 2010. A obra cruza cartas, fotos e memórias de veteranos e é a principal fonte em inglês sobre a vida do urso.

A companhia não esperou documento para homenagear o colega. Depois de Monte Cassino, adotou como insígnia a silhueta de um urso de pé segurando um projétil de artilharia, pintada nos caminhões e costurada nas mangas dos uniformes. O símbolo segue em uso por unidades do exército polonês.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três passos para contar o urso-soldado

A história cabe numa conversa curta se for contada em três passos:

1. Comece pela estrada: em 1942, no Irã, soldados poloneses recém-saídos de campos soviéticos trocaram comida e um canivete por um filhote de urso-pardo órfão.

2. Conte a papelada: em 1944, para embarcar o urso rumo à Itália num navio que proibia animais, a companhia o registrou como soldado, com posto e número de série.

3. Termine no front: em Monte Cassino, em maio de 1944, segundo os veteranos, Wojtek carregava caixas de munição até os canhões, e a unidade pôs um urso com projétil na insígnia.

Wojtek passou os últimos 16 anos da vida no zoológico de Edimburgo, na Escócia. Veteranos poloneses iam visitá-lo, chamavam o urso em polonês e ele respondia virando a cabeça, segundo os funcionários do zoológico.

A ida para a Escócia veio com o fim da guerra. Em 1946, a companhia foi levada para o acampamento de Winfield, em Berwickshire, no sul escocês. Wojtek virou atração nas vilas vizinhas e frequentava bailes e festas dos soldados com os moradores.

A desmobilização, em 1947, desfez a companhia. Muitos soldados não quiseram voltar a uma Polônia sob governo comunista, e o exército não tinha como manter um urso adulto. Em novembro de 1947, Wojtek foi entregue ao zoológico de Edimburgo.

Alguns veteranos pulavam a grade do recinto para lutar com ele como faziam no acampamento, e jogavam cigarros acesos que o urso pegava no ar. Wojtek morreu no zoológico em dezembro de 1963, aos 21 anos.

A memória ganhou bronze. Em 2014, a cidade polonesa de Cracóvia inaugurou uma estátua de Wojtek no Parque Jordan. Em 2015, Edimburgo pôs nos jardins de Princes Street uma estátua do escultor Alan Beattie Herriot que mostra o urso caminhando ao lado de um soldado.

Para os poloneses que ficaram no exílio, Wojtek virou símbolo de uma tropa que lutou longe de casa e não pôde voltar. O urso fez a viagem inteira com eles, do Irã à Escócia, e também ficou sem retorno à Polônia.

"Se a sua unidade inteira dependesse de um papel carimbado para levar quem ela considera família, você falsificaria a matrícula?"

Amanhã: o pombo Vaillant, que levou a última mensagem do Forte de Vaux em Verdun, em 1916.

 
 

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Segundo os relatos mais repetidos, o que os soldados poloneses deram em troca do filhote de urso perto de Hamadã, no Irã?

AMoedas de prata e um relógio de bolso
BChocolate, um canivete e latas de carne em conserva
CUm rifle usado e um cobertor extra
DUma garrafa de vodca cheia e cigarros

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A manhã em que a Suécia passou a dirigir pela direita

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