|
A contagem serve para conversa, e serve melhor ainda para decisão prática. Ela vira ferramenta de segurança em três movimentos que qualquer pessoa executa da varanda:
1. Comece a contar em voz alta no instante do clarão, dizendo mil e um, mil e dois, mil e três, até ouvir o estouro.
2. Divida o número de segundos por três. O resultado é a distância em quilômetros até o ponto do canal mais próximo de você.
3. Repita na descarga seguinte. Se a contagem está encolhendo, a tempestade vem na sua direção, e a velocidade de aproximação sai da diferença entre as duas medidas.
A regra que os serviços meteorológicos usam sobre esse número tem nome e é fácil de decorar. Chama-se regra dos 30 e 30: contagem abaixo de 30 segundos, o que significa dez quilômetros ou menos, é hora de entrar em construção fechada; e só se volta para a área aberta 30 minutos depois do último trovão ouvido.
A segunda metade da regra é a que salva mais gente, porque contraria a intuição. Uma parcela relevante das mortes por raio acontece com o céu já clareando, quando a chuva parou e a turma volta para o campo, e a nuvem que se afastou ainda consegue lançar descarga a mais de dez quilômetros da chuva visível.
Vale saber o tamanho real do risco no Brasil. O país lidera as estatísticas mundiais de incidência de raios em número absoluto, com algo em torno de 78 milhões de descargas por ano, segundo o grupo de eletricidade atmosférica do Inpe, e registra em média cerca de cem mortes anuais por essa causa.
A contagem também resolve uma dúvida clássica de casa: dá para tomar banho durante a tempestade? A recomendação técnica é não tomar, e o motivo não tem nada de místico. A tubulação metálica e a coluna de água conduzem, e um raio que atinge a rede elétrica ou hidráulica do prédio pode aparecer no chuveiro.
Fica um bônus curioso para quem gosta de aplicar a mesma régua em outro lugar. O intervalo entre o flash e o estouro é o mesmo princípio que o Serviço Geológico dos Estados Unidos usa para localizar terremotos, comparando a chegada da onda P, mais rápida, com a onda S, mais lenta, em três estações diferentes.
A vantagem do trovão sobre o terremoto é que ele dispensa a estação sismográfica. Dois sentidos, um relógio interno e uma divisão por três entregam uma medida física de distância com margem de poucos por cento, feita da janela da cozinha e sem custar nada.
"Quantas outras medidas do seu dia você conseguiria fazer sem instrumento nenhum, só cronometrando dois sentidos?"
|