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O sal do saleiro é um mar que secou
Uma camada de sal de até 2 quilômetros no fundo do Mediterrâneo registra a evaporação de um mar inteiro há 5,6 milhões de anos.
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Crosta de sal num fundo de mar seco
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Todo saleiro de mesa guarda a lembrança de um mar que não existe mais. O sal de cozinha não é fabricado por reação química num tanque de indústria. Ele é retirado de um lugar onde já esteve dissolvido em água salgada, e onde essa água foi embora.
O nome mineral do sal de cozinha é halita, cloreto de sódio, um cristal cúbico transparente que fica branco quando quebrado em grãos pequenos. Existem dois endereços de onde ele sai, e os dois contam a mesma história com velocidades diferentes.
O primeiro é a salina, um tanque raso onde a água do mar entra e o sol tira a água em questão de meses. O segundo é a mina, uma camada sólida enterrada no subsolo, onde o mesmo processo aconteceu e depois foi soterrado por sedimento.
A parte que interessa é a aritmética da evaporação. A água do mar carrega perto de 35 gramas de sal por litro, algo em torno de 3,5% do peso.
Evaporar uma coluna de mil metros de água do mar deixa uma camada de sal de aproximadamente 15 metros de espessura no fundo.
A conta não fecha sozinha em nenhuma camada grossa de sal do mundo. Se um mar profundo de três mil metros evaporasse inteiro, o depósito final teria umas poucas dezenas de metros. Camadas de sal enterradas costumam ter centenas de metros, às vezes mais de um quilômetro.
Só existe uma forma de empilhar tanta halita no mesmo ponto: encher e secar a bacia várias vezes. Cada ciclo entra com água nova carregando sal novo, evapora, e deixa mais uma camada na pilha.
O detalhe que transforma a rocha em cronômetro é a organização dessa pilha. As camadas não se misturam nem se embaralham, ficam empilhadas na ordem em que se formaram, e cada intervalo tem espessura própria que depende de quanta água entrou e de quanto o sol trabalhou.
Um geólogo com uma amostra dessas camadas na mão consegue contar quantas vezes a bacia encheu e secou, e estimar quantos milhares de anos cada rodada levou. Nenhum instrumento moderno participa da medição. O sal já registrou tudo sozinho.
Existe uma bacia no mundo onde essa pilha atingiu proporções que ninguém esperava encontrar, e ela fica embaixo de um mar que hoje é percorrido por navios de cruzeiro todos os dias.
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I A Curiosidade do Dia
Um quilômetro de sal debaixo do azul
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Debaixo do Mediterrâneo, sob o sedimento macio do fundo, existe uma camada de sal e gesso que chega a ter perto de 2 quilômetros de espessura nas partes mais fundas das bacias.
O volume total dessa camada é estimado em algo próximo de 1 milhão de quilômetros cúbicos de evaporitos. Uma massa de mineral desse tamanho não sai de um mar que apenas ficou mais salgado por um tempo.
A camada aparece nos registros de sísmica como uma superfície refletora forte e contínua, apelidada de refletor M pelos geofísicos que mapearam a bacia nos anos 1960. Ela cobre quase todo o fundo do Mediterrâneo, do mar de Alborán, na Espanha, até a bacia Levantina, perto de Israel.
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A explicação que dá conta do volume é direta e desconfortável: o Mediterrâneo inteiro evaporou. O episódio ganhou nome de Crise de Salinidade do Messiniano e durou de cerca de 5,97 até 5,33 milhões de anos atrás.
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O gatilho foi geográfico. O Estreito de Gibraltar, a única ligação séria entre o Mediterrâneo e o Atlântico, fechou por causa do movimento das placas tectônicas que empurram a África contra a Europa.
Uma vez fechada a porta, a conta de água do Mediterrâneo vira negativa em poucos milhares de anos. Os rios que desembocam nele, o Nilo, o Ródano, o Pó, o Ebro, entregam muito menos água do que o sol evapora da superfície daquele mar quente.
Sem reposição pelo Atlântico, o nível cai. As estimativas apontam que a superfície da água chegou a ficar mais de 1.500 metros abaixo do nível do oceano, deixando exposta a maior parte do que hoje é fundo de mar.
A paisagem resultante foi um conjunto de depressões salgadas separadas por planaltos secos, algo parecido com o Mar Morto multiplicado por muitas vezes, num buraco do tamanho de um continente pequeno.
Os rios da volta reagiram cortando o próprio leito para alcançar a nova base. O Nilo escavou um cânion profundo que hoje está enterrado sob o Egito, descoberto durante as sondagens de fundação da represa de Assuã, com rocha do embasamento aparecendo centenas de metros abaixo do nível do mar.
O Ródano fez o mesmo na França, e o cânion enterrado dele aparece nos furos de sondagem sob o vale, bem acima de Lyon. Os dois vales fósseis contam a mesma história pelo lado de fora da bacia: o mar que servia de base para aqueles rios tinha sumido.
O desfecho foi rápido e violento. Há 5,33 milhões de anos, o Atlântico rompeu a barreira de Gibraltar e reencheu a bacia num episódio chamado de dilúvio zancleano, com modelos apontando que a maior parte do enchimento levou menos de dois anos.
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II A História Por Trás
O navio que trouxe um deserto do fundo do mar
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A prova não veio de escavação em terra firme. Ela subiu por um cabo de perfuração no meio do Mediterrâneo, em agosto de 1970, a bordo de um navio chamado Glomar Challenger.
A embarcação executava o Deep Sea Drilling Project, o programa que perfurava o assoalho oceânico do mundo inteiro em busca da história dos oceanos. A perna 13 da campanha coube ao Mediterrâneo, com Kenneth Hsü, William Ryan e Maria Bianca Cita entre os cientistas de bordo.
Os testemunhos que subiram do fundo trouxeram material que não combinava com a profundidade de onde vinham. Havia gesso e anidrita em nódulos, o mesmo formato que se forma hoje em planícies salgadas de deserto, as sabkhas do Golfo Pérsico.
Junto veio outra assinatura ainda mais teimosa. Camadas de estromatólitos, esteiras minerais construídas por bactérias que precisam de luz solar, e grãos arredondados típicos de água muito rasa, todos recolhidos a milhares de metros de profundidade.
O quebra-cabeça montado por essas peças tem uma solução só. Aquele fundo já foi superfície. A bacia era profunda, e mesmo assim o material que se depositou nela se formou ao sol, o que exige que a água tenha ido embora.
O modelo publicado pela equipe recebeu o nome de bacia profunda dessecada e enfrentou resistência forte na comunidade científica por mais de uma década. Hsü levou o argumento ao público num livro que virou clássico de divulgação.
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"O Mediterrâneo foi um deserto." Kenneth J. Hsü, The Mediterranean Was a Desert, 1983.
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A leitura fina das camadas veio depois, com testemunhos melhores e com afloramentos em terra, na Sicília e na Espanha, onde o mesmo pacote de sal ficou exposto pelo soerguimento das montanhas.
Nesses afloramentos, o gesso aparece em bancadas repetidas, separadas por camadas escuras de sedimento marinho. Cada par representa uma rodada de secagem seguida de uma entrada nova de água, e as bancadas se repetem dezenas de vezes na mesma sequência.
A contagem dessas repetições revelou um ritmo reconhecível. Os intervalos batem com o ciclo de precessão da órbita terrestre, um pulso climático que se repete a cada 21 mil anos aproximadamente, e que muda o quanto de chuva cai na volta da bacia.
Com o relógio orbital encaixado nas camadas, a espessura de cada bancada deixa de ser dado bruto e vira duração. A pilha inteira passa a ser lida como uma cronologia com resolução de milhares de anos, sem carbono radioativo e sem nenhum aparelho moderno na conta.
O saldo do episódio foi maior que o Mediterrâneo. Trancar tanto sal dentro daquela bacia retirou perto de 6% de todo o sal dissolvido nos oceanos do planeta, e a salinidade média da água do mar caiu de forma perceptível no registro global.
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