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O Saara já teve lagos, gado e girafas

Entre 11 mil e 5 mil anos atrás o deserto teve savana, e as pinturas do Tassili n'Ajjer, na Argélia, mostram hipopótamo onde hoje só há areia.

Pintura rupestre de rebanho e girafa numa parede de arenito do Tassili n'Ajjer.

Pinturas do Tassili n'Ajjer, sudeste da Argélia

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72 mil quilômetros quadrados. É a área do planalto do Tassili n'Ajjer, no sudeste da Argélia, um bloco de arenito recortado por desfiladeiros onde a chuva de um ano inteiro cabe em poucos milímetros.

O lugar parece o extremo do deserto, e é. As temperaturas passam dos 40 graus no verão, a vegetação se resume a tufos rasteiros e a alguns ciprestes antiquíssimos que sobrevivem no fundo dos vales. Nenhum rio corre ali de forma permanente. A água que existe está guardada em poças temporárias nas fendas da rocha, os gueltas, e some semanas depois de uma chuva rara.

Nas paredes desses desfiladeiros, porém, há um problema de coerência. Milhares de figuras pintadas e gravadas cobrem os abrigos de pedra, e boa parte delas mostra animais que não sobreviveriam uma semana no clima atual. Aparecem bois de chifres longos em rebanhos, girafas de pescoço estirado, elefantes, avestruzes, crocodilos e hipopótamos.

Hipopótamo é o detalhe que não deixa espaço para dúvida. O bicho precisa de corpo d'água permanente para passar o dia submerso, sob risco de queimar a pele exposta ao sol. Quem pintou aquilo na parede não estava inventando um animal de outro continente: estava desenhando o que via da entrada do abrigo.

A conclusão que decorre é grande e está bem estabelecida. Durante um período longo, que os pesquisadores chamam de Período Úmido Africano, o norte da África teve monções regulares, rios correndo, lagos rasos e pastagem contínua onde hoje existe a maior extensão de areia quente do planeta. Não foi um verão bom: foi um regime de chuva que durou milhares de anos e depois acabou.

E acabou perto o suficiente da nossa história para ter sido presenciado por gente com rebanho, cerâmica e cemitérios. As pinturas são o registro em primeira mão desse mundo, feito por quem morava nele. Vale começar por elas, e por como o mundo soube que estavam ali.

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I  A Curiosidade do Dia

As girafas na parede do arenito

O Tassili entrou no debate mundial por causa de uma expedição francesa demorada. Entre 1956 e 1957, o etnólogo Henri Lhote acampou no planalto com uma equipe de desenhistas e passou meses copiando painéis em papel e tela, num trabalho de reprodução manual que rendeu uma exposição em Paris em 1958 e o livro À la découverte des fresques du Tassili, no mesmo ano.

A exposição fez o efeito esperado. Um público europeu que associava a região a caravana e duna viu paredes cheias de rebanhos, caçadores com arco, mulheres em fila e cenas de pastoreio. O material de Lhote também virou alvo de crítica depois, e o especialista francês em arte rupestre Jean-Loïc Le Quellec é um dos que apontam retoques e leituras forçadas nas cópias, sobretudo nas figuras que a imprensa da época apelidou de visitantes de outro planeta.

O acervo em si nunca esteve em disputa. A Unesco inscreveu o Tassili n'Ajjer na lista do Patrimônio Mundial em 1982 e descreve o sítio como detentor de mais de 15 mil desenhos e gravuras, um dos maiores conjuntos de arte rupestre conhecidos.

Mais de 15 mil pinturas e gravuras num planalto onde hoje a chuva anual cabe em poucos milímetros, segundo a ficha do sítio na Unesco.

As imagens não são todas do mesmo tempo, e a mudança de tema entre elas é a parte mais reveladora. Os arqueólogos separam o conjunto em fases, e cada fase troca o elenco de animais como se trocasse o cenário de fundo.

A fase mais antiga, das chamadas cabeças redondas, traz figuras humanas grandes, de traço arredondado, algumas com dois metros de altura, como o painel conhecido como o Grande Deus, no abrigo de Sefar. A fase seguinte, batizada de bovidiana, é dominada por rebanhos: vacas malhadas, bezerros amarrados, gente ordenhando, cercados.

Depois entra o cavalo, puxando carro de duas rodas em cena de corrida. E por último entra o camelo, que aparece nas pinturas mais recentes do conjunto. A troca do boi pelo camelo não é preferência artística: é a assinatura visual de um lugar que secou e passou a exigir um animal capaz de atravessar distância sem beber.

O gado da fase bovidiana também diz algo prático sobre o terreno. Rebanho não vive de rocha. Uma vaca adulta bebe dezenas de litros por dia e precisa de pasto contínuo, o que significa que aquelas famílias circulavam por um corredor com capim e água a distâncias curtas, exatamente o que o mapa atual não oferece em nenhum ponto da região.

 
 

II  A História Por Trás

O que a órbita da Terra fez com a chuva

A explicação para o Saara verde não está em nenhuma catástrofe local, e sim na inclinação e no bamboleio do planeta. A órbita e o eixo da Terra variam em ciclos de dezenas de milhares de anos, e um desses ciclos, a precessão, muda a época do ano em que o hemisfério norte recebe mais luz do Sol.

Há cerca de 11 mil anos o verão do hemisfério norte pegava mais insolação do que pega hoje. Continente mais quente puxa a monção africana para o norte, porque a faixa de chuva que hoje molha o Sahel avança centenas de quilômetros deserto adentro e passa a cair todo ano no mesmo lugar.

O resultado ficou registrado no chão. O Lago Chade, que hoje é um espelho d'água encolhido, foi um mar interior conhecido como Mega Chade, e os leitos secos, as praias fósseis e os canais visíveis em imagem de satélite marcam um nível de água muito acima do atual.

O bilhete que ninguém pediu: a Depressão de Bodélé, no Chade, um dos pontos mais poeirentos do mundo, é o fundo daquele lago antigo, feito de sedimento fino de diatomáceas.

A datação desse mundo úmido veio do mar. O paleoclimatologista Peter deMenocal e colegas analisaram um testemunho de sedimento coletado ao largo da Mauritânia, o sítio 658C do Ocean Drilling Program, e mostraram num trabalho publicado em 2000 que a poeira africana depositada no oceano cai durante o período úmido e volta a disparar por volta de 5.500 anos atrás, quando o deserto se restabelece.

A velocidade dessa virada continua em discussão aberta. Uma equipe liderada por Stefan Kröpelin publicou na Science, em 2008, a análise de sedimentos do lago Yoa, no norte do Chade, e defendeu que a secagem foi gradual, arrastada por milhares de anos, e não um colapso de poucos séculos como a leitura do sedimento marinho sugeria.

Há evidência direta de que ali se pescava. No abrigo de Takarkori, no sudoeste da Líbia, uma equipe da Universidade Sapienza de Roma, coordenada por Savino di Lernia, escavou dezenas de milhares de restos de animais e publicou em 2020 que a maior parte dos ossos das camadas mais antigas é de peixe, bagre e tilápia, num sítio hoje cercado por areia.

"O maior museu de arte pré-histórica do mundo." Henri Lhote, em À la découverte des fresques du Tassili, 1958.

E havia gente enterrando os seus mortos com cuidado. O sítio de Gobero, no Ténéré nigerino, foi escavado pela equipe do paleontólogo Paul Sereno e descrito em 2008 na revista PLoS ONE: um cemitério às margens de um lago desaparecido, com duas populações separadas por milênios, esqueletos de pescadores e, depois, de criadores de gado.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três fatos para levar à mesa

A história rende três fatos curtos, e a ordem faz diferença na hora de contar:

1. Comece pela parede: no Tassili n'Ajjer, no sudeste da Argélia, há pintura de girafa, elefante e hipopótamo em pleno Saara.

2. Explique o motivo: entre cerca de 11 mil e 5 mil anos atrás a monção subiu, e o norte da África teve chuva anual, rios e lagos.

3. Feche pelo mecanismo: a mudança veio do ciclo orbital da Terra, que alterou a quantidade de luz solar recebida no verão do hemisfério norte.

O ponto que mais rende pergunta é o segundo, porque a maioria imagina o deserto como uma condição permanente do mapa. Vale ter a resposta pronta: o Saara alternou fases úmidas e secas várias vezes, e a fase seca em que estamos é apenas a mais recente da série.

Restou água como prova viva. Os Lagos de Ounianga, no nordeste do Chade, formam um conjunto de lagos permanentes em pleno deserto, alimentados por água subterrânea antiga, e entraram na lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 2012.

Debaixo do chão sobrou muito mais. O Sistema Aquífero de Arenito Núbio, sob Egito, Líbia, Sudão e Chade, guarda um volume enorme de água acumulada em épocas de chuva que não voltam, o que faz de cada poço fundo no deserto uma retirada de um saldo que não recebe depósito novo.

E o fecho melhor é o que liga o deserto à floresta do outro lado do oceano. Um estudo liderado por Hongbin Yu, da Nasa, publicado em 2015 na Geophysical Research Letters, usou sete anos de dados do satélite Calipso para estimar que cerca de 27,7 milhões de toneladas de poeira saariana se depositam por ano na bacia amazônica, carregando o fósforo que repõe nutriente no solo lavado pela chuva.

Boa parte dessa poeira sai justamente da Bodélé, o fundo exposto do lago que sumiu. O mesmo lugar que sustentava hipopótamo e rebanho hoje aduba a Amazônia pelo ar, e a mesma bacia serve de prova nos dois papéis.

"Quanto do mapa que você aprendeu na escola é só uma fase do clima?"

 
 

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Quiz da edição

Segundo a ficha do sítio na Unesco, quantos desenhos e gravuras o Tassili n'Ajjer reúne ao todo?

AMais de 15 mil
BCerca de 5 mil
CMais de 72 mil
DCerca de 500

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