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O rinoceronte que Dürer gravou sem nunca ver, em 1515

Albrecht Dürer desenhou um animal que só conhecia por carta. O chifre extra nas costas ilustrou livros de zoologia por mais de 200 anos.

Xilogravura de um rinoceronte coberto de placas, com um pequeno chifre torcido nas costas.

Rhinocerus, xilogravura de Albrecht Dürer, 1515

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120 dias de mar, de janeiro a maio de 1515. Foi o tempo que um rinoceronte vivo passou no porão de um navio português, entre Goa, na Índia, e o porto de Lisboa.

O animal era um presente. Muzaffar Shah II, sultão de Guzerate (um reino no noroeste da Índia), tinha mandado o bicho a Afonso de Albuquerque, governador da Índia Portuguesa. Albuquerque decidiu repassar o presente ao rei de Portugal, Manuel I.

Os portugueses chamavam o animal de Ganda, a palavra para rinoceronte na língua de Guzerate. Era um rinoceronte-indiano, a espécie de um chifre só, com a pele dobrada em grandes placas sobre os ombros e as ancas.

Em 20 de maio de 1515, o navio atracou em Lisboa. Nenhum europeu via um rinoceronte vivo desde os tempos da Roma antiga. Para a maioria das pessoas, o bicho era um nome nos livros de Plínio, o Velho, o naturalista romano que tinha escrito sobre ele no século 1.

Manuel I quis testar uma lenda antiga, a de que rinoceronte e elefante eram inimigos naturais. Em 3 de junho, mandou montar uma arena num pátio de Lisboa e soltou Ganda diante de um elefante jovem da coleção real.

O duelo não aconteceu. O elefante olhou o adversário, deu meia-volta, arrombou a grade e fugiu pelas ruas da cidade. Ganda ficou parado no pátio, vencedor sem luta.

A notícia correu a Europa em cartas de mercadores, diplomatas e impressores. Uma delas, acompanhada de um esboço feito por alguém que viu o animal em Lisboa, chegou à cidade alemã de Nuremberg, a mais de 2.000 quilômetros dali.

Lá morava um artista que nunca pisou em Portugal e nunca viu um rinoceronte. Com aquele papel na mão, ele produziu a imagem do bicho que a Europa usaria pelos dois séculos seguintes.

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I  A Curiosidade do Dia

Um animal de armadura desenhado por carta

Albrecht Dürer, pintor e gravador de Nuremberg, tinha 43 anos em 1515 e já era o artista mais famoso da Alemanha. Recebeu a carta de Lisboa e o esboço que vinha junto, provavelmente enviados pelo impressor Valentim Fernandes, um alemão da Morávia que morava em Portugal.

Primeiro, Dürer fez um desenho a tinta, hoje guardado no Museu Britânico, em Londres. Depois transformou o desenho numa xilogravura (gravura entalhada num bloco de madeira, que serve de carimbo para imprimir no papel).

A técnica tinha uma vantagem comercial enorme. Um único bloco de madeira imprimia milhares de folhas, que se vendiam baratas em feiras e livrarias. Dürer ganhava a vida assim, e sabia que um bicho exótico daria lucro.

O rinoceronte da gravura parece vestido para a guerra. A pele vira um conjunto de placas rígidas, presas por linhas que lembram rebites. As pernas têm escamas, o peito tem um colar de dobras e o lombo parece uma couraça de cavaleiro.

O rinoceronte de Dürer tem um chifre que nenhum rinoceronte do planeta tem: um chifrinho torcido, espetado no alto das costas, entre os ombros.

Os estudiosos chamam esse detalhe de Dürer-Hörnlein (o chifrinho de Dürer, em alemão). O rinoceronte-indiano real tem um único chifre, no focinho. Nas costas, só dobras de pele.

O erro não para no chifre. A gravura dá ao animal patas com escamas de réptil, uma cauda curta coberta de placas e uma serra de pontas na linha do lombo. O conjunto parece mais uma máquina de guerra que um bicho de pasto.

Ninguém sabe de onde saiu o chifre extra. O esboço de Lisboa se perdeu, e não dá para saber se o erro já estava nele ou se foi invenção de Dürer. Uma hipótese antiga diz que o artista confundiu uma dobra de pele com um chifre; outra, que ele quis lembrar o unicórnio. Nenhuma tem prova.

No alto da gravura, Dürer escreveu um texto em alemão, com a data errada de 1513 no lugar de 1515. A descrição mistura o que veio na carta com o que Plínio tinha escrito 1.400 anos antes.

“Ele tem a cor de uma tartaruga salpicada e é quase todo coberto de escamas grossas”, diz a inscrição da xilogravura Rhinocerus, de Albrecht Dürer, de 1515.

O texto segue dizendo que o animal tem o tamanho de um elefante, pernas mais curtas, e que afia o chifre nas pedras para atacar a barriga do inimigo. Quase nada disso descreve um rinoceronte real; repete a lenda romana.

 
 

II  A História Por Trás

O original afundou, a cópia viajou

Ganda não ficou muito tempo em Lisboa. Manuel I resolveu dar o animal de presente ao papa Leão X, em Roma, para agradar a Igreja num momento em que Portugal disputava territórios com a Espanha.

O rei já tinha feito o mesmo truque com um elefante branco chamado Hanno, enviado ao papa em 1514. Hanno virou o bicho de estimação de Leão X, e o rinoceronte seria o segundo espetáculo.

Ganda embarcou em dezembro de 1515, com uma coleira de veludo verde enfeitada com rosas e cravos. No começo de 1516, uma tempestade afundou o navio perto de Porto Venere, no litoral da Itália, ao norte de Pisa.

O animal viajava acorrentado ao convés e não conseguiu nadar até a praia. O corpo foi levado pelo mar até a costa e recuperado. Segundo os relatos da época, a pele foi recheada de palha e seguiu para Roma.

O que aconteceu com o rinoceronte empalhado depois disso ninguém sabe. Nenhum inventário papal conhecido registra a peça, e ela nunca foi encontrada. A única imagem que sobrou de Ganda é a que outros fizeram sem vê-lo.

O rinoceronte de carne e osso sumiu em 1516. A versão de papel, com o chifre a mais, continuou sendo impressa por mais de 200 anos.

Dürer não foi o único a gravar o bicho. Hans Burgkmair, artista de Augsburgo, fez outra xilogravura em 1515, a partir de outro relato. A dele é mais fiel: sem chifre nas costas e com a pele menos parecida com armadura.

A de Burgkmair quase não circulou. Sobrou só um exemplar conhecido, hoje no museu Albertina, em Viena. A de Dürer, assinada pelo nome mais famoso da gravura alemã, ganhou o mercado.

O bloco de madeira de Dürer continuou imprimindo depois que ele morreu, em 1528. Houve novas tiragens no século 16 e, no começo do século 17, editores holandeses ainda faziam versões novas do mesmo rinoceronte.

A ciência também comprou a imagem. Conrad Gessner, naturalista suíço, pôs uma cópia da gravura na Historiae animalium (a História dos Animais), de 1551, a primeira grande enciclopédia de zoologia da Europa moderna.

Em 1607, o inglês Edward Topsell copiou a mesma figura no seu livro sobre animais de quatro patas. Por gerações, quem estudava natureza na Europa aprendia que o rinoceronte tinha placas de metal e um chifre nas costas.

A explicação para tanta cópia é prática. Antes da fotografia, quem ilustrava um livro copiava a imagem que já existia, e quase ninguém tinha como conferir o original. Um rinoceronte vivo na Europa era raridade de geração.

 

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III  Pra Contar na Mesa

A rinoceronte Clara desmentiu a gravura

A imagem só perdeu o trono em 1741, quando outra rinoceronte-indiana chegou viva à Europa. O capitão holandês Douwe Mout van der Meer comprou a fêmea filhote na Índia e a levou para Roterdã, na Holanda.

O nome dela era Clara. Van der Meer viu ali um negócio e passou 17 anos exibindo a rinoceronte por cidades da Europa, em carroça própria, cobrando ingresso. Clara passou por Viena, Paris, Roma, Londres e dezenas de outras cidades.

Quem pagava para vê-la descobria um animal sem armadura e sem chifre nas costas. Em 1743, o médico inglês James Parsons apresentou à Royal Society (a academia de ciências de Londres) desenhos feitos ao vivo e escreveu que a figura de Dürer estava errada.

Em 1749, o pintor francês Jean-Baptiste Oudry pintou Clara em tamanho natural, num quadro de quase 5 metros de largura. A tela, hoje no museu de Schwerin, na Alemanha, foi a primeira imagem fiel de um rinoceronte a circular entre artistas e cientistas.

Clara viveu até 1758 e foi o rinoceronte mais visto da história da Europa. A partir dela, os livros de zoologia foram trocando a figura de Dürer por desenhos do animal real.

A gravura errada não desapareceu. Virou arte. Em 1956, o pintor espanhol Salvador Dalí criou uma escultura em bronze baseada no rinoceronte de Dürer, hoje exposta em Puerto Banús, na Espanha.

A peça de Dalí guarda as placas e a silhueta pesada da gravura. Quinhentos anos depois, o animal que Dürer nunca viu continua sendo a versão mais reconhecida de um rinoceronte na história da arte.

Para contar a história numa roda de amigos, três passos bastam:

1. Comece pelo navio: em 1515, um rinoceronte-indiano chamado Ganda chegou a Lisboa, presente de um sultão da Índia ao rei Manuel I.

2. Conte o desenho: em Nuremberg, Albrecht Dürer gravou o animal a partir de uma carta e de um esboço, e pôs um chifre extra nas costas.

3. Termine na correção: a gravura ilustrou livros de zoologia até a rinoceronte Clara rodar a Europa a partir de 1741 e mostrar o bicho real.

“Se você tivesse só uma carta e um rascunho, o seu rinoceronte sairia mais parecido com o real que o de Dürer?”

Amanhã: o prédio de 11 mil toneladas que a Indiana Bell girou 90 graus em 1930, com os funcionários trabalhando dentro.

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, o que aconteceu no pátio de Lisboa quando Manuel I colocou o rinoceronte Ganda diante de um elefante, em 3 de junho de 1515, para testar a lenda da rivalidade entre as espécies?

AOs dois brigaram por horas até o elefante vencer
BO elefante arrombou a grade e fugiu pelas ruas da cidade
CGanda atacou primeiro e feriu o elefante
DO duelo foi cancelado por ordem do rei antes de começar

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