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O relógio de pulso que Cartier fez para Santos Dumont

Em 1904, o aviador precisava das duas mãos nos comandos. Louis Cartier tirou o relógio do bolso e o prendeu no pulso dele.

Alberto Santos Dumont em Paris, de terno e chapéu, com um relógio de pulso quadrado.

Santos Dumont em Paris, 1906

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1904. Foi o ano em que um joalheiro de Paris entregou a um aviador brasileiro um relógio feito para ficar preso ao pulso, longe do bolso do colete.

O aviador era Alberto Santos Dumont, mineiro de Palmira, morador de Paris desde o começo da década de 1890. O joalheiro era Louis Cartier, neto do fundador da casa que leva o sobrenome da família.

Os dois frequentavam os mesmos salões e o mesmo restaurante, o Maxim's, na rue Royale. Santos Dumont era figura conhecida na cidade: pousava o dirigível perto dos cafés, amarrava a aeronave e entrava para almoçar.

O problema dele cabia numa frase. Para saber quanto tempo levava num voo, precisava tirar o relógio do bolso, abrir a tampa e ler o mostrador, com as mãos ocupadas em cordas, alavancas e no leme.

Em 1901, ele contornou a Torre Eiffel com o dirigível número 6 e ganhou o Prêmio Deutsch, que exigia ida e volta desde Saint-Cloud em até 30 minutos. Cada minuto pesava, e o relógio de bolso atrapalhava justamente quando o tempo importava.

Pelo relato que a Cartier repete até hoje, o aviador reclamou do incômodo numa conversa com o amigo. Louis Cartier tratou a queixa como encomenda.

A resposta veio em 1904: uma caixa quadrada de ouro, com o vidro preso por um aro com parafusos à vista, montada numa pulseira de couro com fivela. Bastava girar o pulso para ler a hora, sem largar o leme.

Na época, relógio de pulso era joia de mulher. Homem elegante carregava o relógio no bolso, preso por corrente. Santos Dumont passou a usar o dele em público, em voo e em terra, e não tirou mais.

Sete anos depois, em 1911, a Cartier pôs o modelo à venda com o nome do cliente. Chamou-se Santos, e segue no catálogo da casa mais de um século depois.

Abaixo, o relógio peça por peça: o que saiu da oficina de Louis Cartier e por que aquele desenho resolveu o problema do aviador.

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I  A Curiosidade do Dia

Um relógio que saiu do bolso

O relógio que Louis Cartier entregou a Alberto Santos Dumont em 1904 tinha uma decisão de desenho logo na forma. Quase todo relógio da época era redondo, e o dele era quadrado, com os cantos levemente suavizados.

A escolha tinha motivo prático. Uma caixa quadrada assenta melhor sobre o pulso e se encaixa entre as duas pontas da pulseira sem sobrar metal nas laterais, o que deixava a peça mais firme durante o voo.

O vidro ficava preso por um aro de ouro com parafusos aparentes. Na época, parafuso à mostra era peça de máquina, de motor e de estrutura metálica, e Cartier levou o detalhe para dentro de uma joia.

Os parafusos viraram a assinatura do modelo. Quem reconhece um Santos de longe reconhece primeiro o aro quadrado com os pontos de metal nos cantos e nas laterais.

A outra decisão foi tirar a tampa. Muitos relógios de bolso tinham uma capa articulada sobre o mostrador, que precisava ser aberta com a unha ou com um botão. No pulso do aviador, a leitura tinha que ser direta, num giro de mão.

A pulseira de couro completava o conjunto. As pontas da caixa se prolongavam em hastes que recebiam o couro, e uma fivela simples fechava tudo no braço, do jeito que hoje parece óbvio.

O relógio de Santos Dumont resolveu um problema de cabine: mostrar a hora a quem não podia soltar as mãos.

Por dentro, o mecanismo era de corda manual, como todos da época. O dono girava a coroa (o botão lateral de dar corda) uma vez por dia para manter o relógio andando.

A partir de 1907, a Cartier passou a usar mecanismos do relojoeiro Edmond Jaeger, que assinou com a casa um contrato de exclusividade. Os Santos vendidos a partir de 1911 saíram com essas máquinas.

Em 1909, a casa registrou na França a patente de uma fivela dobrável para pulseira de couro, desenvolvido com Jaeger. A fivela abre como uma pequena dobradiça e impede que o relógio caia do pulso ao ser solto.

Resta uma pergunta sem resposta: onde está o exemplar de 1904. A Cartier guarda no acervo peças do modelo produzidas a partir da década de 1910, mas não exibe o relógio do aviador, e não há registro público do paradeiro dele. O que se conhece do original vem de fotografias e do relato da própria joalheria.

 
 

II  A História Por Trás

Paris, o Maxim's e o 14-Bis

Alberto Santos Dumont nasceu em 20 de julho de 1873, em Palmira, Minas Gerais, filho do engenheiro Henrique Dumont, dono de uma das maiores fazendas de café do país. Mudou-se para Paris no começo da década de 1890, com dinheiro de sobra para gastar com máquinas.

Na capital francesa, construiu balões e depois dirigíveis com motor a gasolina. Numerava as aeronaves em sequência, e foi com a número 6 que venceu o Prêmio Deutsch em outubro de 1901.

O prêmio, criado pelo industrial Henri Deutsch de la Meurthe, pagava 100 mil francos. Santos Dumont dividiu o valor entre os mecânicos da equipe e os pobres de Paris, gesto que aumentou a fama dele na cidade.

Louis Cartier, nascido em 1875, era dois anos mais novo que o amigo. Neto de Louis-François Cartier, que abriu a joalheria em 1847, assumiu o comando da casa com os irmãos Pierre e Jacques e levou a loja para a rue de la Paix em 1899.

O preconceito que o relógio enfrentou tinha história. Relógio preso ao braço existia havia quase um século, mas como enfeite feminino: a Breguet fez um em 1810 por encomenda de Caroline Murat, rainha de Nápoles, e a Patek Philippe fez outro em 1868 para uma condessa húngara.

Para os homens, o lugar do relógio era o colete. A corrente atravessava a barriga e o mostrador saía do bolso com um gesto quase cerimonial, sinal de posição social.

Santos Dumont pouco ligava para a regra. Usava colarinhos altos, chapéu-panamá e ternos ajustados, e o relógio no pulso entrou no figurino que os jornais franceses reproduziam em desenhos e fotografias.

Quem tornou o relógio de pulso aceitável para homens foi um aviador vestido com elegância e fotografado sem parar.

Em 23 de outubro de 1906, no campo de Bagatelle, em Paris, ele voou com o 14-Bis por cerca de 60 metros diante de uma comissão do Aéro-Club de France. Foi a primeira decolagem com motor, sem catapulta, assistida e registrada por uma entidade oficial.

Em 12 de novembro de 1906, no mesmo campo, voou 220 metros em 21,5 segundos. O Aéro-Club de France homologou a marca como recorde de distância, a primeira registrada para um avião.

Com essa fama, a Cartier tinha cliente e vitrine prontos. Em 1911, lançou o modelo Santos para venda ao público, e os homens de Paris passaram a pedir o relógio do aviador.

A Primeira Guerra Mundial, a partir de 1914, terminou o trabalho. Oficiais em trincheira precisavam ler a hora com as mãos livres, e o relógio de pulso virou equipamento militar.

Em 1917, Louis Cartier desenhou outro modelo de pulso, o Tank, inspirado na vista aérea dos tanques Renault que lutavam na frente ocidental.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Como contar o relógio do aviador

A história do Santos funciona bem numa mesa porque quase todo mundo usa ou já usou relógio de pulso, e quase ninguém sabe de onde ele veio. A surpresa está no ponto de partida: um brasileiro e um joalheiro francês.

Para levar a história, três passos bastam:

1. Comece pelo problema: em 1904, Alberto Santos Dumont não conseguia tirar o relógio do bolso com as mãos ocupadas no leme do dirigível.

2. Conte a solução: o amigo Louis Cartier fez uma caixa quadrada de ouro, presa a uma pulseira de couro, para o aviador ler a hora girando o pulso.

3. Termine na loja: em 1911, a Cartier pôs o modelo à venda com o nome Santos, e ele segue no catálogo até hoje.

O modelo atravessou o século com mudanças. Em 1978, a Cartier relançou o Santos em aço e ouro, com pulseira de metal e os parafusos repetidos nos elos, versão que virou símbolo da década de 1980.

Em 2004, no centenário da encomenda, a casa lançou uma linha com o nome completo do aviador, Santos-Dumont, mais fina e com pulseira de couro, próxima do desenho original.

O Brasil também guardou o nome. Em 1932, a cidade natal do aviador, Palmira, passou a se chamar Santos Dumont, e a casa onde ele viveu em Petrópolis, a Encantada, virou museu aberto à visitação.

O relógio de pulso masculino tem nome brasileiro: Santos, batizado em Paris em homenagem a um aviador de Minas Gerais.

Um detalhe para quem quer impressionar: o Santos é considerado pela própria Cartier o primeiro relógio de pulso masculino feito para uso prático, e não como joia de enfeite. Outras casas reclamam modelos anteriores, mas nenhum ganhou a fama do relógio do aviador.

A pergunta costuma render na mesa, porque cada pessoa olha o próprio pulso.

“Você sabia que o relógio de pulso masculino nasceu para um aviador brasileiro?”

Amanhã: a ilha do Pacífico que pulou um dia inteiro do calendário em 2011.

 
 
Quiz da edição

Em que ano a Cartier colocou o modelo Santos à venda ao público, com o nome do cliente estampado?

A1904
B1911
C1906
D1901

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