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O planeta onde o dia dura mais que o ano inteiro
Vênus gasta 243 dias terrestres para girar uma vez em torno do próprio eixo e só 225 para completar a volta em torno do Sol.
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243 dias para girar, 225 para orbitar
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243 dias terrestres. É quanto Vênus gasta para completar uma única volta em torno do próprio eixo, segundo as medições de radar que a NASA começou a fazer no observatório de Goldstone em 1962. A volta completa em torno do Sol leva 225 dias. O giro do planeta sobre si mesmo demora mais que a órbita inteira.
A conta parece defeituosa na primeira leitura porque a intuição foi treinada na Terra, onde um dia cabe 365 vezes dentro de um ano. Vênus inverte a proporção com folga: o ano acaba enquanto o planeta ainda está no meio de uma rotação, e nenhuma correção de calendário conserta a ordem.
O planeta ainda faz o giro na mão contrária. Enquanto a Terra, Marte e Júpiter rodam no mesmo sentido em que orbitam, Vênus roda ao contrário, com o eixo virado quase de cabeça para baixo. Um observador plantado na superfície veria o Sol nascer no oeste e se pôr no leste, sem exceção.
Somando os dois movimentos, o intervalo entre um nascer do Sol e o seguinte fica em 117 dias terrestres. Cada ano venusiano cabe menos de duas dessas manhãs. Quem morasse ali passaria quase quatro meses debaixo da mesma luz antes de ver o céu escurecer.
Nada na superfície acompanha a lentidão. O ar de Vênus circula o planeta inteiro em cerca de quatro dias terrestres, sessenta vezes mais rápido que o chão embaixo dele, num fenômeno que os astrônomos batizaram de superrotação atmosférica. O planeta é uma bola que quase não gira, embrulhada numa atmosfera que voa.
Por baixo da nuvem de ácido sulfúrico, a superfície mantém 464 graus Celsius e pressão 92 vezes maior que a do nível do mar terrestre, medidas confirmadas pelas sondas soviéticas Venera na década de 1970. Chumbo derrete ali. O calor não varia entre o lado iluminado e o escuro, porque a atmosfera espessa distribui a temperatura por igual.
Nada disso era conhecido até bem tarde. A nuvem permanente escondeu a superfície de todos os telescópios ópticos por trezentos anos, e a duração do dia venusiano só apareceu quando os astrônomos deixaram de olhar e passaram a gritar com o planeta em ondas de rádio. Vale começar por esse número teimoso e pelo que ele produz no céu de lá.
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I A Curiosidade do Dia
Um giro mais lento que a órbita inteira
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O período de rotação de Vênus medido em relação às estrelas fixas é de 243,02 dias terrestres. O período orbital é de 224,7 dias. A sobra de 18 dias e um punhado de horas entre os dois valores produz a frase estranha de que o dia venusiano dura mais que o ano venusiano.
A conta muda de forma quando se pergunta pelo Sol, e não pelas estrelas. O que a vida cotidiana chama de dia é o intervalo entre dois meios-dias seguidos, e ele depende também do deslocamento do planeta ao longo da órbita. Na Terra a soma tira quatro minutos da rotação. Em Vênus, com o giro invertido, a soma trabalha ao contrário e encurta o dia solar para 116,75 dias terrestres.
O eixo do planeta está inclinado 177,4 graus, quase a volta completa. Ou seja, Vênus roda praticamente deitado de barriga para cima, com o polo norte apontando para o sul do plano do sistema solar. É essa inclinação absurda que produz a rotação retrógrada, o giro que corre na direção oposta à do movimento orbital.
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Vênus tem o giro mais lento de todos os planetas do sistema solar, e divide com Urano, que gira quase deitado de lado, a lista curta dos que rodam na mão contrária.
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A inclinação quase invertida também zera as estações. A Terra tem verão e inverno porque o eixo pende 23,4 graus e cada hemisfério recebe mais luz por metade do ano. Vênus não tem essa oscilação útil, e a órbita quase circular remove a última fonte possível de variação sazonal.
Duas forças disputam a explicação do freio. A primeira são as marés que o Sol exerce sobre o corpo rochoso do planeta, capazes de arrastar a rotação ao longo de bilhões de anos. A segunda é a maré térmica da atmosfera: o ar aquecido pelo Sol se desloca em massa e empurra o planeta pelo lado de dentro, num torque que age no sentido contrário ao das marés sólidas.
O trabalho publicado por Alexandre Correia e Jacques Laskar na revista Nature em 2001 mostrou que Vênus pode ter chegado à configuração atual por caminhos diferentes: girando ao contrário desde sempre, ou girando na mão normal e sendo tombado de cabeça para baixo pelo caos gravitacional do sistema solar primitivo. As duas rotas produzem o planeta que se observa hoje.
E o número nem parece estável. Comparando os dados do radar da sonda Magellan, dos anos 1990, com as observações da sonda europeia Venus Express, a Agência Espacial Europeia anunciou em 2012 que o planeta gira alguns minutos mais devagar do que girava vinte anos antes. A suspeita recai sobre o atrito daquela atmosfera monstruosa contra as montanhas da superfície.
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II A História Por Trás
O radar que flagrou o giro ao contrário
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Até a década de 1960, a duração do dia venusiano era chute educado. A camada de nuvem cobre o planeta inteiro sem falhas, então nenhum telescópio conseguia marcar um ponto na superfície e cronometrar o retorno dele. Sem marca de referência, não há como medir giro nenhum.
Os palpites da época iam longe. Havia quem propusesse rotação sincronizada, com Vênus mostrando sempre a mesma cara para o Sol, do jeito que a Lua faz com a Terra. Outros defendiam um dia de poucas semanas. A imaginação popular preencheu o vazio com pântanos quentes e florestas tropicais escondidas debaixo das nuvens.
A resposta veio por rádio. Em 1961 e 1962, equipes do Jet Propulsion Laboratory, em Goldstone, e do Massachusetts Institute of Technology dispararam pulsos de radar contra o planeta e mediram o eco de volta. O relevo da superfície devolve o sinal com deslocamento de frequência, e é dessa deformação que se extrai a velocidade de giro.
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Nenhum telescópio óptico jamais viu o chão de Vênus girar: o dia do planeta foi medido por eco de rádio, não por observação direta.
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"A superfície de Vênus é uma espécie de inferno." Carl Sagan, Cosmos, 1980.
A conclusão, publicada por Richard Goldstein e Roland Carpenter na revista Science em 1963, trouxe duas surpresas de uma tacada só: o giro era lentíssimo, na casa dos 240 dias, e corria no sentido contrário ao de todos os vizinhos. Nenhum modelo de formação planetária da época previa qualquer uma das duas descobertas.
Sondas confirmaram e refinaram o número nas décadas seguintes. As Venera soviéticas pousaram entre 1970 e 1982 e mandaram as primeiras fotos da superfície, aguentando pouco mais de uma hora antes de o calor e a pressão destruírem os equipamentos. A americana Magellan orbitou entre 1990 e 1994 e mapeou 98% do planeta com radar, fixando o valor de 243,02 dias.
A japonesa Akatsuki entrou na órbita venusiana em 2015, depois de errar a manobra de captura em 2010 e passar cinco anos girando em torno do Sol até uma segunda tentativa. As câmeras infravermelhas dela flagraram uma onda estacionária de 10 mil quilômetros parada sobre uma cordilheira, sinal do vento batendo no relevo do planeta que gira devagar embaixo.
O planeta que a ficção do começo do século 20 imaginava úmido e habitável virou, em poucos anos de radar e sonda, o corpo mais hostil entre os vizinhos da Terra. E a lentidão do giro entrou na lista das características que a ciência ainda não fechou com explicação única.
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