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O Matisse que ficou 47 dias de cabeça para baixo no MoMA

Le Bateau foi visto por 116 mil pessoas em 1961 antes de uma visitante perceber que a vela estava no lugar errado.

Colagem Le Bateau, de Henri Matisse: barco à vela azul e o reflexo na água.

Le Bateau, de Henri Matisse, 1953

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47 dias, entre outubro e dezembro de 1961. Foi o tempo que Le Bateau (O Barco), uma obra de Henri Matisse, passou pendurada de cabeça para baixo numa parede do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA.

A exposição tinha sido montada com cuidado. Era a primeira grande mostra americana dedicada aos últimos trabalhos do pintor francês, que havia deixado de pintar com pincel nos anos finais e passado a criar com tesoura e papel colorido.

Le Bateau estava entre as peças. Um barco à vela, um pedaço de céu, a água logo abaixo e o reflexo do barco na água. Formas simples, recortadas em papel azul e violeta e coladas sobre um fundo branco.

Os montadores do museu receberam a obra, mediram a parede, penduraram e conferiram o prumo. Curadores passaram por ela. Críticos de arte passaram por ela. Fotógrafos passaram por ela.

Segundo o The New York Times, em reportagem de dezembro de 1961, cerca de 116 mil pessoas viram a exposição enquanto o quadro estava invertido. Ninguém reclamou por escrito, e nenhum funcionário levantou a mão.

A obra seguiu na parede, iluminada, com a etiqueta certa embaixo e a imagem errada em cima. Para a maioria dos visitantes, um barco de cabeça para baixo parecia apenas um barco moderno.

Quem resolveu o caso não era crítica, curadora nem pintora. Era uma visitante que olhou com mais atenção que os outros e percebeu um detalhe na vela maior: ela apontava para a direção errada.

O erro durou mais de seis semanas e só acabou porque uma pessoa comum confiou no próprio olho contra a autoridade de um museu inteiro.

A explicação de como o quadro virou começa na técnica que Matisse inventou nos últimos anos de trabalho, e no fato de que uma colagem de papel não tem lado óbvio para quem nunca viu o original.

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I  A Curiosidade do Dia

A vela que apontava para o fundo do mar

Le Bateau é uma colagem de 1953. Henri Matisse, o pintor francês nascido em 1869, a criou com papéis pintados a guache (tinta à base de água, opaca e de cor intensa) e depois recortados.

A composição divide o quadro em duas metades. Na de cima ficam o barco, a vela e o céu. Na de baixo fica a água, com o reflexo do barco tremido, como acontece num lago.

Com o quadro na posição certa, a vela maior aponta para o alto e o reflexo fica embaixo, mais solto e ondulado. Pendurado ao contrário, o reflexo sobe e o barco firme desce para o fundo da imagem.

Para um olho desatento, as duas metades se parecem. Matisse desenhou o barco e o reflexo com formas quase gêmeas, e a diferença entre eles é sutil: o reflexo tem contornos mais quebrados.

O MoMA abriu a mostra The Last Works of Henri Matisse: Large Cut Gouaches (Os Últimos Trabalhos de Henri Matisse: Grandes Guaches Recortados) em 17 de outubro de 1961. Le Bateau entrou na montagem invertido desde o primeiro dia.

O erro não estava escondido. Estava na parede, iluminado, diante de todo visitante que entrou na sala durante seis semanas.

A visitante que notou a inversão se chamava Geneviève Habert, uma corretora da bolsa de valores de Nova York, segundo a reportagem do The New York Times de 5 de dezembro de 1961.

Habert comparou a obra na parede com a reprodução impressa no catálogo da exposição. No catálogo, a vela maior apontava para cima. Na parede, apontava para baixo.

Ela avisou um guarda da sala. O guarda repassou o aviso à equipe do museu, e o diretor de exposições, Monroe Wheeler, foi ver a peça de perto.

Wheeler confirmou o erro. No dia 4 de dezembro de 1961, Le Bateau foi tirado da parede e pendurado na posição certa, 47 dias depois da primeira montagem.

O museu não escondeu o episódio. A notícia saiu no jornal no dia seguinte e virou uma das histórias mais contadas sobre arte moderna no século 20.

O MoMA nunca publicou um relatório explicando quem pendurou a obra invertida. A versão mais aceita é que a peça chegou sem marcação clara de topo, e a equipe escolheu a orientação errada na montagem.

 
 

II  A História Por Trás

A tesoura de um pintor que não podia mais ficar de pé

Para entender como uma obra de Matisse pôde ser pendurada ao contrário, é preciso voltar a 1941. Naquele ano, o pintor passou por uma cirurgia contra um câncer no intestino, em Lyon, na França.

A operação salvou o pintor, mas o deixou fraco. Matisse passou boa parte dos últimos anos na cama ou numa cadeira de rodas, sem força para ficar horas de pé diante de uma tela grande.

Ele encontrou outra saída. Seus assistentes pintavam folhas de papel com guache, nas cores que ele escolhia. Matisse recortava as formas com uma tesoura grande, direto na cor, sem desenho prévio.

Ele chamava a técnica de papiers découpés (papéis recortados, em francês). Os recortes eram presos com alfinetes na parede do quarto, em Nice, e mudados de lugar até a composição ficar como ele queria.

A assistente mais próxima nessa fase foi Lydia Delectorskaya, uma imigrante russa que trabalhou com Matisse por cerca de 20 anos. Era ela quem marcava a posição de cada forma antes da colagem final.

“O papel recortado me permite desenhar na cor.”

Henri Matisse, em entrevista a André Verdet, 1952.

Nessa técnica, o próprio Matisse movia as peças dezenas de vezes. Cima e baixo ficavam definidos só no fim, pelo olho dele.

O método tinha uma fragilidade. Uma colagem de formas abstratas não traz uma moldura de paisagem, um rosto ou uma assinatura evidente que diga ao montador onde fica o alto.

Matisse morreu em novembro de 1954, em Nice. Le Bateau, feita um ano antes, chegou ao MoMA ainda em 1953, doada ao museu, e passou a fazer parte da coleção permanente.

Em 1961, sete anos depois, o pintor já não estava lá para conferir a montagem. Os recortes tinham sido transferidos para um suporte fixo, e a obra viajou para a parede da exposição sem o autor por perto.

O catálogo da mostra trazia a orientação certa, impressa a partir da documentação do museu. O problema nasceu na passagem da caixa para a parede, num trabalho de montagem com dezenas de peças grandes.

A ironia da história está na técnica. A mesma liberdade que deixou Matisse criar deitado, movendo recortes sem regra, deixou a obra vulnerável a um engano que nenhum quadro figurativo sofreria.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Mondrian, Düsseldorf e outros quadros virados

O caso de Le Bateau não ficou sozinho. Em 2022, a historiadora de arte Susanne Meyer-Büser, curadora da Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, museu de Düsseldorf, na Alemanha, anunciou um erro parecido.

A obra era New York City I, de Piet Mondrian, pintor holandês famoso pelas linhas retas e cores puras. A peça, feita com fitas adesivas coloridas, estava exposta de cabeça para baixo havia décadas, desde 1980 naquele museu.

Meyer-Büser chegou à conclusão comparando a obra com uma fotografia do ateliê de Mondrian, tirada pouco depois da morte dele, em 1944. Na foto, o quadro aparece apoiado num cavalete com as linhas densas no alto.

O museu decidiu manter o Mondrian do jeito que estava, porque virar a obra poderia descolar as fitas, que tinham mais de 80 anos.

O caso alemão tem uma diferença em relação ao de Matisse: lá, a orientação correta ainda é debatida por especialistas. Em Nova York, o catálogo da própria exposição resolvia a dúvida.

A arte abstrata facilita esse tipo de engano. Sem rosto, horizonte ou letra, o olho não encontra o sinal que normalmente diz onde fica o alto de uma imagem.

Os museus aprenderam com esses episódios. Hoje, toda obra que sai de uma reserva técnica viaja com fichas, fotografias de referência e setas marcadas no verso da moldura indicando o topo.

Le Bateau segue na coleção do MoMA, na posição certa desde 4 de dezembro de 1961. A obra voltou a ser exibida em 2014, na grande mostra Henri Matisse: The Cut-Outs (Henri Matisse: Os Recortes), organizada pelo MoMA com a Tate Modern, de Londres.

Nessa mostra, a vela maior apontava para o alto, como Matisse a deixou. Os textos da exposição citavam o caso de 1961, e muitos visitantes paravam diante do barco para conferir com os próprios olhos.

Geneviève Habert não ganhou prêmio, cargo nem homenagem oficial do museu. Ficou conhecida apenas pela reportagem de dezembro de 1961, como a visitante que olhou duas vezes para o mesmo barco.

Para contar a história de Le Bateau numa roda de amigos, três passos bastam:

1. Comece pelo número: em 1961, uma obra de Henri Matisse ficou 47 dias de cabeça para baixo no MoMA, em Nova York.

2. Conte o público: segundo o The New York Times, cerca de 116 mil pessoas viram a exposição sem que ninguém do museu percebesse o erro.

3. Termine em quem descobriu: Geneviève Habert, uma corretora da bolsa, comparou a parede com o catálogo e viu que a vela apontava para baixo.

“Se você estivesse na sala em 1961, teria olhado para a vela ou para a etiqueta do quadro?”

Amanhã: a ponte de Londres que foi vendida em 1968 e remontada no deserto do Arizona.

 
 
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