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A ligação entre a rocha branca e a vida microscópica não veio de uma escavação em terra firme. Ela veio do fundo do Atlântico, puxada por cabo, no meio de um projeto de engenharia que nada tinha a ver com geologia.
Nos anos 1850 e 1860, as expedições que sondavam o leito oceânico pra assentar o cabo telegráfico transatlântico traziam amostras do fundo. O material que subia era uma lama clara e fina, batizada de vasa de Globigerina, e ninguém sabia direito do que ela era feita.
Thomas Henry Huxley, biólogo inglês, colocou aquela lama no microscópio. Encontrou dentro dela carapaças de organismos de uma célula só e, junto, uma multidão de discos minúsculos de calcita que ele chamou de cocólitos.
O passo seguinte foi comparar a lama do Atlântico com um pedaço de giz de Dover. As formas eram as mesmas. A rocha que sustentava a costa inglesa e a lama que se depositava naquele momento no fundo do oceano eram o mesmo material em estágios diferentes.
Em 1868, Huxley levou a conclusão a um auditório de trabalhadores em Norwich, numa palestra que virou um dos textos de divulgação científica mais citados do século, chamada Sobre um Pedaço de Giz.
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"Um grande capítulo da história do mundo está escrito no giz." Thomas Henry Huxley, On a Piece of Chalk, 1868.
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O argumento da palestra é o que sustenta a leitura até hoje. Se a lama do fundo do Atlântico é idêntica ao giz da falésia, então a falésia se formou no fundo de um mar parecido, e a espessura dela é uma medida do tempo que aquele mar passou ali.
A alga responsável pela fábrica ganhou nome próprio muito depois, e o nome fecha o círculo. A espécie mais abundante hoje se chama Emiliania huxleyi, homenagem ao mesmo Huxley, e é ela que domina a produção atual de cocólitos no oceano.
A escala dessa produção continua enorme. As florações de Emiliania huxleyi chegam a cobrir mais de 100 mil quilômetros quadrados de superfície do mar, e o brilho leitoso que elas provocam na água é visível em imagem de satélite sem nenhum tratamento especial.
Cada célula dessas monta cerca de trinta placas ao longo da vida e vai trocando as antigas. O saldo é uma chuva permanente de calcita que segue caindo neste minuto, no mesmo ritmo lento que produziu as camadas brancas do Cretáceo.
A conta tem uma consequência climática direta. Ao montar a armadura, a alga tira carbono da água na forma de carbonato, e parte desse carbono vai parar no sedimento do fundo, fora de circulação por dezenas de milhões de anos.
A rocha branca é, portanto, um depósito de carbono com endereço conhecido. O que hoje sustenta a falésia é o carbono que aquelas células retiraram da água do Cretáceo, prensado por 66 milhões de anos de sedimento por cima.
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