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O cão que achou a taça da Copa 7 dias depois do roubo
Em março de 1966, a Taça Jules Rimet sumiu de uma feira em Londres. Quem a encontrou foi Pickles, um collie mestiço, numa cerca viva.
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Pickles e a Taça Jules Rimet, Londres, 1966
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7 dias, março de 1966. Foi o tempo que o troféu mais cobiçado do futebol passou desaparecido em Londres, quatro meses antes de a Inglaterra sediar a Copa do Mundo.
O troféu era a Taça Jules Rimet, entregue ao campeão mundial desde 1930. Uma estatueta dourada da deusa grega Nice (a Vitória), com asas abertas, segurando um vaso acima da cabeça.
A Federação Inglesa de Futebol tinha emprestado a peça para a Stampex (uma feira de selos raros), montada no Methodist Central Hall, um salão da Igreja Metodista em Westminster, a poucas quadras do Parlamento. A empresa que expunha os selos prometeu vigilância permanente.
No domingo, 20 de março, os vigias passaram pela sala e viram a vitrine intacta. Na ronda seguinte, ela estava vazia. Alguém tinha forçado uma porta dos fundos e levado a taça. Os selos, que valiam muito mais, ficaram onde estavam.
O roubo virou vexame nacional. A Inglaterra tinha passado anos pedindo à FIFA o direito de sediar o torneio, e agora perdia o prêmio antes do primeiro jogo.
No dia seguinte, o presidente da Federação, Joe Mears, recebeu um telefonema e depois um pacote. Dentro, o forro removível do topo da taça e uma carta assinada por um tal de Jackson, que pedia 15.000 libras em notas usadas para devolver o resto.
A polícia montou uma armadilha. Um detetive se passou por assistente de Mears e levou uma mala com notas verdadeiras por cima e papel cortado por baixo. Prendeu o homem que apareceu para buscar a quantia.
O preso se chamava Edward Betchley, um ex-soldado que negociava carros usados. Ele admitiu a carta e o pedido de resgate, mas jurou que só servia de intermediário para outra pessoa. A taça não estava com ele.
Durante uma semana, a Scotland Yard (a polícia metropolitana de Londres) não teve pista nenhuma. Quem resolveu o caso não usava distintivo: tinha quatro patas, coleira e o hábito de farejar cercas no sul da cidade.
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I A Curiosidade do Dia
O embrulho debaixo da cerca viva
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David Corbett, um barqueiro do Tâmisa de 26 anos, saiu de casa na rua Beulah Hill, no bairro de Upper Norwood, sul de Londres, na noite de domingo, 27 de março de 1966. Ia telefonar para o irmão de uma cabine pública e levou junto o cachorro, Pickles.
Pickles era um mestiço de collie (a raça escocesa de cão pastor), preto e branco, de uns quatro anos. Tinha chegado à família ainda filhote, presente de um parente, e passeava sem guia pela vizinhança.
Na calçada, o cão parou perto de um carro estacionado na frente da casa vizinha e enfiou o focinho na base da cerca viva. Corbett foi ver o que prendia tanto o faro dele.
Lá embaixo havia um embrulho de jornal, apertado e amarrado com barbante. Corbett rasgou um canto do papel e viu uma figura dourada de mulher com asas. Na base, gravados, os nomes de países campeões: Alemanha Ocidental, Uruguai, Brasil.
Ele tinha visto a foto da taça roubada nos jornais da semana inteira. Correu para dentro, mostrou o achado à esposa, Jeanie, e seguiu direto para a delegacia de Gipsy Hill, ali perto.
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A taça mais procurada da Inglaterra apareceu numa calçada de subúrbio, embrulhada em jornal velho, porque um cão de passeio resolveu farejar uma cerca.
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Na delegacia, a recepção foi fria. O policial de plantão desconfiou da história, e Corbett passou a noite como suspeito, respondendo perguntas até de madrugada. Um barqueiro com a taça da Copa nas mãos parecia bom demais para ser verdade.
O álibi dele resolveu a dúvida. Corbett estava longe de Westminster no dia do roubo, e a polícia logo o liberou. Na manhã de segunda, a história já estava nos jornais do país inteiro, com a foto de Pickles.
A recompensa veio de várias fontes. Corbett recebeu, ao todo, cerca de 6.000 libras, oferecidas pela Federação, por empresas e pela seguradora. Com o dinheiro, comprou uma casa no condado de Surrey, fora de Londres.
Pickles ganhou uma medalha de prata da National Canine Defence League (a Liga Nacional de Defesa dos Cães), um ano de ração grátis e convites para a televisão.
Resta a pergunta central: quem roubou a taça? A resposta honesta é que ninguém sabe. Betchley foi condenado a 2 anos de prisão pela extorsão e nunca apontou um nome. O ladrão que forçou a porta do Central Hall nunca foi identificado, e o caso fechou sem culpado pelo furto.
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II A História Por Trás
A deusa alada que atravessou guerras
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A taça que Pickles achou nasceu da teimosia de Jules Rimet, advogado francês que presidiu a FIFA de 1921 a 1954. Foi ele quem convenceu as federações a criar um campeonato mundial só de futebol, separado das Olimpíadas.
A primeira Copa aconteceu em 1930, no Uruguai. O troféu foi encomendado ao escultor francês Abel Lafleur: prata de lei banhada a ouro, base de lápis-lazúli (uma pedra azul semipreciosa), cerca de 35 centímetros e pouco menos de 4 quilos.
No começo, a peça se chamava apenas Vitória. O nome Jules Rimet veio em 1946, em homenagem ao presidente que tinha criado o torneio.
A taça sobreviveu à Segunda Guerra por causa de um italiano. A Itália tinha vencido a Copa de 1938, e o troféu estava em Roma. Ottorino Barassi, vice-presidente da FIFA, tirou a peça de um cofre de banco e a escondeu numa caixa de sapatos debaixo da própria cama, longe dos soldados alemães.
Depois do susto de 1966, a Federação Inglesa tomou uma precaução discreta. Encomendou ao ourives George Bird uma réplica da taça, usada em eventos públicos enquanto a original ficava guardada.
A réplica teve vida longa. Em 1997, foi a leilão na casa Sotheby's, em Londres, e a própria FIFA a comprou por 254.500 libras, valor muito acima do estimado, porque se suspeitava que pudesse ser a verdadeira.
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A Taça Jules Rimet escapou de um ladrão em Londres, mas não escapou do segundo: desde 1983, a original está desaparecida.
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O segundo roubo aconteceu no Brasil. A regra da FIFA dizia que o primeiro país a vencer três Copas ficaria com a taça para sempre, e o Brasil chegou ao tri em 1970, no México.
A peça passou a morar na sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro. A vitrine tinha vidro à prova de balas na frente, mas o fundo era de madeira.
Na noite de 19 de dezembro de 1983, ladrões renderam o vigia, arrancaram o fundo da vitrine e levaram a taça. A polícia prendeu e a Justiça condenou quatro homens, entre eles o argentino Juan Carlos Hernández, acusado de derreter o ouro.
A taça nunca voltou. A versão mais aceita pela polícia é que virou barras de ouro, mas ninguém jamais apresentou prova de que foi derretida. Em 1984, a CBF recebeu uma réplica feita pela empresa Kodak, a que aparece hoje em exposição.
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