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O Butão só ligou a televisão em junho de 1999

Até ali, o reino do Himalaia tinha um jornal semanal e nenhum canal próprio. O rei liberou TV e internet no jubileu de prata.

Vale de Thimphu, capital do Butão, com montanhas ao fundo.

Thimphu, capital do Butão

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2 de junho de 1999. Foi o dia em que o Butão, um reino budista encravado no Himalaia entre a China e a Índia, ligou pela primeira vez um canal de televisão próprio.

A data não foi escolhida ao acaso. Naquele dia, o rei Jigme Singye Wangchuck completava 25 anos no trono, e o jubileu de prata veio com um anúncio: a partir dali, o país teria televisão e internet.

Até então, o Butão tinha cerca de 600 mil habitantes, nenhuma emissora de TV e um único jornal, o Kuensel, que saía uma vez por semana.

O rádio existia desde 1973, quando um grupo de jovens voluntários começou a transmitir meia hora de programação aos domingos na capital, Thimphu. Durante décadas, foi a principal janela do país para o resto do mundo.

A televisão, não. Aparelhos chegavam de contrabando pela fronteira indiana e serviam para assistir a fitas de vídeo alugadas, mas antenas para captar canais estrangeiros eram proibidas.

O sinal oficial começou modesto. A emissora estatal, a Bhutan Broadcasting Service, ia ao ar poucas horas por noite, com noticiário em dzongkha, a língua nacional, e em inglês.

Nas primeiras semanas, quem não tinha aparelho em casa se juntava na porta das lojas de eletrônicos de Thimphu para ver o noticiário pela vitrine.

O que veio logo depois foi maior. Em poucos meses, operadoras privadas de cabo passaram a vender pacotes com dezenas de canais estrangeiros: novela indiana, esporte, música americana, desenho animado e luta livre.

No mesmo mês, a Druknet, primeira provedora de internet do país, começou a funcionar. Um reino que tinha passado o século inteiro fechado ganhou, num intervalo de semanas, as duas tecnologias que mais mudaram o resto do planeta nos 50 anos anteriores.

Abaixo, a ordem de 1989 que mandou derrubar as antenas, a ideia de governo que explica o atraso proposital e o que a televisão fez com o país nos primeiros anos.

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I  A Curiosidade do Dia

As antenas derrubadas de 1989

A resposta de ontem

Por que o Codex Gigas voou por uma janela em 1697?

Em 7 de maio de 1697, um incêndio tomou o castelo Tre Kronor, onde ficava a biblioteca real sueca. Para salvar o Codex Gigas das chamas, ele foi jogado por uma janela. Segundo a Biblioteca Nacional da Suécia, o livro sobreviveu, mas a encadernação se soltou e algumas folhas se perderam na queda.

O Butão não chegou atrasado à televisão por falta de dinheiro ou de técnica. Chegou atrasado porque o governo decidiu assim, e chegou a desmontar o que já tinha entrado.

Nos anos 1980, as antenas parabólicas começaram a aparecer em casas de famílias mais ricas de Thimphu. Elas captavam canais da Índia e programação via satélite que vinha de muito mais longe.

Em 1989, o governo mandou retirar as antenas. A ordem valia para o país inteiro e foi cumprida: os pratos de metal saíram dos telhados, e quem queria imagem em movimento ficou restrito ao videocassete.

As locadoras de fitas continuaram abertas. O governo vetou o sinal ao vivo vindo de fora, impossível de escolher ou filtrar antes de chegar à sala das famílias.

A decisão fazia parte de um pacote maior. No mesmo período, o governo reforçou o driglam namzha, o código de conduta tradicional, e tornou obrigatório o uso das roupas nacionais em escolas, repartições e templos: o gho para os homens e a kira para as mulheres.

O raciocínio do governo era direto. O país era pequeno, pouco povoado e cercado por dois vizinhos gigantes. Se a cultura butanesa fosse inundada pelos canais da Índia e do Ocidente, poderia sumir em uma geração.

O Butão tratou a televisão como uma fronteira: deixar entrar era uma decisão de Estado, tomada pelo rei.

O fechamento tinha precedentes. O país só abriu as portas para turistas estrangeiros em 1974, e mesmo assim com cota e taxa diária alta, uma política que existe até hoje.

A primeira estrada asfaltada ligando o Butão à Índia só ficou pronta nos anos 1960. Antes, a viagem da fronteira até a capital levava dias a pé ou no lombo de mula.

A moeda própria, o ngultrum, só passou a circular em 1974. Até a década de 1960, boa parte das trocas no interior ainda era feita em espécie, com arroz, manteiga e tecido.

Houve uma exceção famosa antes de 1999. Em 1998, o comitê olímpico do país ganhou autorização especial para exibir os jogos da Copa do Mundo da França num telão no estádio Changlimithang, em Thimphu.

Milhares de pessoas lotaram as arquibancadas para ver a seleção brasileira, a francesa e as outras na tela. A permissão valia só para o torneio, e depois da final o telão foi desmontado.

A cena mostrou ao governo o tamanho da vontade. Um ano depois, a liberação veio pelo próprio rei, na data do jubileu, como um presente ao país.

 
 

II  A História Por Trás

Um rei e a Felicidade Interna Bruta

Jigme Singye Wangchuck subiu ao trono em 1972, com 16 anos, depois da morte do pai. Era o monarca mais jovem do mundo naquele momento.

Pouco depois, ele deu uma declaração que virou marca do país. Disse que a Felicidade Interna Bruta importava mais que o Produto Interno Bruto.

A frase não era só retórica. Ela virou critério de governo: toda política pública devia ser pesada pelo efeito no bem-estar, na cultura, no meio ambiente e na boa administração, e não apenas pelo crescimento econômico.

Décadas depois, o conceito ganhou estrutura. O Centro de Estudos do Butão passou a medir a felicidade em pesquisas nacionais com nove domínios, de saúde e educação a uso do tempo e vitalidade cultural, e a ONU adotou em 2011 uma resolução inspirada na ideia.

A televisão caiu nessa balança durante 27 anos. O governo reconhecia que o aparelho trazia informação e educação, mas temia o que vinha junto: consumo, violência e o abandono de costumes locais.

A demora foi uma escolha calculada: o Butão quis ver o que a TV tinha feito com outros países antes de abrir a sua.

A abertura de 1999 fazia parte de um plano mais amplo de modernização controlada. O mesmo rei descentralizou o poder nos anos seguintes e, em 2008, conduziu o país à primeira eleição parlamentar e a uma constituição escrita.

Em 2006, ele abdicou em favor do filho, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, que segue no trono. A passagem foi pacífica e anunciada com antecedência.

A internet seguiu o mesmo ritmo cauteloso da TV. Nos primeiros anos, a conexão era discada, cara e concentrada em Thimphu, e poucos milhares de pessoas tinham acesso.

O governo também criou, em 2000, uma autoridade para regular a mídia e o cabo. A ideia era manter alguma mão sobre o que entrava nos lares, mesmo depois da liberação.

O controle durou pouco na prática. Os operadores de cabo eram pequenos empresários locais, as antenas voltaram aos telhados, e a oferta de canais cresceu mais rápido do que a regulação conseguia acompanhar.

O Kuensel, que tinha sido o único jornal do país por décadas, ganhou concorrentes privados a partir de 2006. A paisagem de informação do Butão mudou mais em sete anos do que em todo o século anterior.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Luta livre no vale de Thimphu

Os primeiros anos de televisão no Butão viraram objeto de estudo e de reportagem fora do país.

Em 2003, os jornalistas britânicos Cathy Scott-Clark e Adrian Levy publicaram no jornal The Guardian a reportagem “Fast forward into trouble”, sobre o efeito da TV a cabo no reino.

Eles relataram crianças imitando golpes da luta livre americana nos pátios das escolas, adolescentes trocando o gho por calças jeans e famílias que passavam a noite diante da tela em vez de conversar.

Os autores também ouviram professores e monges. Vários descreveram a mesma mudança: alunos sonolentos depois de madrugadas diante da tela e conversas de pátio tomadas por nomes de lutadores e atores estrangeiros.

O texto também citava a preocupação de autoridades com um aumento de pequenos crimes e de casos ligados a drogas nas cidades no mesmo período. A relação de causa com a televisão nunca foi provada, mas a percepção pesou no debate público.

Em quatro anos, um país sem canal próprio passou a ter dezenas de canais estrangeiros em cada sala com cabo.

O próprio governo reagiu. Em 2006, o órgão regulador tirou do pacote de cabo alguns canais estrangeiros considerados violentos ou inadequados para as famílias.

A televisão estatal também cresceu. A Bhutan Broadcasting Service ampliou as horas no ar, passou a cobrir o país inteiro por satélite e virou o principal veículo de notícias em dzongkha.

Hoje, o Butão tem televisão, celular e internet móvel em quase todo o território, e o Kuensel circula também em versão digital.

Os números mudaram rápido. Em pouco mais de uma década, o celular passou a cobrir quase todo o território, e o acesso à internet chegou a vales isolados onde a estrada asfaltada nem sempre chegou.

As roupas nacionais seguem obrigatórias em repartições e escolas, e o turismo ainda funciona com taxa diária. A abertura veio, mas veio pelas regras do país.

Para levar a história à mesa, três passos:

1. Comece pela data: 2 de junho de 1999, o dia em que o Butão ligou a primeira televisão oficial.

2. Conte o porquê: as antenas derrubadas em 1989 e a Felicidade Interna Bruta como critério de governo.

3. Termine no efeito: dezenas de canais em poucos meses e a luta livre americana nos pátios das escolas.

“Você sabia que o Butão só teve televisão em 1999, por decisão do próprio rei?”

O futebol foi a porta pela qual a tela grande entrou no país, e voltou a pôr o Butão no noticiário do esporte poucos anos depois da liberação.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Contra qual seleção o Butão entrou em campo no mesmo dia da final da Copa de 2002?

 
 
Quiz da edição

Em que ano o governo do Butão mandou derrubar as antenas parabólicas que já tinham entrado no país?

A1974, junto com a criação da moeda nacional
B1999, no mesmo mês em que a TV foi liberada
C1989, antes da TV chegar oficialmente ao país
D1972, no início do reinado do rei Jigme Singye Wangchuck

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