|
Em 18 de agosto de 1868, o astrônomo francês Pierre Janssen apontou um espectroscópio pra um eclipse total do Sol visto de Guntur, na Índia. Na borda do disco solar apareceu uma linha amarela que não correspondia a nenhum elemento conhecido.
Em outubro do mesmo ano, o inglês Norman Lockyer viu a mesma linha sem precisar de eclipse. Junto com o químico Edward Frankland, batizou o dono da linha de hélio, do grego helios. Era um elemento catalogado no Sol antes de aparecer na Terra.
A confirmação terrestre demorou 27 anos. Em 1895, William Ramsay dissolveu em ácido um mineral de urânio chamado cleveíta, recolheu o gás que saiu e encontrou nele a mesma linha amarela. Em Uppsala, Per Teodor Cleve e Nils Langlet chegaram ao resultado quase ao mesmo tempo.
O detalhe fecha o círculo: o primeiro hélio encontrado no planeta saiu de um minério de urânio. Ninguém sabia ainda que a relação entre os dois era de origem, não de coincidência.
A prova veio em 1909, num tubo de vidro. Ernest Rutherford e Thomas Royds coletaram partículas alfa de uma amostra de rádio dentro de um tubo evacuado e depois excitaram o gás acumulado, que respondeu com o espectro do hélio.
|
"Podemos concluir com certeza, a partir destes experimentos, que a partícula alfa, depois de perder sua carga, é um átomo de hélio." Ernest Rutherford e Thomas Royds, The Nature of the α Particle from Radioactive Substances, 1909.
|
O lado prático da história começou antes, e por acidente. Em 1903, a cidade de Dexter, no Kansas, perfurou um poço de gás e organizou uma festa pra acender a chama diante dos vizinhos. O jato subiu com força e apagou a tocha.
Os moradores apelidaram o achado de gás de vento. Dois anos depois, os químicos Hamilton Cady e David McFarland, da Universidade do Kansas, analisaram uma amostra: nitrogênio em quase três quartos, pouco metano e 1,84% de hélio.
Era a maior concentração já vista, num lugar que ninguém associava a nada raro. O mapa do hélio mundial nasceu ali, no meio do continente americano.
Em 1925, o governo dos Estados Unidos criou a Reserva Federal de Hélio no campo de Cliffside, perto de Amarillo, no Texas, pra abastecer dirigíveis militares. O estoque virou o maior depósito de hélio do planeta e sobreviveu ao fim dos dirigíveis.
Em 1996, uma lei mandou vender tudo. A reserva passou décadas escoando gás a preço abaixo do custo, e o sistema federal inteiro foi arrematado por uma empresa privada em 2024, por cerca de 425 milhões de dólares.
Hoje a produção se espalhou um pouco. O Catar tira hélio do gás do North Field, a Argélia processa o seu no litoral, a Rússia inaugurou uma planta gigantesca no rio Amur, e em 2016 pesquisadores britânicos anunciaram na Tanzânia o primeiro campo procurado de propósito, com amostras de até 10% de hélio.
A lista de países é curta porque a geologia é rara. Já a fila de quem precisa do gás não é curta: ela começa no hospital mais perto da sua casa.
|