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Curiosidade do Dia   Curiosidade do Dia
ED 007

O Atlântico cresce na velocidade da sua unha

A dorsal no meio do oceano afasta América e África 2,5 centímetros por ano, e o número saiu do basalto do fundo, não de satélite.

Corredor de rocha aberto entre dois paredões de basalto na fenda de Thingvellir, na Islândia.

A fenda da dorsal em Thingvellir, na Islândia

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Em dezembro de 1872 o HMS Challenger deixou Portsmouth com uma missão sem glamour: medir a profundidade do oceano com corda, chumbo e paciência. Cada sondagem levava horas de trabalho no convés. No meio do Atlântico Norte, a corda parou cedo demais.

Onde a tripulação esperava mais de quatro mil metros de água, o prumo encostou perto de dois mil. Repetiram a medida mais ao norte, repetiram mais ao sul, e o fundo continuava subindo no mesmo lugar, a milhares de quilômetros de qualquer costa.

A anomalia entrou nos relatórios como uma elevação no meio do mar e ficou parada ali por décadas. Ninguém tinha como enxergar a forma da estrutura: sondar o Atlântico inteiro com corda e chumbo levaria séculos de navegação.

O ponto de vista mudou com a guerra. Navios que caçavam submarino saíram com sonar e magnetômetro na popa, e depois de 1945 a mesma aparelhagem foi apontada para o chão do oceano em milhares de travessias comerciais e científicas.

O desenho completo só ficou pronto nos anos 1950. No eixo do Atlântico corre uma cordilheira de dezesseis mil quilômetros, da Groenlândia até perto da Antártida, quase toda submersa. Os poucos trechos que furam a superfície viraram ilha: Açores, Ascensão, Islândia.

Vale dizer o tamanho. Somada às dorsais dos outros oceanos, ela forma uma cadeia contínua de mais de sessenta mil quilômetros, a maior feição geológica do planeta, e quase ninguém sabe apontar onde ela fica no mapa.

E ela não é uma montanha comum. No alto da crista corre um vale, uma fenda de rocha aberta que acompanha a cordilheira inteira, e dentro dessa fenda o fundo do mar está sendo fabricado agora, enquanto você lê.

Falta o número. Quanto o Atlântico abre por ano, quem conseguiu medir centímetros a três mil metros de profundidade sem descer até lá, e o que a medida faz com a distância entre duas cidades ao longo de uma vida.

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I  A Curiosidade do Dia

Dois metros entre Rio e Lisboa

O número que sai do eixo da dorsal é 2,5 centímetros por ano. Não é uma média de milênios difícil de sentir: é a taxa atual, medida hoje e conferida por três métodos independentes.

Para dar escala, olhe para a sua mão. A unha cresce cerca de 3,5 milímetros por mês, pouco mais de quatro centímetros por ano, e você corta as unhas sem pensar que está acompanhando uma velocidade geológica.

Os dois números moram na mesma casa. O Atlântico abre um pouco mais devagar que a unha da sua mão e um pouco mais rápido que a do pé, e a comparação não é licença poética: é a mesma ordem de grandeza.

A cena que costuma se formar na cabeça está errada. A América não está sendo empurrada para longe da África por uma força que vem de trás.

O fundo novo nasce no eixo da dorsal e vai para os dois lados. São 1,25 centímetro por ano para cada margem, e o oceano inteiro funciona como uma esteira de basalto que sai do meio e envelhece conforme se afasta.

Daí sai a conta que interessa a quem tem passaporte. Rio de Janeiro e Lisboa estão hoje a cerca de 7.700 quilômetros um do outro, em placas diferentes, com a dorsal no meio do caminho.

Em oitenta anos de vida, as duas cidades se afastam uns dois metros. Não é figura de linguagem nem arredondamento generoso: é 2,5 centímetros multiplicado por oitenta, e o resultado cabe na largura de uma cama de casal.

Estique o prazo e o número vira paisagem. Desde o auge de Roma, dois mil anos atrás, o Atlântico ganhou cinquenta metros de largura. Em um milhão de anos, prazo curto para a geologia, ganha vinte e cinco quilômetros.

No dia a dia a diferença é invisível. A rota de voo entre São Paulo e Lisboa não muda e nenhum instrumento de bordo registra dois centímetros por ano.

Quem leva o movimento a sério é a rede de coordenadas. Os sistemas de referência do GPS carregam a velocidade de cada placa embutida, porque um ponto fixo no chão do Brasil sai do lugar alguns centímetros por ano.

Sobra a pergunta mais difícil. Ninguém desceu ao fundo com trena, o eixo da dorsal fica a três mil metros de profundidade, e mesmo assim o número foi obtido décadas antes do primeiro satélite confirmar.

 
 

II  A História Por Trás

A fita magnética no fundo do mar

Em 1952, no observatório Lamont, em Nova York, Marie Tharp desenhava à mão o perfil do fundo do Atlântico com as fitas de sondagem que os navios traziam. Ela não podia embarcar: mulher a bordo dava azar, pela regra da casa.

Traçando perfil por perfil, ela notou um entalhe em V bem no ponto mais alto da cordilheira, repetido em todas as travessias. Bruce Heezen, o colega que coletava os dados no mar, chamou a observação de conversa fiada e mandou refazer.

Ela refez, e o vale continuou lá. Quando os epicentros de terremoto do Atlântico entraram no mesmo mapa, a fileira de pontos caiu dentro da fenda desenhada.

O mapa dizia onde. Faltava dizer quanto, e a resposta veio de um instrumento que não tinha nada a ver com relevo: o magnetômetro rebocado, ferramenta criada na guerra para detectar submarino de aço.

Arrastado atrás dos navios travessia após travessia, ele registrou algo que ninguém tinha encomendado. O campo magnético sobre o fundo do Atlântico aparece em faixas paralelas à dorsal, uma forte, a seguinte fraca, e o padrão de um lado é o espelho do outro.

A explicação está na física do basalto. A lava sai do eixo a mais de mil graus e, ao cruzar os 580 graus na descida, os cristais de magnetita travam a direção do campo magnético terrestre daquele instante e nunca mais soltam.

E o campo terrestre troca de polaridade de tempos em tempos. Bernard Brunhes achou rocha magnetizada ao contrário em 1906, e a datação por potássio e argônio nos anos 1960 transformou as inversões em calendário.

A ideia de assoalho em movimento já estava na mesa. Harry Hess, geólogo de Princeton, propôs em 1962 que o fundo nascia nas dorsais e desaparecia nas fossas, e classificou o próprio texto sem cerimônia.

"Vou considerar este trabalho um ensaio de geopoesia." Harry Hess, History of Ocean Basins, 1962.

Frederick Vine e Drummond Matthews juntaram as duas metades num artigo curto na Nature, em 1963. Se o fundo nasce no eixo e se afasta, cada inversão do campo fica registrada como uma faixa, e o assoalho do mar é uma fita magnética que se grava sozinha.

Daí a medida cai numa divisão de escola primária. A faixa central, a que está sendo gravada agora, tem cerca de vinte quilômetros de largura, dez para cada lado do eixo da dorsal.

O campo magnético não se inverte há aproximadamente 780 mil anos. Dez mil metros divididos por 780 mil anos dão 1,28 centímetro por ano de cada lado, ou 2,5 centímetros de abertura total por ano.

Foi com uma bobina rebocada e uma conta de dividir que o Atlântico ganhou velocidade. Nenhum mergulho, nenhum satélite, nenhum equipamento no fundo.

A confirmação veio por dois caminhos. O navio Glomar Challenger cruzou o Atlântico Sul em 1968 e 1969 furando o fundo cada vez mais longe do eixo, e a idade do sedimento crescia em linha reta com a distância.

O segundo caminho demorou mais vinte anos. Só nos anos 1980 a interferometria de longa base e depois o GPS mediram o movimento das placas de forma direta, e devolveram o mesmo número que o magnetômetro já tinha entregado.

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III  Pra Contar na Mesa

O vale seco que virou oceano

Rode o número para trás e a origem do oceano aparece sozinha. Dois centímetros e meio por ano, ao longo de duzentos milhões de anos, dão cinco mil quilômetros, mais ou menos a largura do Atlântico no trecho mais antigo.

Duzentos milhões de anos atrás não havia Atlântico. Havia um continente só, e uma rachadura começando a abrir no meio dele, em chão seco, sem uma gota de água salgada por perto.

A cena tem sósia vivo hoje. O Vale do Rift, na África Oriental, é um vale de fundo plano com lagos rasos e vulcões nas bordas, exatamente o estágio em que o Atlântico começou.

A rachadura veio junto com um dos maiores episódios vulcânicos da história da Terra. Por volta de 201 milhões de anos atrás, lava cobriu milhões de quilômetros quadrados nas duas margens do vale.

O resto está à vista em três continentes. O basalto daquele episódio forma os paredões da Palisades, em frente a Manhattan, aparece no Marrocos e reaparece no norte do Brasil, pedaços do mesmo derrame separados pelo oceano que veio depois.

O sul abriu mais tarde e como um zíper. A separação entre Brasil e África começou por volta de 130 milhões de anos atrás na ponta sul e foi subindo, até o mar entrar de vez pelo golfo da Guiné.

No meio do caminho existiu um mar estreito e quente que enchia e evaporava sem parar. Cada ciclo deixou uma camada de sal no fundo, e a pilha chegou a dois mil metros de espessura.

A pilha tem nome comercial no Brasil. O pré-sal é o petróleo aprisionado debaixo do sal daquele mar estreito, e os campos de Angola e do Gabão são o mesmo depósito, partido ao meio e afastado 2,5 centímetros por ano desde então.

Quem quiser ver a dorsal sem submarino tem endereço em terra firme. Na Islândia, em Thingvellir, a fenda sobe acima do nível do mar e vira um corredor de rocha por onde se caminha, com paredões dos dois lados. O parlamento islandês se reunia ali desde o ano 930, muito antes de alguém saber o que era a fenda.

1. O ritmo: 2,5 centímetros por ano no eixo, 1,25 para cada margem. Em oitenta anos de vida, Rio e Lisboa ganham dois metros de distância.

2. A prova: a faixa magnética central mede uns vinte quilômetros e a última inversão do campo foi há 780 mil anos. A divisão devolve o mesmo 2,5, e a conta é anterior ao satélite.

3. A origem: o oceano começou como vale seco há 200 milhões de anos. O basalto da Palisades, o do Marrocos e o pré-sal brasileiro são recibos do mesmo processo.

O que muda na sua vida prática é quase nada, e o que muda na leitura do mapa é grande. O Atlântico deixa de ser espaço vazio entre dois continentes e vira a parte mais nova da paisagem, feita de rocha mais jovem que o primeiro dinossauro.

"Que outro movimento você chamaria de imóvel só porque leva uma vida inteira para dar dois metros?"

 
 
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