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Curiosidade do Dia   Curiosidade do Dia
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O Alasca custou dois centavos por acre

Os Estados Unidos pagaram 7,2 milhões de dólares em ouro pelo Alasca em 1867, e o Congresso levou 14 meses para liberar o dinheiro.

Mapa do Alasca ao lado do texto do tratado de compra assinado em 1867.

7,2 milhões em ouro pelo Alasca, 1867

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7,2 milhões de dólares. Foi quanto o Tesouro dos Estados Unidos concordou em pagar à Rússia pelo Alasca no tratado assinado em Washington na madrugada de 30 de março de 1867, com o valor fixado em ouro.

A negociação inteira coube em uma noite. O secretário de Estado William H. Seward recebeu em casa o ministro russo Eduard de Stoeckl na noite de 29 de março, ouviu que o czar autorizara a venda, e propôs fechar o texto ali mesmo. Os dois foram ao Departamento de Estado, chamaram escriturários de madrugada e o documento estava pronto para assinatura por volta das quatro da manhã.

O Senado ratificou o tratado em 9 de abril de 1867, por 37 votos a 2. A parte difícil veio depois, na Câmara, que precisava aprovar a dotação orçamentária para o pagamento sair. Ela só votou em 14 de julho de 1868, quinze meses depois da assinatura, e mesmo assim com 43 votos contrários.

Nesse intervalo o negócio virou piada de jornal. Circularam apelidos como Seward's Folly, a loucura de Seward, Seward's Icebox, o armazém de gelo de Seward, e Walrussia, um trocadilho com morsa e Rússia. A imagem que pegou foi a de um governo gastando dinheiro público num deserto congelado sem uso conhecido.

Havia um detalhe que ninguém no debate parecia querer encarar. O território transferido não era um pedaço marginal de mapa: era uma área maior que qualquer estado então existente, com milhares de quilômetros de litoral, rios navegáveis, floresta densa e um subsolo que nenhum dos dois governos tinha inventariado.

A parte que assusta na história não está no valor absoluto, e sim na divisão. Quando se pega os 7,2 milhões e se divide pela quantidade de terra que entrou na transação, o resultado deixa de parecer um gasto e passa a parecer um erro de digitação.

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I  A Curiosidade do Dia

A conta por acre e o tamanho no mapa

A divisão devolve um número que parece implausível. Pelas medições de área do Census Bureau dos Estados Unidos, o Alasca tem cerca de 570 mil milhas quadradas de terra firme, algo em torno de 365 milhões de acres, e os 7,2 milhões de dólares divididos por essa área dão pouco menos de dois centavos por acre.

Um acre tem aproximadamente 4.047 metros quadrados, mais ou menos o tamanho de um campo de futebol sem as áreas de escanteio. Dois centavos de 1867 compravam, na prática, um campo de futebol de terra, floresta ou montanha por vez.

A comparação de tamanho é o que costuma travar a conversa. Somando as áreas totais que o Census Bureau publica para Texas, Califórnia e Montana, chega-se a cerca de 579 mil milhas quadradas. O Alasca sozinho passa de 660 mil milhas quadradas de área total, ou seja, sobra território depois de encaixar os três estados dentro dele.

Cerca de 365 milhões de acres por 7,2 milhões de dólares em ouro: menos de dois centavos por acre, num território maior que Texas, Califórnia e Montana somados.

O preço também não era estranho para a época. Em 1803 os Estados Unidos pagaram 15 milhões de dólares à França pela Louisiana, um território ainda maior, o que dá algo próximo de três centavos por acre. Em 1853, na compra de Gadsden, pagaram 10 milhões ao México por uma faixa muito menor no sul do Arizona e do Novo México, e ali o acre saiu bem mais caro.

Terra vendida por atacado tinha esse padrão de preço porque o comprador assumia todo o custo seguinte. Ocupar, mapear, administrar, defender e ligar aquele território ao resto do país custava múltiplos do valor da escritura, e o Alasca ficava separado do território continental americano pela Colúmbia Britânica inteira.

O que o mapa não mostrava na época era o subsolo. O ouro apareceu nas décadas seguintes, em Juneau nos anos 1880, em Nome a partir de 1899 e em Fairbanks a partir de 1902, e cada corrida levou dezenas de milhares de pessoas para um lugar que o Congresso tinha classificado como inútil.

O petróleo veio muito depois e mudou a escala do argumento. O campo de Prudhoe Bay, descoberto na costa norte em 1968, entrou para a história como o maior campo de petróleo já encontrado na América do Norte, e o oleoduto transalasquiano, concluído em 1977, passou a levar aquele óleo por 1.287 quilômetros até o porto de Valdez.

A conta por acre, portanto, envelheceu de um jeito raro. Ela começou como argumento de quem ridicularizava a compra, virou argumento de quem a defendia, e hoje é usada nas duas direções: como exemplo de barganha histórica e como lembrete de que preço baixo costuma refletir informação faltando, não generosidade do vendedor.

 
 

II  A História Por Trás

Por que o czar preferiu vender a perder

Do lado russo, a venda não foi oportunismo, foi cálculo de perda. A colônia da América Russa vinha de décadas de prejuízo, e a Companhia Russo-Americana, que administrava o território sob monopólio imperial, dependia de um comércio de peles que já tinha esgotado a própria base.

A lontra-marinha era o produto principal e foi caçada até quase desaparecer. Sem ela, o que sobrava era uma operação cara, com poucos milhares de colonos russos espalhados por uma área continental, abastecida por navios que levavam meses para chegar de São Petersburgo.

A Guerra da Crimeia, entre 1853 e 1856, expôs o problema militar. A Rússia enfrentou Reino Unido e França e saiu do conflito com as finanças abaladas e com uma lição clara: uma colônia do outro lado do mundo, sem guarnição relevante, seria tomada pela Marinha britânica no primeiro dia da guerra seguinte, sem que nada pudesse ser feito.

E o vizinho da colônia era exatamente a Grã-Bretanha, dona da Colúmbia Britânica. Vender para os Estados Unidos resolvia dois problemas de uma vez: entrava dinheiro no caixa imperial e o território deixava de ser um prêmio britânico esperando para ser recolhido.

Para o czar Alexandre II, a escolha não estava entre vender e manter, e sim entre receber por um território ou perdê-lo de graça na próxima guerra.

A decisão foi tomada numa reunião no Palácio de Inverno, em dezembro de 1866, com o czar, o ministro das Relações Exteriores Alexander Gorchakov, o ministro das Finanças e representantes da Marinha. Stoeckl saiu de lá com instrução para negociar e com um piso de cinco milhões de dólares.

Ele conseguiu 7,2 milhões, e a diferença entre o piso e o preço final explica por que a Rússia considerou o negócio um sucesso enquanto a imprensa americana falava em desperdício. Cada lado estava medindo contra uma referência diferente.

A cerimônia de transferência aconteceu em Sitka, em 18 de outubro de 1867, com tropas dos dois países em formação, salvas de canhão e a troca de bandeiras no mastro do castelo do governador. A data ainda é feriado estadual no Alasca, o Alaska Day.

O nome Alasca entrou na conversa por decisão do Senado. O senador Charles Sumner, de Massachusetts, defendeu o tratado num discurso longo em 9 de abril de 1867 e propôs adotar Alaska, adaptação de uma palavra aleúte que descreve a grande massa de terra em frente às ilhas, no lugar de América Russa.

Vale corrigir uma parte da lenda. O historiador Richard E. Welch Jr. examinou a cobertura de imprensa da época num artigo publicado na American Historical Review em 1958 e concluiu que a maioria dos jornais americanos apoiou a aquisição; o retrato de um país inteiro rindo de Seward é uma simplificação que ganhou força depois, quando o petróleo tornou a piada irresistível de contar ao contrário.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três números para levar à mesa

A história rende três números fáceis de guardar e de conferir depois. Vale contar nesta ordem:

1. Comece pelo preço: 7,2 milhões de dólares em ouro, no tratado assinado em 30 de março de 1867 entre William Seward e Eduard de Stoeckl.

2. Divida na frente de quem escuta: cerca de 365 milhões de acres, menos de dois centavos por acre.

3. Feche pelo tamanho: o Alasca tem mais área que Texas, Califórnia e Montana juntos, pelas contas de área do Census Bureau.

O segundo item costuma ser o que mais rende pergunta, porque quase ninguém tem noção do que é um acre. Vale ter a conversão pronta: um acre é da ordem de 4 mil metros quadrados, e dois centavos por acre significa que um quilômetro quadrado inteiro de Alasca saiu por menos de cinco centavos de dólar.

A compra do Alasca aumentou o território dos Estados Unidos em cerca de um quinto por um valor que hoje não pagaria um apartamento em Manhattan.

"A compra do Alasca! Mas vai levar uma geração para o povo perceber." William H. Seward, citado por Frederick W. Seward em Seward at Washington, 1891.

Há um detalhe administrativo que quase nunca aparece e melhora a história. O Alasca passou 92 anos sem virar estado: foi distrito militar, depois distrito civil, depois território organizado em 1912, e só entrou na União como 49º estado em 3 de janeiro de 1959, quase um século depois da compra.

Rende também a parte do dinheiro que voltou. Em 1976 o Alasca criou o Alaska Permanent Fund, um fundo soberano alimentado por parte da receita do petróleo, que desde 1982 paga um cheque anual a cada residente do estado e acumula um patrimônio na casa das dezenas de bilhões de dólares, segundo os relatórios da Alaska Permanent Fund Corporation.

E dá para fechar pelo lado incômodo da transação. Ninguém consultou os povos que já viviam ali, aleútes, tlingites, iúpiks e atabascanos entre outros, e o tratado tratou a maior parte deles como população não civilizada, sujeita a regulamentos futuros. A conta de dois centavos por acre é impressionante justamente porque só mede o que os dois governos consideraram que estava em jogo.

"Quanto vale um território para quem não sabe o que existe embaixo dele?"

 
 

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