|
|
Napoleão não era baixo
A autópsia de 1821 anotou 5 pés e 2 polegadas na régua francesa antiga, em que a polegada valia 2,71 cm, o que dá 1,69 m.
|
A altura que virou piada por erro de régua
|
| ▼ |
| |
|
Pegue uma fita métrica e meça a porta da cozinha. O número que aparece vale igual em Lisboa, em Tóquio e no Alasca, porque o metro tem uma definição única e obrigatória. Essa uniformidade parece óbvia hoje, e ela é uma invenção recente, mais nova que muita catedral europeia.
Antes dela, cada reino media do seu jeito, e vários mediam de jeitos diferentes dentro de si mesmos. A França anterior à Revolução convivia com algo perto de 250 mil unidades locais de peso e medida, com o mesmo nome valendo tamanhos diferentes conforme a cidade, a corporação de ofício e até o produto que estava sendo pesado.
A polegada é o exemplo perfeito da bagunça. A palavra existe em francês e em inglês, aponta para a mesma parte do dedo e descreve duas coisas diferentes. A polegada inglesa vale 2,54 centímetros. A polegada francesa antiga, o pouce do pied de roi, valia 2,71 centímetros, quase 7% maior que a vizinha do outro lado do canal.
Sete por cento parece detalhe de contador. Aplicado a uma pessoa inteira, vira uma distância que muda a impressão que se tem dela: mais de cinco centímetros de diferença no resultado final, o suficiente para tirar alguém da faixa dos baixinhos e devolver para a média da rua.
Some a isso um detalhe de época. Em 1821, a França já tinha adotado o sistema métrico oficialmente havia mais de vinte anos, mas o médico que escreveu o laudo aprendeu a medir na régua velha e anotou na régua velha, como quase todo mundo da geração dele fazia no dia a dia.
O resultado é a caricatura mais duradoura da história moderna. Um homem que comandou meio continente e reescreveu o código civil de vários países é lembrado, dois séculos depois, pela altura que ele não tinha, e a piada sobrevive em manual de psicologia popular, em nome de complexo e em conversa de bar.
Vale começar pelo documento que originou tudo, pelo número exato que ele traz e pela conta de conversão que quase ninguém se deu ao trabalho de refazer.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Curiosidade do Dia
Duas polegadas de diferença entre dois países
|
|
O corpo de Napoleão Bonaparte foi examinado em Santa Helena no dia 6 de maio de 1821, um dia depois da parada do coração dele, numa sala improvisada da casa de Longwood. O exame foi conduzido pelo médico corso Francesco Antommarchi, com sete oficiais britânicos presentes como testemunhas do procedimento.
O laudo registra a estatura em unidades francesas: cinco pés, duas polegadas e três linhas. As três palavras carregam três réguas diferentes, e nenhuma delas é a que o leitor de hoje tem na gaveta.
A conversão exige os três valores da tabela antiga:
1. Pied de roi: 32,48 centímetros, contra 30,48 do pé inglês.
2. Pouce: 32,48 dividido por doze, ou seja, 2,71 centímetros.
3. Ligne: 2,71 dividido por doze, cerca de 0,23 centímetro.
4. Soma final: 162,4 mais 5,4 mais 0,7, o que dá aproximadamente 168,5 centímetros.
|
A mesma anotação lida na régua inglesa devolveria 157 centímetros, e é exatamente essa leitura errada que atravessou dois séculos de livro escolar.
|
A diferença entre as duas leituras é de quase doze centímetros. Uma coloca o homem na média confortável da população francesa da época, a outra coloca num extremo raro que chamaria atenção em qualquer sala. O documento é o mesmo, a caneta é a mesma, e só a tabela de conversão muda.
O contexto populacional fecha o argumento. Os registros de recrutamento militar francês do fim do século dezoito e do começo do dezenove apontam estatura média masculina entre 164 e 168 centímetros, com boa parte dos conscritos abaixo dessa faixa por causa de subnutrição infantil crônica no campo.
Alguém com 168,5 centímetros naquele grupo não era motivo de comentário. Estava na parte de cima da média, uma altura absolutamente banal para um oficial de artilharia nascido em 1769, e chamaria menos atenção numa fila que a maioria dos generais estrangeiros retratados ao lado dele.
Existe ainda uma fonte independente que bate com a conta. O valete Louis Marchand, que serviu ao imperador no exílio e cuidou das roupas dele até o fim, registrou medidas de vestuário compatíveis com um homem dessa estatura, e as fardas preservadas em museus francesas confirmam o mesmo intervalo quando alguém as mede com fita moderna.
Duas testemunhas materiais, o laudo e a roupa, apontam para o mesmo número. A fama diz outra coisa, e a fama venceu por motivos que não têm nada a ver com medida.
|
|
|
|
|
II A História Por Trás
O caricaturista inglês que inventou o anão
|
|
A imagem do imperador minúsculo tem endereço e data de nascimento. Ela veio das gravuras satíricas produzidas em Londres entre 1803 e 1815, quando a Grã-Bretanha estava em guerra aberta e precisava de um inimigo ridículo para vender nas vitrines das lojas de estampa.
O artista mais eficiente dessa fábrica foi James Gillray. A partir de 1803, ele passou a desenhar o adversário como uma figura raivosa e diminuta, de bicorne grande demais para a cabeça, botas grandes demais para as pernas e temperamento explosivo desproporcional ao tamanho.
O apelido colou rápido e virou marca registrada. Gillray batizou o personagem de Little Boney, e o nome apareceu em dezenas de gravuras que circularam por toda a Europa, copiadas por artistas locais em vários idiomas ao longo de mais de uma década de conflito.
Propaganda de guerra funciona melhor quando encolhe o inimigo. Um adversário gigante assusta e paralisa, um adversário pequeno e histérico convida ao riso, e rir de alguém é a forma mais barata de deixar de ter medo dele em praça pública.
"Toda a arte da guerra consiste numa defensiva bem raciocinada e extremamente circunspecta, seguida de um ataque rápido e audacioso." Napoleão Bonaparte, Máximas de Guerra, 1827.
Um segundo fator ajudou a piada a pegar, e ele é puramente visual. A guarda pessoal do imperador, os granadeiros da Guarda Imperial, era selecionada por altura, e o mínimo exigido girava em torno de um metro e setenta e oito, muito acima da média civil da época.
O homem aparecia cercado por esses soldados em quase toda cerimônia e em quase todo quadro oficial. Ao lado de uma parede de granadeiros escolhidos a dedo por serem altos, e com barretinas de pelo de urso que somavam mais trinta centímetros à silhueta, qualquer pessoa de estatura normal parece pequena.
Há ainda a armadilha do apelido carinhoso. As tropas o chamavam de le petit caporal, e a expressão nasceu como demonstração de afeto do soldado raso pelo comandante que dividia o acampamento com eles, não como comentário sobre centímetros.
Traduzido ao pé da letra e fora do contexto militar, o apelido virou prova de acusação. O inglês leu petit como descrição física, a gravura reforçou a leitura, e o conjunto se cristalizou num fato que ninguém mais precisou conferir porque todo mundo já sabia.
|
Uma medida mal convertida, uma guarda pessoal selecionada por altura e um apelido afetuoso mal traduzido bastaram para construir a mentira histórica mais teimosa do ocidente.
|
Nada disso exigiu má fé de historiador. Bastou que três coisas verdadeiras apontassem, cada uma pelo seu motivo, na mesma direção errada.
|
|
|