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Monopoly de fuga: o ponto vermelho no Estacionamento Livre

Na Segunda Guerra, a inteligência britânica mandou a prisioneiros tabuleiros com mapa de seda, lima e bússola escondidos.

Tabuleiro de Monopoly britânico dos anos 1940 com um mapa de seda dobrado ao lado.

Tabuleiro de fuga do MI9, na Segunda Guerra

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3 objetos de fuga dentro de uma caixa de jogo, em 1941. Era a carga que a inteligência britânica passou a esconder nos tabuleiros de Monopoly mandados a soldados presos na Alemanha nazista.

Na Segunda Guerra, dezenas de milhares de militares britânicos e aliados acabaram em campos de prisioneiros. Pilotos derrubados sobre a Europa, soldados capturados na França em 1940, marinheiros recolhidos do mar.

Pelas Convenções de Genebra de 1929, esses homens tinham direito a receber pacotes de casa. Chegavam roupas, cigarros, livros, comida em lata e jogos para passar o tempo, que no cativeiro sobrava.

Os alemães sabiam do risco. Os guardas abriam os pacotes, apalpavam as roupas, folheavam os livros e confiscavam o que parecia suspeito. Um mapa dobrado no meio de uma camisa não passava da primeira revista.

Um tabuleiro de papelão, com a caixa colorida, os dados e as notas de brinquedo, parecia inofensivo. Ninguém imaginava que alguém fosse descolar o papel da casa de partida para ver o que havia por baixo.

Por baixo havia um mapa impresso em seda, com estradas, rios e fronteiras da região onde ficava o campo. Dentro do papelão, uma lima de metal fina e uma bússola do tamanho de um botão.

No meio das notas de brinquedo, algumas caixas levavam dinheiro real: marcos alemães e liras italianas, para pagar um trem ou subornar um guarda depois de pular a cerca.

Os prisioneiros não abriam qualquer jogo. Antes de partir em missão, pilotos e oficiais aprendiam um sinal combinado: o tabuleiro preparado trazia um pequeno ponto vermelho pintado na casa do Estacionamento Livre.

O ponto parecia um defeito de impressão, desses que ninguém repara. Para quem sabia do código, avisava qual caixa precisava ser aberta com cuidado, longe dos guardas.

A pergunta fica: quem montou esse esquema, e como fez os jogos chegarem aos campos sem levantar suspeita?

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I  A Curiosidade do Dia

O tabuleiro com fundo falso

O esquema nasceu no MI9, a seção da inteligência militar britânica criada em dezembro de 1939 para ajudar soldados presos a fugir e pilotos derrubados a voltar para casa. O chefe era o brigadeiro Norman Crockatt.

A ideia do MI9 era simples de dizer e difícil de fazer. Cada prisioneiro que fugia obrigava os alemães a gastar guardas, cães e patrulhas na busca, e cada piloto que voltava trazia de volta anos de treino caro.

Para fugir, um homem precisava de três ajudas: saber onde estava, saber para onde ir e ter como cortar o que o prendia. O mapa, a bússola e a lima respondiam às três.

O problema era o mapa. Papel comum fazia barulho ao ser desdobrado, rasgava na chuva e virava pasta num rio. Um prisioneiro com um mapa de papel no bolso tinha poucas horas de uso antes de perdê-lo.

Por que seda

A seda resolvia os três defeitos. Dobrada, cabia no espaço de uma moeda. Molhada, não desmanchava. E quase não fazia som, o que importava num barracão com guardas passando a noite inteira.

Imprimir em seda, porém, era difícil. A tinta escorria pelo tecido e borrava as linhas finas das estradas. Poucas gráficas na Inglaterra sabiam fazer o serviço sem estragar o desenho.

Uma delas era a John Waddington Ltd., de Leeds, no norte da Inglaterra. A empresa fabricava cartas de baralho e jogos de tabuleiro, tinha a licença do Monopoly no Reino Unido e já tinha experiência em impressão sobre seda.

O mesmo fabricante que vendia Monopoly aos ingleses sabia imprimir mapas em seda, e o MI9 juntou as duas habilidades numa caixa só.

O jogo também ajudava no disfarce. Monopoly era popular na Inglaterra desde meados da década de 1930, e um tabuleiro dele num pacote de prisioneiro parecia o presente mais comum do mundo.

Na fábrica, um grupo pequeno de funcionários trabalhava numa sala trancada. Eles abriam um vão no papelão do tabuleiro, encaixavam o mapa, a lima e a bússola, e colavam de novo a folha impressa por cima.

Um mapa para cada campo

Os mapas não eram iguais. O MI9 sabia em que campo cada grupo de prisioneiros estava e mandava o mapa da região certa: o norte da Itália, a fronteira com a Suíça, o caminho até a Suécia ou a costa da Holanda.

Segundo os relatos da própria Waddington, a variação ficava marcada no tabuleiro por pequenas diferenças na arte, para que os funcionários do MI9 soubessem qual caixa ia para qual campo.

 
 

II  A História Por Trás

O homem dos botões e a caridade de fachada

A cabeça técnica por trás dos objetos escondidos foi Christopher Clayton Hutton, um inventor contratado pelo MI9 em 1940. Antes da guerra, ele trabalhava com publicidade e tinha fama de não aceitar um não como resposta.

Hutton desenhou bússolas escondidas em botões de farda, que só giravam se a rosca fosse para o lado contrário do normal. Assim, um guarda que tentasse abrir o botão apertava a rosca em vez de soltá-la.

Também criou lápis com mapa enrolado dentro, lâminas de barbear magnetizadas que apontavam o norte quando penduradas num fio, e botas de piloto cujo cano se cortava para virar um sapato civil.

Hutton contou parte desse trabalho no livro “Official Secret” (Segredo Oficial), publicado em 1960. Os detalhes do Monopoly, porém, ficaram de fora do livro e seguiram em sigilo por décadas.

Sem a Cruz Vermelha

Os jogos não podiam viajar nos pacotes da Cruz Vermelha. Se os alemães achassem um mapa num pacote da entidade, podiam cortar a ajuda humanitária a todos os prisioneiros, e a comida que mantinha milhares de homens vivos deixaria de chegar.

Para não arriscar o que alimentava os campos, o MI9 inventou instituições de caridade falsas, com nome, endereço e papel timbrado. Uma delas se chamava Prisoners’ Leisure Hours Fund (Fundo para as Horas de Lazer dos Prisioneiros).

As caixas preparadas viajavam como doação de caridade inventada, e nunca no pacote da Cruz Vermelha, para não pôr em risco a comida de todos os campos.

Os pacotes dessas entidades de fachada carregavam jogos, baralhos e livros. Só uma parte vinha adulterada. O resto era inocente de fato, para que uma revista mais dura não achasse um padrão.

Os prisioneiros também tinham como avisar o que precisavam. Antes da captura, alguns oficiais aprendiam um código simples para esconder pedidos em cartas comuns enviadas para casa, e o MI9 lia as mensagens na Inglaterra.

Colditz e as fugas

O campo mais famoso a receber esse material foi Colditz, um castelo na Saxônia usado pelos alemães como prisão de oficiais que já tinham tentado fugir de outros campos. Os alemães o tinham como à prova de fuga.

Dezenas de oficiais escaparam de Colditz durante a guerra, e alguns chegaram à Suíça ou à Inglaterra. Os relatos da Waddington e do MI9 não dizem quantas dessas fugas usaram um tabuleiro de Monopoly, e esse número ficou sem registro.

 

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III  O Resto da História

O silêncio que durou décadas

Quando a guerra terminou, em 1945, o MI9 tratou o esquema como segredo de Estado. Os funcionários da Waddington tinham assinado o termo de sigilo oficial do governo britânico e não podiam contar a ninguém o que fizeram.

Segundo a própria empresa, os tabuleiros adulterados que sobraram foram destruídos depois da guerra. Não se conhece nenhuma caixa preparada que tenha sobrevivido inteira até hoje, e ninguém sabe dizer quantas foram feitas.

O sigilo também explica por que a história demorou a ganhar o público. O governo podia voltar a usar os mesmos truques num conflito futuro, e um segredo revelado deixava de servir.

A história vem a público

O caso só ficou conhecido depois que o sigilo perdeu o motivo de existir. Ex-funcionários da Waddington passaram a falar dele em entrevistas, e o tema virou reportagem na imprensa britânica.

Em 2009, a Hasbro, dona atual do Monopoly, fez uma edição britânica que lembrava o caso, com cartas e prêmios escondidos em algumas caixas. A empresa tratou o episódio como parte da história do próprio jogo.

O ponto vermelho, que parecia defeito de impressão, era a única pista visível de uma operação que o governo britânico manteve escondida por décadas.

O que se sabe e o que não se sabe

Sabe-se quem criou o esquema (o MI9), quem fabricou as caixas (a Waddington, de Leeds) e o que ia dentro delas: mapa de seda, lima, bússola e, em algumas, dinheiro alemão ou italiano.

Não se sabe o número de tabuleiros enviados, nem o de fugas que eles ajudaram. Os documentos do MI9 sobre o assunto são escassos, as caixas foram destruídas e quem trabalhou na sala trancada da fábrica não deixou contagem por escrito.

Se for contar a alguém, três passos:

1. Comece pelo ponto: um pingo vermelho no Estacionamento Livre avisava que aquela caixa escondia uma fuga.

2. Mostre o que havia por baixo: mapa de seda, lima, bússola e, às vezes, dinheiro alemão autêntico.

3. Termine no disfarce: as caixas viajavam por caridades inventadas, nunca pela Cruz Vermelha, para proteger a comida dos campos.

Num jogo sobre comprar ruas e ir para a cadeia, a casa onde nada acontece guardava o código para sair da prisão.

 
 
Quiz da edição

No tabuleiro de Monopoly adulterado pelo MI9, um pequeno ponto vermelho pintado em qual casa avisava aos prisioneiros qual caixa precisava ser aberta com cuidado?

ANa casa da Prisão
BNo Estacionamento Livre
CNo Ponto de Partida
DNo Cofre Comunitário

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