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Em La Gomera, a escola ensina a assobiar espanhol

Nas Canárias, pastores conversavam de um vale ao outro só com assobios, e a ilha pôs a técnica no currículo pra ela não sumir.

Pastor de La Gomera assobia com os dedos na boca diante de um barranco.

Um silbador sobre um barranco de La Gomera

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1999. Foi o ano em que o Governo das Canárias tornou obrigatória, nas escolas de La Gomera, uma aula que nenhum outro lugar da Espanha oferece: assobiar o espanhol.

La Gomera é uma ilha vulcânica pequena e quase redonda no arquipélago das Canárias, no Atlântico, diante da costa do Marrocos. O centro sobe em montanha e desce para o mar em ravinas fundas, que os moradores chamam de barrancos (vales estreitos e íngremes).

Quem mora numa encosta enxerga a casa do vizinho na encosta oposta. Para chegar até ela a pé, porém, gasta horas descendo uma ladeira de pedra e subindo a seguinte.

Os pastores da ilha resolveram a distância sem sair do lugar. Com um ou dois dedos na boca, transformavam frases inteiras do espanhol em assobio. O som atravessava o vale, batia na encosta oposta e chegava claro a quem estava a quilômetros.

A mensagem não era um código combinado, como o apito de um juiz de futebol. Era a própria língua: avisar que a cabra fugiu pro lado da fonte, chamar alguém para o almoço, perguntar se o barco já tinha chegado ao porto.

A técnica ganhou um apelido local, silbo gomero (o assobio de La Gomera), e quem a domina é chamado de silbador (assobiador).

Durante séculos, ninguém precisou de professor. A criança ouvia o pai e o avô assobiando no campo e copiava, do mesmo jeito que copiava o sotaque da família.

Na segunda metade do século 20, as estradas e o telefone chegaram à ilha, e muitas famílias jovens emigraram para a Venezuela e para Tenerife em busca de trabalho. Os assobios foram rareando nos barrancos.

Os velhos silbadores perceberam o problema dentro de casa: os netos já não entendiam o que os avós diziam de uma encosta à outra. A língua continuava viva na boca, mas o assobio estava sumindo.

A escola entrou nessa história como último recurso. A primeira parte abaixo mostra como uma língua inteira cabe num assobio sem uma única palavra pronunciada.

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I  A Curiosidade do Dia

Uma língua inteira num assobio

A resposta de ontem

Qual país pulou a sexta-feira 30 de dezembro de 2011?

Samoa. Para alinhar o calendário com a Austrália e a Nova Zelândia, seus maiores parceiros comerciais, o país passou para o lado oeste da Linha Internacional de Data: os samoanos dormiram na quinta-feira 29 de dezembro de 2011 e acordaram no sábado 31. O território vizinho de Tokelau fez a mesma troca na mesma noite.

O silbo gomero não é um idioma à parte. É o espanhol da ilha transposto para o assobio, frase por frase. Um silbador que não fala inglês não consegue assobiar uma frase em inglês.

A voz humana carrega duas camadas de informação. Uma é o timbre, que separa o som do “a” do som do “i”, e o “p” do “t”. A outra é a melodia: a altura que sobe e desce e o ritmo das sílabas.

O assobio perde o timbre. Ele só produz uma nota pura, mais aguda ou mais grave, que pode ser contínua, cortada ou deslizante. O silbo guarda a melodia da fala e troca o resto por mudanças de altura.

As vogais viram faixas de altura. O “i” sai como a nota mais aguda, o “e” um pouco abaixo, e o “a”, o “o” e o “u” descem para as notas graves.

As consoantes viram o jeito como a nota muda. Uma interrupção seca soa como um “p” ou um “t”. Uma subida rápida lembra um “k” ou um “g”. Uma passagem contínua faz as vezes de um “l”, de um “n” ou de um “r”.

O assobio apaga a diferença entre muitas palavras, e quem escuta recupera o sentido pelo assunto da conversa.

Funciona como ouvir alguém falando ao telefone numa ligação ruim. Metade dos sons se perde, mas o contexto preenche o buraco: se o assunto é o rebanho, o assobio parecido com “cabra” só pode ser cabra.

O linguista Ramón Trujillo, da Universidade de La Laguna, descreveu o sistema em 1978, no livro El silbo gomero: análisis lingüístico (O silbo gomero: análise linguística). Na análise dele, o assobio distinguia duas vogais e quatro consoantes.

O pesquisador francês Julien Meyer, que estuda línguas assobiadas em vários continentes, defendeu em trabalhos dos anos 2000 que os silbadores percebem mais vogais do que Trujillo contava. A quantidade exata segue em discussão entre os linguistas, porque cada silbador assobia com pequenas diferenças e os testes dão resultados distintos.

O alcance vem da física do som. A voz falada se espalha por muitas frequências ao mesmo tempo e perde força no ar livre. O assobio concentra a energia numa frequência só, alta, que o vento e o eco do vale não engolem.

O corpo também trabalha. O silbador dobra um ou dois dedos e os apoia na língua, e a outra mão, em concha ao lado da boca, aponta o som para a encosta onde está quem deve ouvir.

Em 2005, a revista Nature publicou um estudo do psicolinguista Manuel Carreiras, da Universidade de La Laguna, feito com silbadores dentro de um aparelho de ressonância magnética. Ao ouvir silbo, eles ativavam as áreas do cérebro que usam para entender a fala. Espanhóis que nunca tinham aprendido o assobio ativavam só as áreas que processam som comum.

Para o cérebro de quem domina a técnica, o silbo é linguagem, e não música.

 
 

II  A História Por Trás

Dos primeiros ilhéus à sala de aula

Ninguém sabe ao certo quem inventou o silbo gomero, porque os primeiros habitantes das Canárias não deixaram registro escrito sobre ele. A hipótese mais aceita aponta para esses povos nativos, de origem berbere (os povos nativos do norte da África), que chegaram às ilhas muitos séculos antes dos europeus.

Os espanhóis chamaram os nativos de Tenerife de guanches, e a palavra acabou estendida aos habitantes de todo o arquipélago. Em La Gomera, eles assobiavam a própria língua, aparentada às línguas berberes, para se comunicar entre os vales.

Castela conquistou La Gomera no século 15. A língua nativa desapareceu nas gerações seguintes, substituída pelo espanhol dos colonos. A técnica do assobio sobreviveu à troca e começou a carregar o idioma novo.

Durante quase cinco séculos, o silbo foi ferramenta de trabalho. Pastores combinavam o caminho do rebanho, agricultores avisavam da chuva, famílias mandavam chamar o médico ou anunciavam um nascimento e uma festa de casamento.

O assobio também servia de alarme. Um silbador no alto da montanha via o barco se aproximar do porto e repassava a notícia, de encosta em encosta, até a ilha inteira saber em poucos minutos.

Por séculos, o silbo foi o telefone de La Gomera: uma rede de pessoas que repassavam a mensagem de um vale ao outro.

O declínio começou nos anos 1950. A estrada de asfalto encurtou o caminho entre as aldeias, o telefone chegou às casas e a crise no campo empurrou os jovens para fora da ilha. Na nova geração, assobiar passou a soar como hábito de camponês.

Nos anos 1990, os silbadores mais velhos já se contavam entre os últimos que dominavam a técnica por inteiro. Professores e moradores pressionaram o governo regional para levar o assobio para dentro da escola antes que esses mestres se fossem.

Em 1999, o Governo das Canárias aprovou o ensino obrigatório do silbo gomero nas escolas primárias e secundárias de La Gomera. Silbadores veteranos, entre eles Isidro Ortiz, ajudaram a montar as primeiras aulas e o material didático.

Na sala de aula, as crianças começam pelas vogais, depois aprendem as palavras mais comuns e, por último, as frases. O ensino não depende mais de ter um pastor na família.

Dez anos depois, a Unesco reconheceu o resultado. Em 30 de setembro de 2009, o Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, reunido em Abu Dhabi, inscreveu o silbo gomero na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

O texto da Unesco destacou justamente a escola: o silbo saiu da lista das práticas em risco de sumir e virou exemplo de como uma comunidade transmite uma técnica oral para as crianças.

O que ninguém consegue dizer hoje é quantas pessoas assobiam o espanhol com fluência na ilha. Não existe censo oficial de silbadores, e frequentar as aulas da escola não é o mesmo que conversar de um vale ao outro como os pastores conversavam.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Outros vales que assobiam

La Gomera não está sozinha. Línguas assobiadas aparecem em vários lugares do mundo, quase sempre onde há montanha íngreme, floresta fechada e casas espalhadas longe umas das outras.

No norte da Turquia, a aldeia de Kuşköy, na região do Mar Negro, assobia o turco. Os moradores chamam a técnica de kuş dili (língua dos pássaros). Em 2017, a Unesco inscreveu o assobio turco na lista do patrimônio imaterial que precisa de salvaguarda urgente.

Nos Pireneus franceses, a aldeia de Aas assobiava o gascão (a língua regional do sudoeste da França) entre os pastores das montanhas, até a prática desaparecer no século 20.

No México, os mazatecos de Oaxaca assobiam a própria língua, que já é tonal: a altura da voz muda o significado da palavra. Nesse caso, o assobio copia uma informação que a fala já carrega, e a tradução fica mais fácil do que no espanhol.

Toda língua assobiada imita a fala de um idioma que já existe; nenhuma delas nasceu como língua própria.

O silbo gomero é o caso mais estudado do grupo porque juntou três fatores: uma comunidade inteira usando a técnica, linguistas da universidade vizinha e uma escola que mantém o aprendizado vivo.

Para levar a história ao jantar, três passos:

1. Pergunte se alguém consegue conversar só assobiando: quase todo mundo pensa em sinais combinados, como o apito do juiz.

2. Conte o caso de La Gomera: pastores assobiavam o espanhol inteiro de um vale ao outro, e desde 1999 as crianças aprendem a técnica na escola.

3. Explique pela altura do som: o assobio troca as vogais por notas agudas e graves, e o contexto da conversa preenche o resto.

“Você sabia que numa ilha da Espanha as crianças têm aula obrigatória de assobio?”

As aulas seguem até hoje em todas as escolas de La Gomera, e o silbo, que quase sumiu dos barrancos, voltou a ser ouvido no recreio.

 
 
Quiz da edição

Em que ano o Governo das Canárias tornou obrigatório o ensino do silbo gomero nas escolas de La Gomera?

A2009
B1978
C1999
D2005

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