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Ninguém sabe ao certo quem inventou o silbo gomero, porque os primeiros habitantes das Canárias não deixaram registro escrito sobre ele. A hipótese mais aceita aponta para esses povos nativos, de origem berbere (os povos nativos do norte da África), que chegaram às ilhas muitos séculos antes dos europeus.
Os espanhóis chamaram os nativos de Tenerife de guanches, e a palavra acabou estendida aos habitantes de todo o arquipélago. Em La Gomera, eles assobiavam a própria língua, aparentada às línguas berberes, para se comunicar entre os vales.
Castela conquistou La Gomera no século 15. A língua nativa desapareceu nas gerações seguintes, substituída pelo espanhol dos colonos. A técnica do assobio sobreviveu à troca e começou a carregar o idioma novo.
Durante quase cinco séculos, o silbo foi ferramenta de trabalho. Pastores combinavam o caminho do rebanho, agricultores avisavam da chuva, famílias mandavam chamar o médico ou anunciavam um nascimento e uma festa de casamento.
O assobio também servia de alarme. Um silbador no alto da montanha via o barco se aproximar do porto e repassava a notícia, de encosta em encosta, até a ilha inteira saber em poucos minutos.
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Por séculos, o silbo foi o telefone de La Gomera: uma rede de pessoas que repassavam a mensagem de um vale ao outro.
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O declínio começou nos anos 1950. A estrada de asfalto encurtou o caminho entre as aldeias, o telefone chegou às casas e a crise no campo empurrou os jovens para fora da ilha. Na nova geração, assobiar passou a soar como hábito de camponês.
Nos anos 1990, os silbadores mais velhos já se contavam entre os últimos que dominavam a técnica por inteiro. Professores e moradores pressionaram o governo regional para levar o assobio para dentro da escola antes que esses mestres se fossem.
Em 1999, o Governo das Canárias aprovou o ensino obrigatório do silbo gomero nas escolas primárias e secundárias de La Gomera. Silbadores veteranos, entre eles Isidro Ortiz, ajudaram a montar as primeiras aulas e o material didático.
Na sala de aula, as crianças começam pelas vogais, depois aprendem as palavras mais comuns e, por último, as frases. O ensino não depende mais de ter um pastor na família.
Dez anos depois, a Unesco reconheceu o resultado. Em 30 de setembro de 2009, o Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, reunido em Abu Dhabi, inscreveu o silbo gomero na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
O texto da Unesco destacou justamente a escola: o silbo saiu da lista das práticas em risco de sumir e virou exemplo de como uma comunidade transmite uma técnica oral para as crianças.
O que ninguém consegue dizer hoje é quantas pessoas assobiam o espanhol com fluência na ilha. Não existe censo oficial de silbadores, e frequentar as aulas da escola não é o mesmo que conversar de um vale ao outro como os pastores conversavam.
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