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Em Hope Vale, a xícara fica ao norte da colher

O guugu yimithirr, língua do norte da Austrália, não tem esquerda nem direita: quem fala precisa saber onde fica o norte.

Mesa de café com xícara e colher ao lado de uma bússola, no norte da Austrália.

Hope Vale, no Cabo York, Austrália

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4 palavras de direção, e nenhuma delas quer dizer esquerda. Foi o que o linguista John Haviland anotou em 1971, quando começou a estudar a língua de Hope Vale, no norte da Austrália.

Hope Vale, que muita gente escreve Hopevale, é uma comunidade aborígine da península do Cabo York, no estado de Queensland, perto da cidade de Cooktown. A vila fica no meio do mato, longe do mar, cercada de morros baixos.

Ali se fala o guugu yimithirr (algo como “deste jeito de falar”). A língua tem palavra para mão esquerda e para mão direita, mas ninguém usa essas palavras para dizer onde fica cada objeto.

Na mesa do café, a frase sai assim: a xícara está ao norte da colher. Se alguém gira a mesa, a frase muda junto, porque a xícara agora pode estar a leste da colher, mesmo sem sair do lugar em relação ao prato.

Quem precisa de espaço no banco pede ao vizinho para chegar um pouco para o oeste. Quem dá uma indicação na rua não fala em virar à direita: fala em seguir para o sul e depois para o leste.

A regra cobra um preço. Antes de abrir a boca, o falante precisa saber onde fica o norte, dentro de casa, no carro, de noite, de olhos cansados, numa cidade onde nunca pisou.

Para um brasileiro, seria como ter de consultar uma bússola a cada frase. Para quem cresce em Hope Vale, a bússola fica na cabeça, ligada desde a infância.

Os pesquisadores desconfiaram e foram medir. Levaram falantes para dentro do mato, para quartos sem janela e para viagens de carro cheias de curvas, e pediram que apontassem lugares que não estavam à vista.

Os braços apontavam certo. A língua exige uma atenção constante à paisagem, à posição do sol e ao vento, e quem fala assim desde pequeno faz essa conta sem perceber.

A primeira parte abaixo mostra como funcionam as quatro palavras e o que muda numa frase comum. Depois vêm os testes dos cientistas, o povo de Hope Vale e a história para levar ao jantar.

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I  A Curiosidade do Dia

Quatro ventos no lugar da mão

As quatro palavras do guugu yimithirr são gungga (norte), jiba (sul), naga (leste) e guwa (oeste). John Haviland, linguista americano, montou a gramática da língua a partir de 1971, em longas conversas com os moradores mais velhos de Hope Vale.

Cada palavra ganha terminações. Uma indica para onde o objeto vai, outra indica de onde ela vem, outra marca onde ela está parada. Com essas peças, o falante descreve qualquer posição sem mencionar o próprio corpo.

O sistema não gira com a pessoa. Em português, a esquerda de quem olha para o mar vira direita quando a pessoa se vira para a areia. Em guugu yimithirr, o norte fica onde sempre esteve, para qualquer lado que o falante olhe.

Os linguistas chamam esse arranjo de referência absoluta (a direção presa à paisagem, não ao corpo). O português usa a referência relativa, montada a partir do ponto de vista de quem fala.

O português também tem norte e sul, mas guarda essas palavras para mapa, estrada e previsão do tempo. Ninguém pede para passar o sal ao sul do prato, nem manda o filho pegar o sapato a oeste da cama.

Em guugu yimithirr, a posição de um objeto não depende de quem olha. Depende de onde fica o norte.

A regra vale para o mundo pequeno. Haviland registrou pedidos para empurrar o carro um pouco para o leste e avisos de que havia uma formiga na perna do norte de alguém. Para o falante, a gaveta tem norte, e a página do livro tem leste.

A gramática obriga, e o corpo acompanha. Haviland filmou moradores contando histórias antigas, como a de um barco que virou no mar, e reparou nos gestos. Os braços apontavam a direção real do lugar do acidente, calculada a partir do ponto onde o narrador estava sentado.

Ele publicou a análise desses gestos em 1993, no Journal of Linguistic Anthropology, revista da Associação Americana de Antropologia. Em gravações feitas com anos de diferença, o mesmo narrador virava de posição, e os gestos giravam junto para continuar mirando o lugar certo.

O estrangeiro sente o peso no primeiro dia. Para entender uma instrução simples, precisa saber onde nasce o sol e guardar essa informação dentro de casa, com a porta fechada e a janela coberta.

As crianças aprendem cedo. Ouvem desde pequenas frases como “pega a lata ao norte do fogão”, e vão montando o mapa da vila e do céu antes de aprender a ler.

O falante não escolhe usar o sistema: a frase simplesmente não tem outra forma de ser dita. Essa exigência diária deixou uma marca na cabeça de quem fala, e os cientistas foram atrás dela.

 
 

II  A História Por Trás

A bússola de Hope Vale

Stephen Levinson, antropólogo e linguista britânico, chegou a Hope Vale nos anos 1980 com uma pergunta: uma língua sem esquerda muda a forma de lembrar o espaço? Mais tarde, ele passou a dirigir um grupo do Instituto Max Planck de Psicolinguística, em Nijmegen, na Holanda.

Um dos testes cabia numa mesa. Levinson enfileirava três bichinhos de brinquedo, todos olhando para o mesmo lado. O participante observava, era levado para outra mesa do lado oposto da sala, virado ao contrário, e precisava montar a fila igual.

Holandeses montavam a fila mantendo a esquerda e a direita do próprio corpo. Falantes de guugu yimithirr mantinham a direção da paisagem: se os bichos olhavam para o norte na primeira mesa, continuavam olhando para o norte na segunda.

Outro teste levou os falantes, de carro e a pé, para lugares distantes da vila, alguns a dezenas de quilômetros. Lá, Levinson pedia que apontassem outros pontos da região, escondidos atrás de morros e de mata fechada.

Num artigo publicado no Journal of Linguistic Anthropology, em 1997, Levinson relatou um erro médio abaixo de 14 graus nesses apontamentos. É uma mira comparável à de quem segura uma bússola na mão.

O teste mediu a cabeça, não a fala: os falantes apontavam certo sem dizer uma palavra.

O povo por trás da língua atravessou missão, guerra e exílio antes de chegar a Hope Vale. Em 1886, o missionário luterano alemão Johann Flierl abriu a missão de Cape Bedford, na costa perto de Cooktown, e reuniu nela famílias guugu yimithirr.

Em 1942, durante a Segunda Guerra, o governo de Queensland retirou os moradores da missão e os mandou para Woorabinda, no centro do estado, a centenas de quilômetros. O pastor alemão Georg Schwarz, que dirigia o lugar, foi detido como suspeito de simpatia pelo inimigo.

Doenças levaram parte do grupo no exílio. Os sobreviventes voltaram ao norte em 1949 e fundaram Hope Vale, mais para o interior. A língua resistiu à missão, à escola em inglês e à remoção, e seguiu viva dentro das casas.

Haviland e Levinson trabalharam com essa geração, a que viveu a volta. Os mais velhos que eles gravaram aprenderam o guugu yimithirr com pais nascidos antes da missão.

A conclusão tem contestação. Peggy Li e Lila Gleitman, da Universidade da Pensilvânia, publicaram em 2002, na revista Cognition, testes com estudantes americanos que trocavam de estratégia conforme o ambiente, mais absoluta ao ar livre e mais relativa num quarto fechado.

Para elas, a língua treina uma capacidade que todo ser humano tem, sem criá-la do zero. Levinson respondeu com novos testes, e a discussão segue aberta entre os pesquisadores.

O que ninguém contesta é o hábito. Em Hope Vale, saber onde fica o norte é condição para conversar.

 

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III  Pra Contar na Mesa

O norte na mesa do jantar

A xícara ao norte da colher rende em qualquer mesa, e a história guarda um capítulo mais antigo que a missão. Ele começa no mar, com um navio inglês avariado.

Em 1770, o Endeavour, do capitão James Cook, bateu num recife da Grande Barreira de Coral e encalhou para conserto na foz de um rio, onde hoje fica Cooktown. A tripulação passou cerca de sete semanas em terra guugu yimithirr.

Foi o primeiro contato longo entre europeus e aborígines registrado em diário. Joseph Banks, o naturalista de bordo, e o próprio Cook anotaram uma lista de palavras da língua, ouvidas na beira do rio.

O encontro teve uma briga. Os marinheiros pegaram tartarugas no rio, os donos da terra reclamaram parte da caça e, diante da recusa, puseram fogo no capim em volta do acampamento. Depois, um homem mais velho se aproximou sozinho e selou a paz.

Cooktown encena todo ano a chegada do Endeavour, e o povo guugu yimithirr participa contando a própria versão do encontro.

Para levar a história ao jantar, três passos:

1. Pergunte onde está o sal: a resposta vai sair com esquerda ou direita, como em qualquer casa brasileira.

2. Conte as quatro palavras de Hope Vale: gungga, jiba, naga e guwa, norte, sul, leste e oeste, no lugar da mão.

3. Termine com o teste dos bichinhos de Stephen Levinson: o falante vira de costas, e a fila continua olhando para o norte.

“Você sabia que existe uma língua na Austrália sem esquerda nem direita, onde a xícara fica ao norte da colher?”

Banks levou para a Inglaterra as palavras anotadas na beira do rio, e uma delas saiu do guugu yimithirr para o inglês e daí para dezenas de idiomas.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual palavra do guugu yimithirr a tripulação de James Cook anotou em 1770 e o mundo inteiro usa até hoje?

 
 
Quiz da edição

No teste em que Levinson levou falantes de guugu yimithirr para apontar lugares escondidos atrás de morros, qual foi o erro médio registrado no artigo de 1997?

AAbaixo de 45 graus
BAbaixo de 14 graus
CAcima de 30 graus
DAbaixo de 5 graus

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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