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Em 2015, Aleppo pediu de volta suas sementes ao Ártico

O cofre de Svalbard guarda cópias de 1,2 milhão de amostras. A guerra na Síria abriu a porta para a primeira retirada.

Entrada de concreto do cofre de sementes de Svalbard, na encosta nevada de uma montanha do Ártico.

Cofre de sementes de Svalbard, Noruega

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18 graus negativos. É a temperatura das três câmaras escavadas numa montanha de Spitsbergen, a maior ilha do arquipélago norueguês de Svalbard, desde fevereiro de 2008.

Lá dentro, as sementes dormem em envelopes de alumínio laminado, fechados a quente, empilhados em caixas pretas sobre prateleiras de metal. Não há janela, e a luz só acende quando alguém entra.

O prédio visível é pequeno: uma cunha de concreto saindo da encosta nevada, perto do aeroporto de Longyearbyen, a principal cidade do arquipélago. Todo o resto fica escondido dentro da montanha, longe do vento e da luz.

O inventário público do Crop Trust (fundo internacional que ajuda a manter o cofre) passou de 1,2 milhão de amostras em 2024. Cada amostra reúne em média 500 sementes de uma variedade: trigo, arroz, cevada, feijão, grão-de-bico, lentilha.

Ninguém planta nada ali. O lugar funciona como cópia de segurança dos bancos de sementes espalhados pelo planeta, guardada num dos pontos mais remotos que a Noruega podia oferecer.

Quem deposita continua dono. A Noruega cede o espaço e o frio, e cada caixa só sai, se um dia sair, para as mãos de quem a levou.

Durante os primeiros sete anos, nenhuma caixa saiu. As portas abriam poucas vezes por ano, sempre para receber remessas novas.

Em setembro de 2015, chegou o primeiro pedido de devolução. Vinha do ICARDA, o Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas, que mantinha sua coleção principal em Tel Hadya, a cerca de 30 quilômetros de Aleppo, na Síria.

A guerra civil tinha cortado o acesso ao prédio. Os pesquisadores precisavam das sementes para seguir trabalhando, e a cópia de segurança estava enterrada no gelo do Ártico, a mais de 4 mil quilômetros dali.

Antes da viagem dessas caixas, a seção abaixo mostra como uma montanha consegue manter sementes vivas sem depender de quase ninguém.

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I  A Curiosidade do Dia

Uma geladeira feita de rocha

Svalbard fica a cerca de 1.300 quilômetros do Polo Norte, numa das áreas habitadas mais ao norte do planeta. O governo norueguês escolheu o lugar por três motivos: frio natural, rocha estável e distância de qualquer frente de guerra.

O solo da ilha é permafrost (terra congelada o ano inteiro). O arenito da montanha Platåberget, onde fica o cofre, se mantém sozinho em torno de 3 graus negativos.

O arquipélago também tem pouca atividade sísmica, e a região fica longe das rotas de tempestade mais violentas. Cada critério reduz um tipo de risco que já destruiu bancos de sementes em outros países.

Os engenheiros abriram um túnel de cerca de 120 metros rocha adentro. A entrada fica 130 metros acima do nível do mar, alta o bastante para continuar seca mesmo num cenário de derretimento das grandes geleiras.

Máquinas de refrigeração baixam o ar das câmaras até os 18 graus negativos. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) recomenda essa temperatura nas suas normas para bancos de sementes, publicadas em 2014.

Se a energia cair, a montanha assume. O frio da rocha segura as câmaras abaixo de zero, e as sementes apenas envelhecem um pouco mais depressa, sem estragar.

O cofre dispensa vigia constante: se faltar energia, a própria montanha mantém as sementes congeladas.

Semente seca e fria entra num estado parecido com hibernação. Antes do envio, cada banco reduz a umidade dos grãos a poucos pontos percentuais, e nesse estado o metabolismo quase para.

O tempo de vida muda de espécie para espécie. O Crop Trust calcula, no material de divulgação do cofre, que sementes de cereais como trigo e sorgo podem durar séculos nessas condições, enquanto outras pedem renovação em poucas décadas.

O Ministério da Agricultura e Alimentação da Noruega, dono do prédio, informa capacidade para 4,5 milhões de amostras. Com 500 sementes cada, a lotação máxima soma 2,25 bilhões de sementes.

O acordo de guarda segue o sistema de caixa-preta (o depositante fecha a caixa, e ninguém mais a abre). A Noruega não conta, não testa e não planta o conteúdo. Quem depositou responde pela qualidade e é o único autorizado a pedir a devolução.

Três instituições dividem a operação: o governo norueguês, o Crop Trust e o NordGen, centro de recursos genéticos dos países nórdicos, que registra cada remessa.

Esse arranjo explica a cena de 2015. Só o ICARDA podia retirar as caixas do ICARDA, e ninguém em Oslo precisou votar nada.

 
 

II  A História Por Trás

As caixas que voltaram para Aleppo

O ICARDA, Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas, nasceu em 1977 e instalou sua sede em Tel Hadya, nos arredores de Aleppo.

A coleção reunia trigo, cevada, lentilha, fava e grão-de-bico do Crescente Fértil (faixa do Oriente Médio onde a agricultura começou). Muitas eram variedades crioulas (cultivadas e selecionadas por gerações de agricultores, sem empresa por trás).

Essas plantas aguentam seca, calor e solo pobre. Melhoristas de vários países, os cientistas que cruzam plantas para criar variedades novas, pediam amostras ao banco sírio com frequência.

A partir de 2008, o ICARDA começou a mandar duplicatas para Svalbard. Quando a guerra chegou, a maior parte da coleção já tinha cópia no Ártico.

Em 2012, os combates alcançaram a região de Aleppo. O centro transferiu a direção para Beirute, no Líbano, e funcionários sírios continuaram cuidando do banco em Tel Hadya enquanto houve condição.

A saída da equipe estrangeira deixou o banco sem o ciclo normal de trabalho. Sementes que deviam ser testadas, plantadas e colhidas ficaram paradas nas câmaras frias de Tel Hadya, sem ninguém para conferir se ainda germinavam.

Sem acesso pleno, a equipe parou de atender pedidos de pesquisadores. Também ficou impossível renovar os lotes: semente guardada precisa voltar à terra de tempos em tempos para gerar sementes novas e saudáveis.

O pedido de 2015 seguiu o rito da caixa-preta. Segundo o Crop Trust, saíram do cofre cerca de 38 mil amostras, transportadas por avião para dois destinos escolhidos pelo próprio ICARDA.

Uma parte foi para Terbol, no vale do Bekaa, no Líbano. Outra seguiu para Rabat, no Marrocos. Nos dois lugares, as sementes foram plantadas em campo para multiplicar cada variedade.

Em 2015, a cópia de segurança fez o caminho inverso: saiu do gelo para refazer o banco original.

As colheitas devolveram ao ICARDA um estoque vivo para trabalhar. Em 2017, o centro mandou ao Ártico as primeiras caixas novas, tiradas dessas lavouras, e o cofre voltou a ter a cópia completa.

O plano funcionou como o desenho previa. Nenhuma variedade daquelas 38 mil amostras se perdeu na viagem, de acordo com o balanço publicado pelo próprio centro.

O destino das sementes deixadas em Tel Hadya tem um ponto sem resposta. O ICARDA não voltou a operar no prédio, e até hoje não existe inventário público do estado em que aquela coleção ficou.

Por esse vazio, as duas sedes novas assumiram o papel de banco principal. O Líbano e o Marrocos guardam hoje a coleção ativa, e Svalbard segue com a cópia.

 

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III  Pra Contar na Mesa

A água que entrou no túnel

O cofre já levou um susto. Em 2016, depois de meses de calor acima do normal em Svalbard, a neve derretida escorreu para dentro do túnel de entrada e congelou ali.

A água parou longe das câmaras, e nenhuma semente sofreu dano. Mesmo assim, o governo norueguês fechou o prédio para obras, refez o túnel com material à prova de água e tirou de dentro os equipamentos que geravam calor.

A obra também trocou a ventilação e afastou do túnel o prédio de serviço, onde ficam transformadores e máquinas. O cofre reabriu para depósitos com a mesma regra de antes: poucas aberturas por ano, sempre com remessas novas.

O apelido em inglês, Doomsday Vault (Cofre do Juízo Final), vende uma ideia de catástrofe. Na prática, o uso mais comum é bem mais modesto: repor perdas de enchente, incêndio, falta de verba ou falha de geladeira nos bancos de origem.

A entrada tem uma obra de arte. A artista norueguesa Dyveke Sanne instalou na fachada prismas e espelhos que refletem a luz polar no verão e brilham em verde e azul durante a noite de inverno.

A ideia de proteger sementes a qualquer preço tem um precedente russo. Nikolai Vavilov, botânico soviético, montou nos anos 1920 e 1930 um dos maiores bancos de sementes do mundo, em Leningrado, atual São Petersburgo.

Durante o cerco alemão à cidade, entre 1941 e 1944, os funcionários do instituto passaram fome ao lado de toneladas de grãos e não comeram as amostras. O especialista em arroz Dmitri Ivanov foi encontrado sem vida na mesa de trabalho, cercado de sacos de arroz.

O cofre do Ártico repete a lição de Leningrado: a semente guardada vale mais do que a fome de hoje.

Para levar a história ao jantar, três passos:

1. Pergunte onde fica a cópia de segurança do trigo, do arroz e da lentilha do planeta: quase ninguém responde Noruega.

2. Conte a cena de 2015: a guerra na Síria fechou o banco de Aleppo, e as sementes voltaram do Ártico em caixas pretas.

3. Explique pela rocha: a montanha fica abaixo de zero sozinha, e o cofre aguenta até um apagão.

“Você sabia que a primeira retirada do cofre de sementes do Ártico serviu para reconstruir um banco esvaziado pela guerra na Síria?”

 
 
Quiz da edição

Depois do pedido de devolução feito pelo ICARDA em 2015, as cerca de 38 mil amostras retiradas do cofre de Svalbard foram plantadas em quais dois países?

AJordânia e Egito
BTurquia e Tunísia
CLíbano e Marrocos
DSíria e Argélia

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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