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Em 1974, um poço chinês achou 8 mil soldados

Camponeses de Shaanxi cavavam atrás de água e bateram num braço de barro. Embaixo, o exército de Qin Shi Huang esperava havia 2 mil anos.

Fileiras de soldados de terracota no Poço 1, em Lintong, perto de Xi'an, na China.

Soldados em fila no Poço 1, perto de Xi'an

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Cerca de 8 mil soldados de barro, em março de 1974. Foi o que começou a sair do chão de um campo com pés de caqui no distrito de Lintong, a uns 35 quilômetros de Xi'an, na província chinesa de Shaanxi.

A região atravessava uma seca. Um grupo de camponeses da vila de Xiyang, entre eles Yang Zhifa e os irmãos, recebeu a tarefa de abrir um poço para irrigar a plantação.

Com poucos metros de escavação, as pás bateram em pedaços de terracota (barro cozido em forno). Primeiro apareceu um tronco oco, depois uma cabeça, depois um braço com a mão ainda fechada, como se segurasse uma arma.

Os moradores conheciam aquele tipo de caco. Havia décadas, quem lavrava a terra ali achava fragmentos de barro e tijolos antigos, e alguns chamavam as cabeças de estátuas de deuses da terra.

Dessa vez a quantidade chamou atenção. Os camponeses levaram parte dos pedaços em carrinhos até o posto cultural do distrito, onde trabalhava um arqueólogo local chamado Zhao Kangmin.

Zhao pagou alguns yuans pelos fragmentos, juntou as peças e montou as primeiras figuras inteiras. Eram homens em tamanho real, de cerca de 1,80 metro, com armadura, cinto e cabelo preso num coque.

Meses depois, um jornalista da agência estatal Xinhua viu as estátuas e publicou a notícia. O governo central mandou uma equipe de arqueólogos, e a escavação oficial começou em julho de 1974.

O poço tinha caído bem na borda de uma vala gigante. A cova que hoje se chama Poço 1 mede cerca de 230 metros de comprimento por 62 de largura, área parecida com a de três campos de futebol.

Dentro dela, os soldados estavam em formação de batalha, virados para o leste, em corredores separados por paredes de terra batida. Cada um ocupava o lugar que um general da época teria marcado no campo.

O detalhe mais estranho só apareceu quando os arqueólogos olharam os soldados de perto, um por um, e é por ele que a seção abaixo começa.

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NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI

“If I were a farmer, I would absolutely use AI.” 

That’s Jensen Huang, founder and CEO of NVIDIA. 

He’s pointing to one of AI’s biggest untapped opportunities: farming. 

DIT AgTech is already putting AI to work with 500+ units deployed and 370,000 head on-platform.

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I  A Curiosidade do Dia

Nenhum rosto se repete

A resposta de ontem

Por que as seringueiras da Malásia escaparam do fungo?

O fungo Pseudocercospora ulei, causador do mal-das-folhas, só existe nas Américas. As sementes levadas por Henry Wickham em 1876 viajaram secas, sem folhas, e passaram por quarentena em Kew. O fungo nunca cruzou o oceano, e a Ásia planta seringueira em fila até hoje sem ele, segundo a Embrapa.

Os arqueólogos já restauraram mais de mil soldados e ainda não acharam dois rostos iguais. Bigode, sobrancelha, formato do queixo e expressão mudam de uma figura para a outra.

A explicação está no método de fabricação. O corpo saía de moldes, em peças separadas: pernas maciças, tronco oco, braços e mãos encaixados depois.

Cada soldado pesa entre 150 e 300 quilos. As pernas maciças seguram o peso, e o tronco oco deixa a figura leve o bastante para não rachar no forno.

O rosto também partia de um molde, mas de poucos tipos básicos. Em cima dessa base, o artesão acrescentava camadas de argila e esculpia à mão nariz, orelhas, barba e rugas.

O resultado é uma combinação quase infinita. Com uns oito moldes de cabeça e o acabamento manual, cada soldado ganhou feição própria, como se tivesse posado para um retrato.

O corpo também conta a patente. Os soldados de infantaria usam túnica curta e armadura simples, os arqueiros se ajoelham com o arco nas mãos, e os oficiais têm armadura de placas menores e chapéu alto.

Os generais são os mais altos, alguns perto de 2 metros. Barriga saliente e mãos apoiadas na espada sugerem homens mais velhos, acostumados ao comando.

O Exército de Terracota saiu de uma linha de montagem e ganhou acabamento de galeria de retratos.

A fábrica deixou assinatura. Em muitas figuras, os arqueólogos acharam nomes gravados no barro, de mestres de oficina e de capatazes, e já foram identificados dezenas de nomes diferentes.

Os nomes tinham função de controle. Na dinastia Qin, quem entregava uma peça com defeito podia ser punido, e a marca permitia rastrear de qual oficina cada soldado tinha saído.

As armas eram reais. Nos poços apareceram mais de 40 mil peças de bronze, entre pontas de flecha, lanças, bestas e espadas, muitas ainda afiadas depois de dois milênios debaixo da terra.

Algumas lanças trazem a data de fabricação e o nome do ministro responsável. Uma delas cita Lü Buwei, o chanceler que governou em nome do rei quando ele ainda era adolescente.

Os soldados também não estavam sozinhos. O conjunto inclui cerca de 130 carros de guerra, 520 cavalos de tração e 150 cavalos de montaria, todos em barro e em tamanho real.

Os cavalos têm a cabeça erguida e as narinas abertas, prontos para sair em disparada. Foram feitos em fornos próximos, com a argila amarela da própria região.

 
 

II  A História Por Trás

O rei de 13 anos e a obra de uma vida

Antes de ganhar o título de imperador, Qin Shi Huang se chamava Ying Zheng. Assumiu o trono do reino de Qin em 246 antes de Cristo, com 13 anos.

Naquela época, a China era um mapa de sete reinos em guerra constante. O período ficou conhecido como Reinos Combatentes e durou mais de dois séculos.

Ying Zheng conquistou os outros seis entre 230 e 221 antes de Cristo. No fim da campanha, adotou o título Shi Huangdi, que significa Primeiro Imperador.

Unificou também o que circulava entre os reinos. Padronizou a escrita, as moedas, os pesos e medidas e até a distância entre as rodas das carroças, para todas caberem nos mesmos sulcos das estradas.

A obra do túmulo começou logo no início do reinado, como mandava o costume dos reis da época. Depois da unificação, ganhou escala de império.

O historiador Sima Qian, que escreveu cerca de um século depois, conta em Registros do Historiador, obra de por volta de 94 antes de Cristo, que mais de 700 mil trabalhadores foram levados para a construção.

Sobre o interior da tumba, Sima Qian deixou uma descrição: “Com mercúrio fizeram os cem rios, o Yangtzé e o Amarelo, e o grande mar, e máquinas faziam o mercúrio correr.”

O imperador tinha outra obsessão. Nos últimos anos de vida, mandou expedições atrás de um elixir da imortalidade e tomou pílulas preparadas pelos alquimistas da corte.

Algumas dessas receitas levavam mercúrio. Muitos historiadores suspeitam que elas tenham piorado a saúde dele nos anos finais.

O homem que buscava viver para sempre preparou, ao mesmo tempo, um exército para guardá-lo do outro lado.

O fim chegou em 210 antes de Cristo, durante uma viagem pelo leste do império, quando ele tinha 49 anos. A corte escondeu a notícia por semanas para evitar uma disputa pelo trono.

O exército de barro ficava a cerca de 1,5 quilômetro a leste do monte funerário. A posição tem lógica: os reinos que ele tinha vencido ficavam, quase todos, para o leste.

A dinastia dele durou pouco. Em 206 antes de Cristo, revoltas derrubaram o filho que herdou o trono, e o império passou, pouco depois, para a dinastia Han.

Os poços sentiram a queda. Os arqueólogos acharam vigas de madeira carbonizadas e figuras quebradas, sinal de que alguém entrou, levou armas e pôs fogo no teto.

O suspeito mais citado é Xiang Yu, general rebelde que saqueou a capital Qin. Com o teto queimado, a terra cedeu sobre os soldados, e a cova ficou esquecida sob plantações por mais de 2 mil anos.

 

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III  Pra Contar na Mesa

As cores sumiram no ar

Os soldados das fotos são cinza ou marrons, mas não saíram assim das oficinas. Cada figura recebia uma camada de laca e, por cima, tinta de cores vivas.

Havia vermelho, verde, azul, roxo, rosa e branco. Uma das cores, o chamado roxo Han, é um pigmento sintético produzido na China antiga a partir de cobre e bário.

As cores sobreviveram no escuro e na umidade da terra. O problema começa na escavação: em contato com o ar seco, a laca encolhe, enrola e se solta em poucos minutos, levando a tinta junto.

Testes feitos com pesquisadores alemães mostraram a laca descolando em cerca de 15 segundos e secando quase inteira em 4 minutos. Muitos soldados perderam a cor diante dos próprios escavadores.

Os escavadores viram as cores dos soldados por alguns minutos, e o ar levou o resto.

Por causa da laca, a escavação anda devagar. Boa parte dos poços segue fechada, à espera de técnicas que segurem a pintura, e os arqueólogos abrem trechos pequenos de cada vez.

O Poço 1 não é o único. O Poço 2 guarda arqueiros, cavalaria e carros de guerra, e o Poço 3, bem menor, tem 68 figuras e parece o quartel-general, com oficiais em volta de um carro de comando.

Hoje a área é o Museu do Mausoléu do Imperador Qin Shi Huang. O primeiro pavilhão abriu em 1979, e a Unesco pôs o conjunto na lista de Patrimônio Mundial em 1987.

Yang Zhifa, um dos camponeses do poço, passou anos sentado numa mesa da loja do museu, autografando livros para visitantes do mundo inteiro.

Para levar a história ao jantar, três passos:

1. Comece pelo poço: em 1974, camponeses atrás de água acharam o maior exército de barro do mundo.

2. Conte o detalhe dos rostos: moldes no corpo e acabamento à mão em cada feição, sem repetir nenhuma.

3. Feche nas cores: os soldados eram pintados, e o ar apagou a tinta em minutos.

O monte funerário do imperador continua de pé, coberto de árvores, no mesmo campo de Lintong. Os arqueólogos já mapearam muros, fossos e poços em volta dele, mas nenhuma equipe entrou na câmara principal.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que a China nunca abriu o túmulo de Qin Shi Huang?

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, por que nenhum dos mais de mil soldados de terracota já restaurados tem o mesmo rosto?

ACada soldado foi esculpido inteiramente à mão, sem nenhum molde
BO rosto partia de poucos moldes básicos e ganhava acabamento manual em argila por cima
COs artesãos usavam o rosto de um soldado vivo como modelo para cada estátua
DCada oficina de barro usava uma receita diferente de argila que mudava o formato do rosto

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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