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Em 1928, Henry Ford plantou uma cidade no Pará

Fordlândia teve hospital, golfe e casas de Michigan. As seringueiras enfileiradas caíram para um fungo, e a Ford vendeu tudo em 1945.

Caixa d'água de ferro e casas de estilo americano em Fordlândia, entre a mata e o rio Tapajós.

Caixa d'água de Fordlândia, às margens do Tapajós

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244.200 dólares. Foi o preço que a Ford Motor Company aceitou do governo brasileiro, em dezembro de 1945, para devolver uma cidade inteira às margens do rio Tapajós, no Pará.

A empresa tinha gasto ali, ao longo de 17 anos, perto de 20 milhões de dólares, segundo o historiador americano Greg Grandin. A venda cobriu pouco mais de 1% do investimento.

A cidade se chamava Fordlândia. Ficava a cerca de 300 quilômetros rio acima de Santarém, num trecho de floresta onde, até 1928, havia poucas casas de ribeirinhos e nenhuma estrada.

Em pouco tempo, o lugar ganhou serraria, usina elétrica, caixa d'água de ferro, hospital, escola, cinema, piscina e campo de golfe. As casas dos gerentes vinham com varanda, telhado de telha e fiação elétrica, no desenho dos subúrbios de Michigan.

O motivo de tanto concreto na mata era um só: borracha. Cada carro da Ford rodava sobre quatro pneus e levava mangueiras, juntas e vedações do mesmo material.

Nos anos 1920, quase toda a borracha do mundo saía de plantações britânicas e holandesas no Sudeste Asiático. Os preços subiam e desciam por decisão de Londres, e Henry Ford queria uma fonte própria, longe desse controle.

A seringueira, árvore da borracha, é nativa da Amazônia. A conta parecia simples: plantar a árvore na terra dela, em escala industrial, e mandar o látex para as fábricas de Detroit.

A concessão do governo do Pará somou cerca de 1 milhão de hectares, área parecida com a do Líbano. Em 1928, dois navios da empresa subiram o Tapajós carregados de máquinas, trilhos, tijolos e funcionários americanos.

O plano tinha quase tudo: dinheiro, engenheiros, maquinário e a vontade de um dos homens mais ricos do planeta. Faltou um detalhe pequeno, invisível a olho nu, morando nas folhas das próprias seringueiras.

A seção abaixo mostra como um fungo microscópico desmontou a maior aposta agrícola de Henry Ford.

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I  A Curiosidade do Dia

O fungo das árvores em fila

Na floresta, a seringueira cresce espalhada. Entre uma árvore e outra da mesma espécie, há dezenas de metros de mata, com centenas de outras plantas no caminho.

Esse espaçamento tem uma razão. A Amazônia abriga também os inimigos naturais da seringueira, e o principal deles é um fungo das folhas, hoje chamado Pseudocercospora ulei.

O fungo causa o mal-das-folhas (doença que espalha manchas escuras pela folhagem nova). As folhas jovens enrugam, secam e caem, e a árvore perde a capacidade de produzir látex.

Na mata, os esporos do fungo precisam viajar longe para achar outra seringueira. A distância funciona como barreira, e a doença fica sob controle sem ninguém intervir.

Em Fordlândia, os administradores fizeram o contrário. Derrubaram a floresta e plantaram as mudas em fileiras retas, uma colada na outra, como se faz com milho nos Estados Unidos.

Os primeiros anos pareceram promissores. As mudas cresceram, e por volta de 1933 as copas começaram a se tocar, formando um teto contínuo de folhas sobre o terreno.

Ao enfileirar as seringueiras, a Ford entregou ao fungo uma estrada sem fim de folhas novas.

Com as copas unidas, o esporo passava de uma árvore para a vizinha sem esforço. A umidade da região e a chuva quase diária fizeram o resto.

A doença se espalhou pelo plantio inteiro. Árvores com poucos anos de vida perderam a folhagem várias vezes seguidas, e muitas pararam de crescer.

O terreno também atrapalhou. A área escolhida tinha morros e solo arenoso em vários trechos, e parte das mudas veio de sementes de baixa qualidade, colhidas sem seleção na mata da região.

Faltava à equipe um especialista em seringueira. A Ford mandou para o Tapajós engenheiros, mecânicos e gerentes de fábrica, mas, nos primeiros anos, nenhum botânico experiente na espécie.

O contraste com a Ásia era grande. Lá, as plantações britânicas cultivavam a seringueira em fileiras havia décadas, com rendimento alto e sem perdas do mesmo tamanho.

Todas aquelas árvores asiáticas descendiam de sementes amazônicas. Em 1876, o explorador inglês Henry Wickham levou cerca de 70 mil sementes do Tapajós para o Jardim Botânico de Kew, em Londres, e as mudas seguiram depois para o Ceilão e a Malásia.

Ou seja, a árvore plantada em fila dava certo do outro lado do mundo e falhava justamente na casa dela, a poucos quilômetros de onde Wickham tinha recolhido as sementes.

 
 

II  A História Por Trás

Uma cidade de Michigan no Tapajós

Henry Ford nunca pisou em Fordlândia. Acompanhou tudo de Dearborn, em Michigan, por relatórios, telegramas e fotografias enviadas pelos gerentes.

A cidade seguia as regras dele. Bebida alcoólica era proibida dentro dos limites da propriedade, e os funcionários tinham horário fixo de entrada, ponto batido com cartão e apito de fábrica.

O cardápio também vinha de Dearborn. O refeitório servia arroz integral, pão de trigo, aveia e pêssego em lata, comida estranha para trabalhadores acostumados a peixe, farinha de mandioca e feijão.

O horário de trabalho ignorava o clima. Em vez de pegar no serviço de madrugada e parar no calor do meio-dia, como faziam os seringueiros da região, a turma seguia o expediente de uma fábrica americana, das 7h às 15h ou mais.

Em dezembro de 1930, a tensão estourou. A empresa trocou o atendimento à mesa por fila com bandeja no refeitório, e os trabalhadores reagiram quebrando pratos, mesas e janelas.

O episódio ficou conhecido como Quebra-Panelas. Os gerentes americanos fugiram para o mato e para barcos no rio, e o Exército brasileiro precisou subir o Tapajós para restabelecer a ordem.

Fordlândia tentou transplantar o relógio de Detroit para a floresta, e a floresta não aceitou o horário.

A saúde era outro problema. O hospital da cidade, um dos mais modernos da Amazônia na época, atendia casos de malária, febre amarela e mordidas de cobra sem parar.

A rotatividade de funcionários era altíssima. Muitos chegavam, ficavam algumas semanas, recebiam o salário e voltavam para casa ou para outros trabalhos na região.

Os gerentes tentaram segurar a turma com lazer. Organizavam bailes de quadrilha americana, recitais de poesia em inglês e sessões de cinema aos sábados, programas pensados para um público de Michigan, não para o interior do Pará.

Enquanto isso, as árvores continuavam doentes. Em 1934, a empresa reconheceu o fracasso do plantio original e conseguiu trocar parte da concessão por outra área, mais perto de Santarém.

O novo terreno ficava num planalto chamado Belterra, a cerca de 130 quilômetros rio abaixo. Era plano, mais fácil de mecanizar e tinha porto com profundidade para navios grandes o ano todo.

Fordlândia não fechou de um dia para o outro. Continuou funcionando como serraria e centro de apoio, mas o centro da operação de borracha mudou de endereço.

Os técnicos chegaram, enfim, com mais preparo. A Ford contratou especialistas, trouxe mudas resistentes da Ásia e testou enxertos, uma técnica de juntar a copa de uma planta ao tronco de outra.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Belterra, a segunda tentativa

Em Belterra, a Ford repetiu a cidade: casas, hospital, escola, igreja e ruas largas. Muitas dessas construções continuam de pé e abrigam hoje moradores do município, criado em 1995.

O plantio chegou a milhões de árvores. Para driblar o fungo, os técnicos usaram o enxerto de copa: tronco de uma seringueira produtiva e copa de outra espécie mais resistente às manchas nas folhas.

A técnica ajudou, mas não resolveu. A produção ficou muito abaixo do previsto, e Belterra nunca chegou perto de abastecer as fábricas da Ford nos Estados Unidos.

A Segunda Guerra Mundial mudou o cenário. Em 1942, o Japão ocupou a Malásia e as Índias Orientais Holandesas, e a borracha asiática sumiu do mercado aliado.

Os Estados Unidos responderam com a borracha sintética, feita a partir do petróleo. Em poucos anos, as fábricas americanas produziam o material em volume suficiente para a indústria e para a guerra.

Com a sintética barata, a seringueira plantada perdeu sentido para a Ford. Henry Ford II, neto do fundador, assumiu a presidência da empresa em 1945 e decidiu cortar o projeto amazônico.

Na época, Belterra tinha mais de 3 milhões de seringueiras plantadas, segundo os registros da própria empresa. Quase nenhuma delas chegou a dar o látex prometido nos primeiros planos de Dearborn.

O acordo com o governo brasileiro saiu em dezembro de 1945. Fordlândia, Belterra, as casas, as máquinas e as plantações passaram ao Brasil pelos 244.200 dólares combinados.

Hoje, Fordlândia é um distrito do município de Aveiro, no Pará, com alguns milhares de moradores. A caixa d'água de ferro, a serraria e parte das casas americanas resistem entre a mata e o rio.

Para levar a história ao jantar, três passos:

1. Pergunte onde Henry Ford tentou plantar a borracha dos pneus dele: quase ninguém responde Pará.

2. Conte a cena do Quebra-Panelas: em 1930, uma fila de bandeja no refeitório virou motim na floresta.

3. Explique pelo fungo: seringueira em fila vira banquete para o mal-das-folhas, e a mata espaçada protege a árvore.

O que sobra de Fordlândia é uma lição de agronomia escrita em ruínas. A mesma árvore, a mesma fila e o mesmo látex deram certo do outro lado do planeta e fracassaram no rio onde a espécie nasceu.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que as seringueiras plantadas na Malásia nunca pegaram o fungo que derrubou Fordlândia?

 
 
Quiz da edição

Por quanto a Ford Motor Company vendeu Fordlândia ao governo brasileiro, em dezembro de 1945?

A20 milhões de dólares
B2,4 milhões de dólares
C244.200 dólares
D1 milhão de dólares

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