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Henry Ford nunca pisou em Fordlândia. Acompanhou tudo de Dearborn, em Michigan, por relatórios, telegramas e fotografias enviadas pelos gerentes.
A cidade seguia as regras dele. Bebida alcoólica era proibida dentro dos limites da propriedade, e os funcionários tinham horário fixo de entrada, ponto batido com cartão e apito de fábrica.
O cardápio também vinha de Dearborn. O refeitório servia arroz integral, pão de trigo, aveia e pêssego em lata, comida estranha para trabalhadores acostumados a peixe, farinha de mandioca e feijão.
O horário de trabalho ignorava o clima. Em vez de pegar no serviço de madrugada e parar no calor do meio-dia, como faziam os seringueiros da região, a turma seguia o expediente de uma fábrica americana, das 7h às 15h ou mais.
Em dezembro de 1930, a tensão estourou. A empresa trocou o atendimento à mesa por fila com bandeja no refeitório, e os trabalhadores reagiram quebrando pratos, mesas e janelas.
O episódio ficou conhecido como Quebra-Panelas. Os gerentes americanos fugiram para o mato e para barcos no rio, e o Exército brasileiro precisou subir o Tapajós para restabelecer a ordem.
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Fordlândia tentou transplantar o relógio de Detroit para a floresta, e a floresta não aceitou o horário.
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A saúde era outro problema. O hospital da cidade, um dos mais modernos da Amazônia na época, atendia casos de malária, febre amarela e mordidas de cobra sem parar.
A rotatividade de funcionários era altíssima. Muitos chegavam, ficavam algumas semanas, recebiam o salário e voltavam para casa ou para outros trabalhos na região.
Os gerentes tentaram segurar a turma com lazer. Organizavam bailes de quadrilha americana, recitais de poesia em inglês e sessões de cinema aos sábados, programas pensados para um público de Michigan, não para o interior do Pará.
Enquanto isso, as árvores continuavam doentes. Em 1934, a empresa reconheceu o fracasso do plantio original e conseguiu trocar parte da concessão por outra área, mais perto de Santarém.
O novo terreno ficava num planalto chamado Belterra, a cerca de 130 quilômetros rio abaixo. Era plano, mais fácil de mecanizar e tinha porto com profundidade para navios grandes o ano todo.
Fordlândia não fechou de um dia para o outro. Continuou funcionando como serraria e centro de apoio, mas o centro da operação de borracha mudou de endereço.
Os técnicos chegaram, enfim, com mais preparo. A Ford contratou especialistas, trouxe mudas resistentes da Ásia e testou enxertos, uma técnica de juntar a copa de uma planta ao tronco de outra.
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