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Djenné reboca à mão o maior prédio de barro do mundo

Desde 1907, a cidade sobe pelas estacas de palmeira da Grande Mesquita, no Mali, e cobre a fachada com lama nova antes das chuvas.

Fachada de barro da Grande Mesquita de Djenné, com estacas de palmeira saindo das paredes.

A Grande Mesquita de Djenné, no Mali

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1907. Foi o ano em que os pedreiros de Djenné, no Mali, terminaram a Grande Mesquita que está de pé até hoje, o maior prédio de barro do mundo, erguido numa cidade que as cheias do rio Bani transformam em ilha todo ano.

Desde então, o prédio depende de um compromisso fixo. Semanas antes das chuvas, que no Sahel (a faixa seca ao sul do Saara) caem de junho a setembro, Djenné inteira separa um dia para rebocar a mesquita à mão.

O trabalho começa antes, em poços cavados perto do rio. Ali o banco (o barro de construção, como se diz no Mali) é misturado com água e casca de arroz e fica dias curtindo. Os meninos entram nos poços e pisam a massa até ela ficar lisa e grudenta.

A festa é conhecida pela palavra francesa crépissage (reboco). Na madrugada marcada, a praça do mercado acorda com tambores e cantoria, e os rapazes saem correndo com cestos de lama na cabeça, disputando quem chega primeiro à parede.

As mulheres e as meninas trazem água do rio em bacias, para a massa não endurecer antes da hora. Os homens sobem pela fachada apoiando pés e mãos nas estacas de palmeira que saem das paredes e espalham o barro com as palmas, camada sobre camada.

Os mestres pedreiros, os mais velhos da cidade, ficam embaixo. Eles conhecem cada trecho da parede e apontam onde a chuva do ano anterior abriu rachaduras e onde o reboco afinou. Em poucas horas, as três torres e a fachada principal ficam escuras e úmidas de novo.

A pressa tem motivo. O barro sem proteção amolece com a água, e cada estação de chuva lava parte da camada de fora. Um prédio de barro largado sem cuidado começa a perder as quinas e a forma em poucos anos, e as paredes vão afinando até não aguentar o teto.

O próximo bloco abre a parede da mesquita: do que ela é feita, para que servem as estacas espetadas na fachada e por que o conserto é feito só com barro.

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I  A Curiosidade do Dia

A escada presa na parede

A Grande Mesquita de Djenné ocupa um lado inteiro da praça do mercado, em cima de uma plataforma de barro mais alta que as ruas em volta. A plataforma tem função prática: quando o rio Bani transborda e a cidade vira ilha, a mesquita fica acima da água.

As paredes são de ferey (tijolos de barro secos ao sol), assentados com argamassa do mesmo barro e cobertos pelo reboco que a cidade renova todo ano. Não há pedra nem cimento na estrutura. O material saiu da beira do rio, e as vigas do teto vieram de palmeiras.

A fachada mais famosa fica a leste, de frente para o mercado. É a qibla (a parede que indica a direção de Meca, para onde os fiéis rezam). Dela saltam três torres altas, cada uma rematada por um pináculo com um ovo de avestruz no topo.

As estacas da fachada

O detalhe que mais intriga quem chega são as estacas. Feixes de madeira saem das paredes em fileiras, do chão ao alto das torres, como espinhos. Os pedreiros chamam cada feixe de toron (a estaca de palmeira presa no barro), e a madeira vem da palmeira rônier, uma espécie africana de tronco duro, que resiste a cupim.

As estacas são a escada fixa do prédio. No dia do reboco, os homens pisam nelas, sentam nelas e penduram nelas os cestos de lama. Sem os toron, a cidade teria de montar um andaime novo todo ano em volta de paredes de vários metros de altura.

O recurso se repete em outras mesquitas de barro do Mali, como a de Djinguereber, em Tombuctu.

As estacas de palmeira da Grande Mesquita de Djenné são o andaime permanente do prédio: a cidade sobe por elas todo ano para refazer a fachada.

Por que só barro

Dentro, a sala de oração é uma floresta de pilares grossos de barro, em fileiras, que seguram um teto de vigas de palmeira coberto de terra. No teto há aberturas fechadas por tampas de cerâmica: à noite, as tampas saem, e o ar quente acumulado durante o dia escapa.

O barro grosso trabalha a favor do clima. A parede absorve o calor do sol devagar e solta devagar, e a sala fica mais fresca que a praça nas horas quentes. A parede também respira: a umidade que entra com a chuva sai no tempo seco.

Cimento por cima do barro faria o contrário. A camada dura não acompanha o barro, que incha e encolhe com a umidade, e a água fica presa atrás dela. O barro de dentro amolece sem ninguém ver, e a casca racha e solta em placas. Por esse motivo, o conserto da mesquita é feito com o material do próprio prédio.

O preço dessa escolha é o compromisso anual. O barro é barato e está à mão na beira do rio, mas não perdoa abandono, e a história da própria mesquita mostra até onde o abandono chega.

 
 

II  A História Por Trás

Quando o reboco parou

A Grande Mesquita de Djenné de 1907 ocupa o terreno de uma mesquita bem mais velha. Quem conta a origem é o Tarikh al-Sudan (Crônica do Sudão, nome que os árabes davam à África ao sul do Saara), escrito em Tombuctu na década de 1650 pelo historiador Abd al-Rahman al-Sadi.

Segundo a crônica, Koi Konboro, o primeiro rei de Djenné a se converter ao Islã, mandou derrubar o próprio palácio e erguer a mesquita no lugar. Para morar, construiu outro palácio perto dela.

A crônica não traz o ano. A tradição da cidade situa a conversão no século 13, mas nenhum documento da época confirma a data, e a aparência exata do primeiro prédio não chegou até nós.

Por séculos, a mesquita de Koi Konboro foi o centro de um porto de comércio. Pelos rios Bani e Níger, Djenné ligava o ouro das terras do sul ao sal do Saara e aos mercadores de Tombuctu, rio abaixo.

O reformador e as andorinhas

No começo do século 19, a cidade caiu sob o Império de Massina, fundado por Seku Amadu, líder religioso dos fulas (povo de pastores da África Ocidental). Reformador rigoroso, ele via luxo demais na mesquita antiga e mandou erguer outra, mais simples.

A mesquita velha ficou sem o reboco anual. Estação após estação, a chuva comeu o barro das torres e das paredes, até o prédio virar ruína.

O explorador francês René Caillié passou por Djenné em março de 1828 e registrou o estado do prédio no livro “Journal d'un voyage à Temboctou et à Jenné” (Diário de uma viagem a Tombuctu e a Djenné), publicado em 1830.

“Em Djenné há uma mesquita construída de terra, encimada por duas torres maciças, mas pouco altas; é toscamente construída, embora muito grande. Está abandonada a milhares de andorinhas, que fazem ninho nela”, escreveu Caillié. Por causa do cheiro dos ninhos, contou ele, os fiéis rezavam num pequeno pátio do lado de fora.

A mesquita antiga de Djenné virou ruína sem demolição: bastaram algumas décadas sem o reboco anual.

O mestre de 1907

Em 1893, tropas francesas tomaram Djenné. Dois anos depois, o jornalista francês Félix Dubois visitou as ruínas e publicou um desenho de como a mesquita antiga teria sido no livro “Tombouctou la mystérieuse” (Tombuctu, a misteriosa), de 1897.

Em 1906, a corporação dos pedreiros de Djenné começou a reerguer a mesquita no terreno original. A obra foi dirigida pelo chefe da corporação, o mestre pedreiro Ismaila Traoré, e ficou pronta em 1907.

Quanto do desenho veio de Traoré e quanto veio da administração colonial virou debate. Textos coloniais deram o crédito aos franceses. Em 1987, o historiador da arquitetura Jean-Louis Bourgeois publicou na revista African Arts (Artes Africanas) um estudo defendendo que o prédio segue a tradição dos pedreiros locais, e a questão continua aberta entre os historiadores.

A mesquita de Traoré sobreviveu porque a cidade voltou a fazer o que a mesquita antiga deixou de receber: o reboco de todo ano.

 

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III  O Resto da História

A festa que segura o prédio

A Grande Mesquita de Djenné virou símbolo do país e aparece no centro do brasão do Mali. A fama chegou cedo à Europa: em 1930, soldados africanos do exército colonial francês ergueram em Fréjus, no sul da França, uma cópia da mesquita feita de concreto pintado.

A cópia ganhou o nome de mesquita Missiri (mesquita, em bambara). Ela servia aos tirailleurs (atiradores, como eram chamados os soldados recrutados na África Ocidental Francesa) acampados na região.

Patrimônio em perigo

Em 1988, a Unesco incluiu as Cidades Antigas de Djenné na lista do Patrimônio Mundial. O título cobre a mesquita, as casas de barro do centro e quatro sítios arqueológicos dos arredores; o mais conhecido é Jenné-jeno (Djenné antiga).

Jenné-jeno fica a cerca de 3 quilômetros da cidade atual. Os arqueólogos americanos Susan Keech McIntosh e Roderick McIntosh começaram a escavar o sítio em 1977 e dataram o começo da ocupação em cerca de 250 a.C. Bem antes da mesquita, já havia ali uma cidade de barro, abandonada perto do ano 1400.

Em 2016, a Unesco passou as Cidades Antigas de Djenné para a lista do Patrimônio Mundial em Perigo, citando a insegurança no centro do Mali e a perda de casas tradicionais de barro.

O que a festa garante

Com a região sob risco, o reboco anual continuou como a principal defesa do prédio. A data é marcada pela barey ton (a associação dos pedreiros de Djenné), que conhece o estado de cada trecho da parede.

Uma catedral de pedra pode passar décadas sem obra. A mesquita de Djenné depende de a cidade aparecer todo ano, com cesto, bacia e mãos sujas de lama.

A Grande Mesquita de Djenné é patrimônio em perigo desde 2016, e a defesa mais antiga dela segue sendo a cidade inteira subindo na parede todo ano.

Se for contar a alguém, três passos:

1. Comece pela escada: as estacas de palmeira que saem da fachada são o andaime fixo do reboco.

2. Mostre a receita: barro do rio, água e casca de arroz, curtidos por dias em poços e pisados pelos meninos.

3. Termine no contraste: a mesquita antiga virou ruína sem reboco, e a de 1907 dura porque a cidade sobe nela.

Quem não é muçulmano acompanha a festa da praça. Desde 1996, quando a revista Vogue fotografou modelos dentro da sala de oração e as fotos revoltaram os fiéis, a mesquita fecha as portas aos visitantes de outras religiões.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo a edição, quem dirigiu a reconstrução da Grande Mesquita de Djenné, concluída em 1907?

ASeku Amadu, fundador do Império de Massina
BRené Caillié, explorador francês
CIsmaila Traoré, mestre pedreiro de Djenné
DFélix Dubois, jornalista francês

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