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Curiosidade do Dia   Curiosidade do Dia
ED 043
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Dez anos de câmera apontada para uma cafeteira

Em 1991, dois pesquisadores do laboratório de computação de Cambridge filmaram o bule do corredor para não subir a escada e achar a jarra vazia.

Cafeteira de vidro sobre placa elétrica num canto de corredor, filmada por uma câmera de vídeo antiga sobre tripé.

O bule vigiado na Trojan Room

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3.350 libras. Foi quanto um comprador pagou em agosto de 2001, num leilão do eBay, por uma cafeteira doméstica usada, manchada por dentro e com a resistência queimada, colocada à venda pelo Laboratório de Computação da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Pelo preço, daria para comprar algumas dezenas de bules novos do mesmo modelo.

O que estava em jogo não era o eletrodoméstico, e sim o currículo dele. Aquele bule passou dez anos diante de uma câmera ligada dia e noite, e a imagem que saía dali virou a primeira transmissão contínua de vídeo que muita gente viu na internet.

A cena de origem é modesta e qualquer pessoa que trabalha em escritório reconhece. O laboratório funcionava num prédio antigo, na Corn Exchange Street, e a única cafeteira do andar ficava numa sala apelidada de Trojan Room, a sala do cavalo de Troia, batizada assim pelos pesquisadores que ocupavam o espaço.

Quem trabalhava nos outros andares dependia de sorte. Descer a escada, atravessar o corredor e encontrar a jarra vazia custava alguns minutos de trabalho interrompido, e a fila de gente decepcionada se repetia várias vezes por dia, sempre com a mesma reclamação no caminho de volta. O prédio tinha escada estreita, o andar de cima concentrava a maior parte das mesas, e o café ficava justamente do lado oposto ao de quem mais o procurava durante a tarde.

Dois pesquisadores resolveram o incômodo com o material que tinham à mão em 1991: uma câmera de vídeo emprestada, um computador da época e um programa escrito por eles mesmos para atualizar a imagem do bule na tela de quem estivesse longe dele. A ideia nunca foi inventar nada histórico, e sim poupar escada.

O nome dos dois, a máquina que carregava a imagem e o motivo pelo qual aquele arranjo interno acabou aberto ao mundo inteiro estão documentados no relato que um deles publicou em 1995 e nos registros do próprio laboratório.

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I  A Curiosidade do Dia

O bule que atualizava três vezes por segundo

Quentin Stafford-Fraser e Paul Jardetzky, então pesquisadores do Laboratório de Computação da Universidade de Cambridge, montaram o sistema em 1991 e o batizaram de XCoffee, uma brincadeira com o X Window System, o sistema gráfico que desenhava as janelas nos terminais do laboratório.

O arranjo físico era pobre e funcionava. Uma câmera de vídeo em preto e branco ficava apoiada num tripé improvisado, apontada para a cafeteira da Trojan Room, e o cabo dela ia até uma placa de captura, o componente que congela uma imagem parada a partir do sinal de vídeo, instalada num computador Acorn Archimedes.

Jardetzky escreveu o lado servidor, o programa que ficava na máquina ligada à câmera e guardava a imagem mais recente. Stafford-Fraser escreveu o lado cliente, o programa que cada pesquisador rodava no próprio terminal e que abria uma janelinha no canto da tela, sem atrapalhar o resto do trabalho.

A qualidade era risível para os padrões de hoje e suficiente para a tarefa. A imagem tinha 128 por 128 pontos, em tons de cinza, e se atualizava até três vezes por segundo. Ninguém precisava ler uma etiqueta: bastava enxergar se a silhueta escura dentro da jarra de vidro estava alta, baixa ou ausente.

A câmera nunca mostrou uma pessoa, um documento ou uma tela. Durante dez anos, o enquadramento inteiro foi ocupado por um objeto de cozinha parado num canto de corredor, e era exatamente essa monotonia que fazia a imagem ser útil.

O sistema circulava apenas dentro da rede interna do laboratório nos primeiros dois anos. Quem trabalhava naquele prédio abria a janela do XCoffee de manhã e a deixava ligada o dia todo, olhando de relance quando batia vontade de café, e o hábito se espalhou pelos andares sem nenhum anúncio oficial.

O ganho prático era pequeno e real. Cada viagem evitada economizava poucos minutos, multiplicados por dezenas de pesquisadores e por centenas de dias, e o programa resolvia uma frustração doméstica que nenhum manual de informática tinha achado digna de atenção.

A cafeteira em cena era um modelo comum de supermercado, do tipo que pinga água quente sobre o pó e mantém a jarra aquecida numa placa elétrica. Ela não tinha nada de especial na prateleira da loja, e foi a câmera apontada para ela que transformou o objeto no que ele viria a ser nove anos depois, num leilão disputado.

 
 

II  A História Por Trás

Do corredor de Cambridge para o mundo inteiro

A virada veio em novembro de 1993, quando Daniel Gordon e Martyn Johnson, também do laboratório, ligaram a imagem do bule ao protocolo HTTP, o conjunto de regras que um navegador usa para pedir uma página a um computador remoto. A partir dali, qualquer pessoa com um navegador podia ver a cafeteira.

O momento não podia ser mais oportuno. A web tinha acabado de ganhar o Mosaic, o primeiro navegador popular capaz de exibir imagem junto do texto, e havia pouquíssimo conteúdo visual circulando: uma página que mostrava algo acontecendo de verdade, em tempo quase real, era uma raridade absoluta.

O endereço se espalhou por listas de discussão e por conversa de corredor em universidades de vários países. Gente da Austrália, do Japão e dos Estados Unidos passou a acompanhar o nível do café de um prédio em Cambridge que jamais visitaria, e o laboratório começou a receber cartas e mensagens de desconhecidos perguntando pelo bule.

O volume acumulado dá o tamanho da audiência. Segundo a reportagem da BBC News publicada em agosto de 2001 sobre o desligamento, a página do café tinha recebido cerca de 2,4 milhões de acessos ao longo da vida, número que o próprio laboratório divulgou na ocasião.

A palavra webcam, câmera ligada à rede, nem existia quando o sistema foi montado em 1991. O termo surgiu depois, e a cafeteira de Cambridge ficou conhecida como o primeiro exemplar de uma categoria que ainda não tinha nome.

O fim chegou por mudança de endereço. O Laboratório de Computação deixou o prédio antigo e se transferiu para o William Gates Building, no campus oeste da universidade, e a transmissão foi encerrada em 22 de agosto de 2001, com a imagem final registrando um dedo apertando o botão de desligar.

O que veio depois foi decidido pelo interesse do público. O laboratório poderia ter guardado o bule numa gaveta, mas preferiu anunciá-lo no eBay, e o leilão foi acompanhado por jornais de vários países. O lance vencedor, de 3.350 libras, partiu da redação alemã do Spiegel Online, braço de internet da revista Der Spiegel, que levou o objeto para Hamburgo.

A cafeteira chegou quebrada e não ficou assim. A fabricante alemã do eletrodoméstico consertou a peça a pedido do comprador, e o bule passou a ficar exposto na redação alemã, ligado de novo e servindo café a jornalistas que nunca pisaram em Cambridge.

Um detalhe do caso continua sem registro e vale dizer com todas as letras. O laboratório nunca anotou quantas jarras se quebraram na década de operação, então não há como afirmar que a peça leiloada em 2001 seja a mesma que apareceu na primeira imagem de 1991: o que se leiloou foi a cafeteira em uso no dia do desligamento.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três frases e um leilão de 3.350 libras

A curiosidade rende mais contada em ordem, e três frases resolvem a mesa:

1. Comece pela preguiça: em 1991, dois pesquisadores de Cambridge apontaram uma câmera para a única cafeteira do andar para não descer a escada e encontrar a jarra vazia.

2. Explique a consequência: em 1993 a imagem foi ligada à web, virou a primeira transmissão contínua que muita gente viu num navegador e acumulou cerca de 2,4 milhões de acessos.

3. Feche com o preço: quando a câmera foi desligada em 2001, o bule usado foi leiloado no eBay por 3.350 libras e hoje vive numa redação de revista na Alemanha.

Nenhuma das pessoas envolvidas tentou criar uma novidade tecnológica. Elas tentaram evitar uma caminhada de trinta segundos, e o subproduto do incômodo entrou para a história da internet.

A correção do mito é o melhor pedaço para contar em voz alta. Muita gente repete que a cafeteira foi a primeira imagem da internet, o que não se sustenta: ela foi a primeira câmera com transmissão contínua e aberta ao público na web, e nos dois primeiros anos de vida nem sequer saiu da rede interna do laboratório.

O contexto do preço evita exagero na história. As 3.350 libras de 2001 equivalem hoje a algo em torno de 6 mil libras, pela calculadora de inflação do Banco da Inglaterra, e o valor foi pago por uma peça com defeito, comprada como troféu de redação e não como eletrodoméstico.

Existe um irmão brasileiro do hábito que a cafeteira criou. Câmera apontada para praia, para vulcão, para ninho de pássaro e para movimento de rodovia ocupa hoje um canto de tela em milhões de computadores, e a mecânica é a mesma inventada em Cambridge: olhar de relance, sem sair do lugar, para saber se vale a pena ir.

Quem quiser conferir a história sem depender de contador de caso tem caminho curto. Quentin Stafford-Fraser publicou em 1995 um relato detalhado do sistema, com nomes, datas e limitações técnicas, e o texto continua acessível na página pessoal dele, mantida há décadas.

"Quantos minutos do seu dia você gasta indo conferir pessoalmente algo que uma imagem resolveria?"

Amanhã: o mapa de 1507 que batizou a América sem pedir licença a ninguém.

 
 
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Quanto pagou o comprador que arrematou a cafeteira da Trojan Room no leilão do eBay em agosto de 2001?

A33.500 libras
B3.350 libras
C350 libras
D1.000 libras

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