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Cleópatra nasceu mais perto da Lua do que de Gizé
Da Grande Pirâmide até o nascimento dela correram 2.491 anos; do nascimento dela até o pouso na Lua, 2.038. A rainha já vivia num Egito antigo.
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Gizé já era ruína visitada no tempo dela
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A expressão "Egito Antigo" funciona como uma gaveta única na cabeça de quase todo mundo. Dentro dela cabem faraós, pirâmides, hieróglifos, múmias, o Nilo, o deus com cabeça de chacal e uma rainha de olhos pintados, todos empilhados no mesmo plano, como se tivessem dividido o mesmo século e talvez a mesma rua.
O cinema reforçou a gaveta com eficiência. Numa cena, a rainha desce a escadaria de um palácio e a pirâmide aparece ao fundo, nova em folha, com o revestimento branco brilhando ao sol, como se o canteiro de obras tivesse acabado de fechar e os arquitetos ainda estivessem por perto para receber elogios.
O erro tem uma causa simples e humana. Tudo o que aconteceu antes da nossa própria vida tende a se achatar numa faixa única chamada passado, e a nossa percepção de distância temporal encolhe conforme os fatos se afastam. Separamos com facilidade 1990 de 2010, hesitamos entre 1750 e 1820, e desistimos completamente de ordenar qualquer par de datas com quatro algarismos e a sigla a.C.
A geometria real da história é outra. Dentro daquela gaveta cabem milênios de distância, dinastias que nunca se cruzaram, línguas diferentes, religiões reformadas e abandonadas, e monumentos que já eram ruínas visitadas por turistas quando os personagens mais famosos daquele mesmo Egito ainda estavam vivos.
A rainha que a gaveta guarda ao lado dos construtores é o caso mais extremo de todos. Ela governou de uma capital fundada por um general grego, escrevia despachos em grego, cunhava moeda com perfil helenístico e negociava com generais romanos, e as pirâmides já eram, para ela, arquitetura de um passado remoto e meio inexplicável.
Existe uma forma de medir o tamanho exato dessa distância que dispensa qualquer discussão de interpretação histórica. Basta pegar três datas, colocá-las numa reta e fazer duas subtrações de escola primária. O resultado costuma provocar um segundo de silêncio na mesa.
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I A Curiosidade do Dia
Duas subtrações que reorganizam a régua
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A Grande Pirâmide de Gizé, o túmulo do faraó Quéops, foi erguida por volta de 2560 a.C., durante a Quarta Dinastia. Cleópatra VII nasceu por volta de 69 a.C., em Alexandria. Neil Armstrong desceu a escada do módulo lunar em 20 de julho de 1969, no horário de Houston.
Agora as contas. Da conclusão da pirâmide até o nascimento da rainha correram cerca de 2.491 anos. Do nascimento da rainha até o pouso na Lua correram 2.038 anos, somando os 69 anos antes da era comum com os 1.969 depois dela.
A diferença entre as duas pontas passa de 450 anos. Cleópatra estava temporalmente mais próxima de um foguete Saturno V decolando da Flórida do que dos operários que assentaram o último bloco de calcário no topo de Gizé.
Para sentir o peso desses 450 anos de folga, vale traduzir para a nossa régua. Quatro séculos e meio atrás, no nosso calendário, ainda não existia nenhum dos países modernos como conhecemos, a eletricidade era assunto de curiosidade filosófica e o telescópio de Galileu ainda ia demorar décadas para apontar para Júpiter.
Vale registrar a margem, porque a honestidade da conta importa mais que o efeito dela. A data de 2560 a.C. é uma estimativa de cronologia egípcia, construída a partir de listas reais, sincronismos astronômicos e datação por radiocarbono, e as escolas divergem em algumas décadas para mais ou para menos. O nascimento de Cleópatra também oscila entre 70 e 69 a.C. nas fontes antigas.
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Nenhuma dessas margens chega perto dos 450 anos de diferença, então a conclusão sobrevive inteira a qualquer ajuste de cronologia.
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Há um detalhe ainda mais desconfortável para a nossa intuição. Quando Cleópatra assumiu o trono, em 51 a.C., a Grande Pirâmide já completava aproximadamente dois mil e quinhentos anos de pé. É como se uma chefe de Estado de hoje governasse tendo no horizonte da capital um monumento erguido quando o Império Romano ainda estava em formação.
A pirâmide não era apenas velha para ela. Era velha havia tanto tempo que a própria memória de quem a construiu, e de por que a construiu, já tinha se degradado em lenda, versão de sacerdote e conversa de guia turístico.
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II A História Por Trás
A ruína que já recebia visita antes dela
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Dois séculos antes do nascimento de Cleópatra, Gizé já era ponto de parada obrigatória para viajantes estrangeiros. O grego Heródoto esteve no Egito por volta de 450 a.C. e dedicou boa parte do segundo livro da sua obra a descrever o que ouviu sobre as pirâmides, quase dois mil anos depois da construção.
O que ele registrou mostra o tamanho do apagamento. Os informantes locais lhe contaram que Quéops era um tirano cruel que fechou os templos e obrigou o povo a trabalhar em turnos de cem mil homens, uma versão que a arqueologia moderna desmontou ao escavar a vila dos construtores, com padaria, cervejaria, enfermaria e trabalhadores alimentados com carne bovina.
A restauração também já era antiga naquele Egito. A Esfinge passou séculos soterrada até o pescoço pela areia do platô, e uma estela de granito colocada entre as patas dianteiras registra que o faraó Tutmés IV a desenterrou por volta de 1400 a.C., depois de um sonho. Um egípcio restaurando um monumento egípcio que já tinha mais de mil anos, e ainda faltavam treze séculos para Cleópatra nascer.
A rainha, aliás, era grega de linhagem. A dinastia ptolomaica começou com Ptolomeu I Sóter, general macedônio de Alexandre, que ficou com o Egito na divisão do império em 305 a.C. Cleópatra foi a sétima do nome, a última da linha, e governou de Alexandria, cidade fundada em 331 a.C. na costa mediterrânea, a cerca de duzentos quilômetros de Gizé.
O idioma da corte era o grego. As moedas traziam legendas em grego, a administração escrevia em grego, e os Ptolomeus governaram o Egito por quase três séculos sem aprender a língua do país que administravam. Cleópatra foi a exceção da família nesse ponto específico, segundo o biógrafo que mais escreveu sobre ela.
"Sua língua era como um instrumento de muitas cordas, que ela facilmente afinava no dialeto que quisesse." Plutarco, Vida de Antônio, século II.
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Ela foi a primeira governante da sua dinastia a falar egípcio, quase trezentos anos depois de a família assumir o país.
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O cenário completo fica assim: uma rainha de cultura helenística, formada na biblioteca de uma cidade grega no delta do Nilo, negociando com Júlio César e Marco Antônio o destino de um reino que ainda ia virar província romana, tendo no fundo da paisagem um conjunto de tumbas cuja função original já era objeto de especulação erudita.
Vale acrescentar um dado de engenharia que reforça a distância. A Grande Pirâmide foi o edifício mais alto do planeta por mais de três mil e oitocentos anos, com seus 146 metros originais, e só perdeu o posto para a torre da catedral de Lincoln, na Inglaterra, por volta de 1311. Cleópatra viveu bem no meio desse reinado de altura, com quase dois milênios e meio de recorde já corridos antes dela e mais treze séculos pela frente.
Para ela, Gizé era o que Stonehenge ou as ruínas de Micenas são para um chefe de governo europeu contemporâneo: patrimônio herdado, mistério parcialmente resolvido e atração de visitante estrangeiro.
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