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Caçadores ergueram pilares de pedra 6.000 anos antes de Stonehenge

Os pilares de Göbekli Tepe, na Turquia, têm até 5,5 metros. A escavação começou em 1995 e boa parte do morro segue enterrada.

Pilares de calcário em forma de T num recinto circular escavado.

O recinto D de Göbekli Tepe, na Turquia

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5,5 metros. É a altura dos maiores pilares de pedra de Göbekli Tepe (Morro Barrigudo, em turco), erguidos por volta de 9500 a.C. no sudeste da Turquia, numa época em que ninguém ali plantava, criava gado ou fazia pote de barro.

O morro fica a cerca de 15 quilômetros da cidade de Şanlıurfa, perto da fronteira com a Síria. Visto da estrada, parece só mais uma elevação arredondada no planalto de calcário, com uma amoreira solitária no topo e pedras quebradas espalhadas na terra arada.

Os agricultores da região conheciam bem as pedras. O arado batia nelas todo ano, e os pedaços maiores iam parar em montes na beira do campo, para não atrapalhar a colheita de trigo e lentilha.

Em 1963, uma equipe da Universidade de Istambul e da Universidade de Chicago passou pela área num levantamento de sítios antigos. O arqueólogo americano Peter Benedict registrou o morro, anotou lascas de sílex (a pedra que os povos antigos lascavam para fazer facas e pontas de flecha) e lajes de calcário partidas.

A conclusão foi modesta. As lajes pareciam lápides de um cemitério medieval, e o sílex parecia resto de oficina. O relatório deu o lugar como curioso, mas sem urgência, e nenhuma escavação foi marcada.

Por três décadas, o morro seguiu como pasto e lavoura. Ninguém imaginava que, debaixo de poucos metros de entulho, havia círculos de pilares em forma de T, alguns com braços e mãos esculpidos na pedra, e faces cobertas de raposas, javalis, cobras e abutres.

A idade dessas pedras desmonta uma ideia antiga. Os livros escolares ensinavam que templos e monumentos só surgiram depois da agricultura, quando as aldeias tinham comida sobrando e gente livre para cortar pedra. Göbekli Tepe é mais velho que a cerâmica, a roda, a escrita e o trigo cultivado.

Para comparar: Stonehenge, na Inglaterra, começou a ser erguido por volta de 3000 a.C., e as pirâmides de Gizé vieram ainda depois. Os pilares turcos já estavam de pé havia mais de seis mil anos quando os primeiros fossos de Stonehenge foram cavados.

A mudança começou com um arqueólogo alemão que leu o relatório de 1963 e desconfiou da palavra “medieval”. O próximo bloco conta o que ele viu quando subiu o morro.

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I  A Curiosidade do Dia

As lápides eram pilares

Klaus Schmidt, arqueólogo do Instituto Arqueológico Alemão, chegou a Göbekli Tepe em outubro de 1994. Ele procurava um sítio novo para estudar o Neolítico (a fase final da Idade da Pedra) e reconheceu nas lascas de sílex do chão o trabalho de caçadores, não de pedreiros medievais.

As lajes partidas também mudaram de sentido. Schmidt notou que algumas tinham a borda reta e o topo largo, como a parte de cima de um pilar enterrado de pé. Ninguém põe lápide de cemitério com aquele formato.

Anos depois, ele contou ao jornalista Andrew Curry o que pensou naquele dia. “No primeiro minuto, eu soube que, se não fosse embora logo, passaria o resto da vida aqui”, disse Schmidt à revista Smithsonian, em 2008.

Foi o que aconteceu. Em 1995, Schmidt abriu as primeiras trincheiras com o Museu de Şanlıurfa e dirigiu a escavação por quase duas décadas, até 2014.

Os círculos de pilares em T

As trincheiras revelaram recintos (círculos ou ovais de pedra, cercados por muros baixos) com pilares encaixados nas paredes, todos voltados para dois pilares maiores no centro. Os arqueólogos batizaram os recintos com letras, de A a D, na ordem em que apareceram.

O recinto D é o mais bem preservado. Os dois pilares centrais, numerados 18 e 31, têm cerca de 5,5 metros de altura e foram talhados, cada um, num só bloco de calcário.

O formato em T não é decoração. No Pilar 18, braços finos descem pelas laterais e terminam em mãos com dedos longos, que se encontram sobre a barriga. Há um cinto entalhado na cintura, e dele pende uma pele de raposa, como uma tanga.

Os pilares em T de Göbekli Tepe são corpos estilizados: a barra de cima é a cabeça, a coluna é o tronco, e os braços estão gravados na pedra.

Quanto tempo o morro tem

A idade veio do carbono 14 (a medição do carbono radioativo que resta em restos orgânicos). Em 2013, Oliver Dietrich, Klaus Schmidt e colegas do Instituto Arqueológico Alemão publicaram na revista Neo-Lithics as datas dos recintos mais antigos: entre cerca de 9600 e 8800 a.C.

Uma camada mais recente, com salas retangulares e pilares menores, vem depois, até por volta de 8000 a.C. Depois dessa data, o lugar deixou de receber construção nova.

Schmidt resumiu a descoberta numa frase que virou bordão. “Primeiro veio o templo, depois a cidade”, escreveu ele no livro “Sie bauten die ersten Tempel” (Eles construíram os primeiros templos), de 2006.

 
 

II  A História Por Trás

Caçadores com cinzel de sílex

O povo de Göbekli Tepe não deixou nome. Os arqueólogos os chamam de caçadores-coletores do Neolítico Pré-Cerâmico (o período da Idade da Pedra anterior à invenção do pote de barro), gente que vivia de caçar e de colher plantas selvagens.

Os ossos achados no entulho mostram o cardápio. A maior parte é de gazela, seguida de javali, auroque (o boi selvagem extinto, ancestral do gado) e aves. Nenhum desses animais era criado: todos foram caçados nas planícies em volta.

A pedreira ao lado

O calcário saiu do próprio planalto. Na rocha em volta do morro ainda se veem as marcas de corte, e um pilar inacabado continua preso ao chão, abandonado antes de ser solto da rocha.

As ferramentas eram de sílex e de pedra dura. Sem metal, sem roda e sem animal de carga, o trabalho dependia de muita gente junta, puxando os blocos com cordas e alavancas de madeira por algumas centenas de metros.

Reunir essa gente exigia comida. Em 2012, Oliver Dietrich, Manfred Heun, Jens Notroff, Klaus Schmidt e Martin Zarnkow publicaram na revista Antiquity a hipótese do banquete: grandes vasos de pedra, pedras de moer grão e montes de ossos indicam festas coletivas, talvez com uma bebida fermentada de cereal.

Os bichos da pedra

Os entalhes mostram um zoológico perigoso. Há raposas de dentes à mostra, javalis, cobras descendo em fila, escorpiões, aranhas e grous. No Pilar 43, do recinto D, um abutre de asas abertas parece segurar um disco.

Quase nenhum desses animais servia de comida. A gazela, o bicho mais caçado, quase não aparece nas pedras. Os escultores escolheram predadores e carniceiros, e o motivo dessa escolha não chegou até nós.

Göbekli Tepe foi erguido por caçadores com ferramentas de pedra, que juntavam centenas de pessoas sem ter um único campo plantado.

O trigo nasceu perto

A cerca de 30 quilômetros do morro ficam os montes Karacadağ. Em 1997, a equipe do geneticista Manfred Heun publicou na revista Science a comparação de centenas de linhagens de trigo einkorn (o trigo-de-uma-semente, um dos primeiros cereais domesticados) e apontou a origem do trigo cultivado nesses montes.

Schmidt juntou as duas pontas. Para ele, alimentar as multidões que vinham trabalhar e festejar em Göbekli Tepe pressionou os caçadores a cuidar do trigo selvagem, até o trigo virar lavoura. É uma hipótese forte, mas segue em debate: nenhum grão cultivado foi achado nos recintos mais antigos.

 

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III  O Resto da História

O que o morro ainda esconde

Por volta de 8000 a.C., os recintos de Göbekli Tepe ficaram cheios de entulho até o topo dos pilares. Schmidt defendia que os próprios construtores enterraram os círculos de propósito, com terra, lascas de sílex e ossos, como quem encerra um lugar sagrado.

Depois de 2014, a direção passou ao arqueólogo Lee Clare, do mesmo Instituto Arqueológico Alemão. Em 2019, Clare e colegas publicaram estudos indicando outra explicação para parte do entulho: deslizamentos das encostas e acúmulo lento ao longo de gerações. A discussão continua aberta.

Os crânios marcados

Restos humanos são raros no sítio, mas apareceram. Em 2017, Julia Gresky, Juliane Haelm e Lee Clare publicaram na revista Science Advances a análise de três fragmentos de crânio com sulcos fundos entalhados de propósito, feitos depois da morte.

Um dos fragmentos tem um furo, o que sugere que o crânio ficava pendurado. Os autores chamaram a prática de culto do crânio, um costume já visto em outros sítios do mesmo período no Oriente Médio.

As escavações mais recentes também acharam cisternas para guardar água da chuva e restos de atividades do dia a dia. Por esse motivo, parte dos pesquisadores passou a ver Göbekli Tepe como um lugar onde também se morava, e não só um santuário isolado.

O que segue sem resposta

Ninguém sabe que língua falava o povo de Göbekli Tepe, como chamava o lugar ou em que acreditava. Não existia escrita, e nenhum dos entalhes foi lido como texto. Os pilares mostram o que eles esculpiam, não o que diziam.

Também não se sabe o tamanho real do sítio. Um levantamento geofísico do Instituto Arqueológico Alemão, feito em 2003, detectou sinais de outros recintos ainda debaixo da terra, e a maior parte do morro nunca foi aberta.

Göbekli Tepe deixou de ser um caso isolado. Desde 2019, o projeto Taş Tepeler (Morros de Pedra, em turco), coordenado pelo arqueólogo Necmi Karul, da Universidade de Istambul, escava sítios vizinhos do mesmo período, como Karahan Tepe, com pilares em T e cabeças humanas esculpidas.

Os caçadores de Göbekli Tepe ergueram pilares de 5,5 metros sem escrita, sem metal e sem lavoura, e boa parte do que construíram ainda nem foi vista.

Se for contar a alguém, três passos:

1. Comece pelo engano: em 1963, os pilares foram tomados por lápides de um cemitério medieval.

2. Mostre o corpo: no Pilar 18, braços, mãos e uma pele de raposa estão entalhados na pedra.

3. Termine na conta: os pilares têm cerca de 11.500 anos, seis mil a mais que Stonehenge.

Em 2018, a Unesco incluiu Göbekli Tepe na lista do Patrimônio Mundial, e hoje os recintos ficam sob uma cobertura de aço e lona que protege os pilares da chuva e do sol.

 
 
 

Quiz da edição

Quem fez o primeiro registro arqueológico do morro de Göbekli Tepe, em 1963, décadas antes de qualquer escavação ser aberta?

AKlaus Schmidt, do Instituto Arqueológico Alemão
BPeter Benedict, numa equipe da Universidade de Istambul e Chicago
COliver Dietrich, do Instituto Arqueológico Alemão
DManfred Heun, geneticista do estudo do trigo

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