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As 4 palavras em português gravadas no disco da Voyager

Em 1977, duas sondas partiram com um disco de ouro: 115 imagens, saudações em 55 idiomas e uma frase curta na nossa língua.

Disco dourado da Voyager com a capa de instruções, contra o fundo escuro do espaço.

O Disco de Ouro, preso ao casco da sonda

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115 imagens, agosto e setembro de 1977. Foi o que a NASA embarcou em duas sondas, a Voyager 1 e a Voyager 2, lançadas do Cabo Canaveral, na Flórida, com duas semanas de diferença.

As imagens não estavam impressas em papel nem guardadas num arquivo de computador. Estavam gravadas em sulcos, como música num LP, num disco de cobre banhado a ouro com 30 centímetros de diâmetro, preso do lado de fora de cada sonda.

O disco carrega também saudações faladas em 55 idiomas. Há sumério, a língua escrita mais antiga que se conhece, há latim, há mandarim, há cantonês, há um dialeto chinês chamado Wu e há o português.

A saudação em português tem quatro palavras: "Paz e felicidade a todos". Dura poucos segundos. Outras línguas mandaram frases longas, com convites para visitar a Terra e desejos de amizade entre mundos, e a nossa preferiu a brevidade.

As sondas tinham uma tarefa científica. Iam fotografar Júpiter e Saturno, e a Voyager 2 seguiria depois para Urano e Netuno, planetas que nenhuma nave humana tinha visitado. O disco foi uma carona pendurada nessa missão.

A carona tinha um destino muito mais distante que os planetas. Depois de passar por eles, as duas sondas seguiriam viagem para fora do Sistema Solar, sem freio e sem volta, e o disco iria junto para onde elas fossem.

Os responsáveis pelo conteúdo sabiam que a chance de alguém encontrar o disco era mínima. Mesmo assim, passaram seis semanas escolhendo fotos, sons, músicas e vozes que resumissem a espécie humana para um ouvinte que talvez nunca exista.

Hoje as duas Voyager ainda funcionam, cada uma a mais de 20 bilhões de quilômetros de casa, e o disco continua preso ao casco. As três partes a seguir contam o que está gravado nele, quem decidiu o conteúdo e o que acontece com o disco daqui para frente.

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I  A Curiosidade do Dia

Um LP com manual de instruções

O Disco de Ouro da Voyager é um fonógrafo (disco de gravação por sulcos, o mesmo princípio do vinil) feito para ser tocado por alguém que não conhece vitrola, agulha nem a nossa maneira de medir o tempo.

Por essa razão ele viaja dentro de uma capa de alumínio com instruções gravadas em desenho. A capa mostra como encaixar a agulha, que acompanha o disco, e em que velocidade girar: 16 e dois terços rotações por minuto, metade da velocidade de um LP comum.

Um extraterrestre não conheceria o nosso segundo. Para medir o tempo, os desenhistas usaram a transição do átomo de hidrogênio, o elemento mais comum do universo, cujo ritmo qualquer físico de qualquer planeta poderia medir.

A capa traz também um mapa. Ele localiza o Sol em relação a 14 pulsares (estrelas mortas que piscam em ritmo regular, como faróis), e o piscar de cada um funciona como coordenada para achar o endereço da Terra.

O disco tem 115 imagens codificadas como som, e a primeira delas é um círculo simples, colocado ali só para o leitor conferir se está decodificando direito.

As imagens vão de diagramas de matemática e anatomia a fotos do cotidiano: uma mulher num supermercado, crianças numa sala de aula, um homem comendo uva, uma estrada engarrafada, um pôr do sol na praia.

O som ocupa o resto. Há 90 minutos de música, com Bach, Beethoven, Mozart, canto de iniciação de meninas pigmeias, gamelão (orquestra de percussão metálica) da Indonésia e "Johnny B. Goode", de Chuck Berry.

Há também uma colagem dos sons da Terra: vento, trovão, grilos, pássaros, uma baleia, passos, batimento cardíaco, um beijo, o choro de um bebê e a decolagem de um foguete.

As saudações em 55 idiomas foram gravadas na Universidade Cornell, em Nova York, com estudantes, professores e moradores da cidade que falavam cada língua. A primeira frase do disco sai em acádio, a língua da antiga Mesopotâmia, e a última em wu, falado na região de Xangai.

O inglês entrou com uma frase de criança: "Olá das crianças do planeta Terra", dita por Nick Sagan, filho de Carl Sagan, então com 6 anos.

Entre as 55 saudações, a portuguesa está entre as mais curtas. O livro da equipe registra a frase, mas ninguém deixou por escrito por que o falante escolheu só quatro palavras, e o nome dele ficou fora da maior parte das listas publicadas. O motivo da brevidade segue sem resposta documentada.

 
 

II  A História Por Trás

Seis semanas para resumir a Terra

Carl Sagan, astrônomo da Universidade Cornell, recebeu da NASA o convite para montar o disco no começo de 1977, com um prazo curto: as sondas partiriam em agosto.

Sagan juntou uma equipe pequena. Frank Drake, radioastrônomo que já tinha pensado em mensagens para outras civilizações, cuidou da parte técnica. Ann Druyan foi a diretora criativa. Timothy Ferris, jornalista de ciência, produziu a gravação.

O artista Jon Lomberg desenhou e escolheu as imagens. Linda Salzman Sagan, então mulher de Carl, organizou as saudações e foi atrás de falantes de cada idioma em Cornell e arredores.

A escolha das línguas seguiu um critério de gente, não de país. A equipe quis cobrir as línguas faladas por mais pessoas no planeta e juntou a elas algumas línguas antigas, para mostrar que a espécie tinha passado e escrita.

A NASA vetou uma imagem: o desenho de um homem e uma mulher nus, com explicação de anatomia, saiu do disco e deu lugar a uma silhueta dos dois.

O veto tinha motivo. Em 1972, a placa das sondas Pioneer, também desenhada por Sagan e Drake, mostrou um casal nu, e a NASA recebeu cartas de protesto acusando a agência de mandar pornografia ao espaço com dinheiro público.

A seleção musical rendeu outra briga. Houve quem achasse "Johnny B. Goode" vulgar para representar a humanidade. Segundo o relato da equipe, Sagan respondeu que havia muitos adolescentes no planeta.

O disco também traz texto. Uma mensagem assinada pelo presidente americano Jimmy Carter, em 1977, ficou gravada junto com as imagens, e diz: "Este é um presente de um mundo pequeno e distante, uma amostra dos nossos sons, da nossa ciência, das nossas imagens, da nossa música, dos nossos pensamentos e sentimentos."

A trajetória da equipe ganhou registro em livro. Em 1978, Sagan, Drake, Druyan, Ferris, Lomberg e Linda Salzman publicaram "Murmúrios da Terra" ("Murmurs of Earth"), com a lista completa do conteúdo e as histórias por trás de cada escolha.

Uma dessas histórias saiu do próprio trabalho. Durante a produção, Carl Sagan e Ann Druyan se apaixonaram. Os dois se casaram em 1981 e ficaram juntos até a morte de Sagan, em 1996.

O público só conseguiu ouvir o disco inteiro décadas depois. Em 2017, a gravadora Ozma Records lançou uma edição em vinil, com o conteúdo original, financiada por fãs numa campanha de arrecadação coletiva na internet.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Um disco feito para durar 1 bilhão de anos

As sondas Voyager 1 e Voyager 2 já saíram da bolha de vento solar que envolve o Sistema Solar: a Voyager 1 em agosto de 2012 e a Voyager 2 em novembro de 2018, segundo a NASA.

Nenhum outro objeto feito por humanos chegou tão longe. A Voyager 1 é a nave mais distante da Terra, e um sinal de rádio enviado por ela leva quase um dia inteiro para chegar às antenas no nosso planeta.

Carl Sagan estimou, em "Murmúrios da Terra" (1978), que o disco pode durar 1 bilhão de anos no espaço, onde não há ar nem água para corroer o metal.

A capa guarda um relógio para quem a encontrar. Uma pequena amostra de urânio-238 (forma do urânio que perde metade da radioatividade a cada 4,5 bilhões de anos) foi presa ao alumínio, e medir quanto urânio sobrou revela há quanto tempo o disco partiu.

O encontro com outra estrela vai demorar. Segundo cálculos da NASA, daqui a uns 40 mil anos a Voyager 1 vai passar a 1,6 ano-luz da estrela Gliese 445, na constelação da Girafa. Ninguém sabe se há planeta habitado perto dela.

As sondas vão ficar mudas muito antes. As baterias nucleares perdem força a cada ano, e a NASA desliga instrumentos um a um para economizar energia. Quando a última antena se calar, o disco seguirá viagem sozinho, sem ninguém na Terra acompanhando o caminho.

Até lá, as antenas da Rede de Espaço Profundo da NASA, espalhadas pela Califórnia, pela Espanha e pela Austrália, seguem recebendo os dados que as duas sondas mandam de fora do Sistema Solar.

O que não se sabe, e talvez nunca se saiba, é quem vai tocar o disco. A equipe de Sagan escreveu desde o começo que a mensagem servia também para quem ficou: um retrato da espécie montado para caber em 30 centímetros de cobre.

Para contar a história numa roda de conversa, três passos bastam:

1. Comece pelo número: em 1977, duas sondas Voyager partiram com um disco de ouro de 115 imagens e saudações em 55 idiomas.

2. Conte a frase: a saudação em português tem só quatro palavras, "Paz e felicidade a todos".

3. Termine na viagem: o disco já saiu do Sistema Solar, e Carl Sagan calculou que ele pode durar 1 bilhão de anos.

"Se você tivesse quatro palavras para falar em nome da humanidade, quais escolheria?"

Amanhã: o relógio de pedra que os incas usavam para marcar o solstício em Machu Picchu.

 
 
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Segundo as instruções gravadas na capa do Disco de Ouro, em qual velocidade ele deve ser tocado?

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C16 e dois terços rotações por minuto
D78 rotações por minuto

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