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A universidade que já tinha 229 anos quando Tenochtitlán nasceu
Há registro de aula em Oxford desde 1096, e a capital asteca só foi fundada em 1325, sobre uma ilha lodosa do lago Texcoco.
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Oxford ensinava desde 1096; a ilha, só em 1325
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229 anos. Foi o intervalo que separou o primeiro registro de ensino em Oxford, no ano de 1096, da fundação de Tenochtitlán, em 1325. Quando os mexicas fincaram as primeiras estacas na ilha do lago Texcoco, mestres ingleses já cobravam por aulas de gramática e lógica havia mais de dois séculos.
A memória popular guarda essas duas datas em prateleiras trocadas. A capital asteca entra na cabeça como matéria antiquíssima, contemporânea das pirâmides, e a universidade europeia entra como invenção moderna, quase vizinha do trem a vapor. O calendário desmente as duas impressões ao mesmo tempo.
Oxford em 1096 não tinha campus, reitor nem portão de pedra com brasão. Tinha uma vila às margens do rio Tâmisa, com um vau para bois que deu nome ao lugar, e um punhado de clérigos que alugavam salas para ensinar o que sabiam a quem pagasse. A universidade não foi fundada num dia: foi se sedimentando em torno dessas aulas, e a data mais antiga que ela reivindica é a de um registro de ensino, não a de uma certidão.
Esse tipo de origem difusa é comum nas instituições muito antigas da Europa. Bolonha reivindica 1088, Paris se organiza ao longo do século 12, e todas elas nasceram como associação de mestres e alunos, uma corporação de ofício parecida com a dos sapateiros e dos ferreiros, antes de virarem prédio, brasão e cerimônia de formatura. O tijolo veio muito depois da aula.
Tenochtitlán, do outro extremo do mundo conhecido, ainda não existia como ideia. O povo que a construiria estava em migração havia gerações, sem terra própria, servindo como mercenário para senhores mais poderosos do vale do México e sendo expulso de um território atrás do outro.
Os mexicas chegariam ao lago com fama ruim entre os vizinhos, sem cidade, sem templo e sem direito a terra boa, dois séculos e meio depois de o primeiro estudante inglês pagar por uma aula de lógica no vau dos bois.
Colocar as duas cenas lado a lado embaralha a intuição de qualquer um. Vale começar pela vila inglesa, porque o modo como aquelas aulas viraram instituição explica por que a data de 1096 sobreviveu.
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I A Curiosidade do Dia
Uma vila inglesa com mestres de aluguel
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A Universidade de Oxford afirma na própria história institucional que houve ensino no local de alguma forma em 1096, e que a atividade cresceu depressa a partir de 1167. Não existe ata de fundação, prédio inaugural nem cerimônia. Existe rastro documental de aulas acontecendo, e é ele que sustenta o número.
O salto de 1167 tem causa política. Henrique II proibiu que estudantes ingleses frequentassem a Universidade de Paris, então o destino europeu natural de quem queria estudar. Quem estava lá voltou, quem pretendia ir mudou de plano, e o vau dos bois recebeu de uma só vez uma população acadêmica que não tinha para onde ir.
Aquela concentração criou atrito imediato com os moradores. Preço de aluguel, briga de taverna e jurisdição sobre crime cometido por estudante viraram assunto permanente. Em 1209, depois de uma confusão que terminou com estudantes enforcados pela cidade, parte dos mestres deixou Oxford e foi montar aula em outro vau, no rio Cam. A Universidade de Cambridge nasceu dessa debandada.
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A instituição mais antiga do mundo de língua inglesa não tem data de fundação porque nunca foi fundada: ela foi reconhecida depois de já estar funcionando.
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Em 1201 aparece o primeiro chanceler à frente dos mestres, e em 1231 a coroa já tratava o conjunto como corporação com direitos próprios. As faculdades residenciais vieram na sequência: University College por volta de 1249, Balliol em 1263, Merton em 1264. Cada uma com estatuto próprio, biblioteca própria e regra de convivência escrita.
O currículo era o trivium e o quadrivium, tudo em latim, e o aluno típico entrava adolescente. Estudava gramática, retórica e lógica antes de tocar em aritmética, geometria, música e astronomia. Só depois desse ciclo vinha teologia, direito ou medicina, num percurso que consumia mais de uma década.
Em 1326, um ano depois de os mexicas cravarem estacas no lago, Oxford ganhava mais uma faculdade: o Oriel College, criado pelo capelão real Adam de Brome e chancelado por Eduardo II. A cidade já tinha bibliotecas encadeadas à parede, disputa entre ordens religiosas rivais e briga por cadeira de teologia.
O nome da cidade guarda o começo prosaico daquilo tudo. Oxford é a junção de ox, boi, com ford, vau: o ponto raso onde o gado atravessava o rio a pé. A instituição que virou sinônimo de erudição no mundo inteiro leva no nome uma travessia de boiada, e o brasão com livro aberto e coroa só apareceu séculos depois das primeiras aulas.
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II A História Por Trás
A ilha que uma águia escolheu
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A fundação de Tenochtitlán aparece nas fontes com a data de 1325, e a cena que a narra é conhecida. Depois de gerações de migração desde a lendária Aztlán, os mexicas viram sobre um nopal uma águia devorando uma serpente, sinal prometido pelo deus tutelar Huitzilopochtli, e pararam ali.
O lugar não era prêmio. Era um punhado de ilhotas alagadiças no lago Texcoco, com água salobra e sem pedra de construção, terra que nenhum dos senhorios do vale queria. Os mexicas estavam ali justamente porque tinham sido expulsos de Chapultepec e depois de Tizapán, e ocupavam o resto que ninguém disputava.
O Codex Mendoza, manuscrito produzido por escribas nahuas por volta de 1541 a pedido do vice-rei da Nova Espanha, abre exatamente com essa cena: a águia sobre o cacto, o feixe de canais dividindo a ilha em quatro e os nomes dos primeiros chefes. A águia sobre o nopal segue no centro da bandeira mexicana até hoje.
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Oxford ensinava latim havia 229 anos quando os mexicas começaram a empilhar lama e estacas para transformar um pântano em capital.
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O que veio depois é engenharia hidráulica de primeira ordem. Os mexicas construíram chinampas, canteiros de cultivo fixados no fundo raso do lago com estacas e salgueiros, e calçadas elevadas ligando a ilha à margem. Ergueram um aqueduto duplo desde as nascentes de Chapultepec, um dos canos em uso enquanto o outro passava por limpeza, e um dique de vários quilômetros para separar a água doce da salgada.
"Ficamos admirados e dizíamos que aquilo se parecia com os encantamentos que contam no livro de Amadis, pelas grandes torres e edifícios que havia dentro da água." Bernal Díaz del Castillo, Historia verdadera de la conquista de la Nueva España, escrita no século 16.
O poder político veio junto. Em 1428, Tenochtitlán formou com Texcoco e Tlacopan a Tríplice Aliança, o arranjo que os livros chamam de império asteca. Do fundo do lago, a cidade passou a cobrar tributo de povos espalhados por milhares de quilômetros, e o registro dessa arrecadação ocupa a maior parte das folhas do próprio Codex Mendoza.
Tenochtitlán durou menos de dois séculos. Caiu em agosto de 1521, depois do cerco comandado por Hernán Cortés, e os espanhóis ergueram a Cidade do México sobre as ruínas, aterrando os canais. Enquanto a capital asteca era demolida, Oxford entrava no quinto século de aulas ininterruptas e discutia a chegada da imprensa às suas bibliotecas.
A cidade também se dividiu por dentro logo cedo. Os quatro bairros traçados a partir do centro cerimonial organizavam tributo, serviço militar e culto, e cada um tinha templo e mercado próprios. Em 1337, um grupo dissidente saiu da ilha principal e fundou Tlatelolco na ilhota vizinha, com a praça de comércio que os espanhóis descreveriam depois como a maior que já tinham visto.
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