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A nota de 100 trilhões não pagava a feira

Em 2009, o Zimbábue imprimiu cédulas com 14 zeros. Em 2015, trocou 35 quatrilhões dessa moeda por um dólar americano.

Cédula de 100 trilhões de dólares zimbabuanos, lançada em 2009.

A nota de 100 trilhões do Zimbábue, em 2009

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100 trilhões de dólares zimbabuanos, janeiro de 2009. Era o valor impresso na maior cédula já lançada por um banco central, com um 1 seguido de 14 zeros.

A nota saiu do Reserve Bank of Zimbabwe, o banco central do país, em Harare. Tinha o mesmo tamanho de qualquer outra cédula, a imagem de três rochas equilibradas (as Balancing Rocks, um cartão-postal do Zimbábue) e um prazo de validade impresso no canto, como um iogurte.

O prazo existia porque o banco sabia que a nota perderia o sentido em poucos meses. Os preços em Harare mudavam ao longo do mesmo dia. Um pão comprado de manhã podia custar mais à tarde, e os caixas dos supermercados atualizavam as etiquetas mais de uma vez por turno.

Com a nota recém-saída da gráfica, o comprador pagava algumas idas ao mercado. Não chegava a uma semana de compras para uma família. Quem recebia salário corria para gastar no mesmo dia, porque o dinheiro guardado na gaveta valia menos na manhã seguinte.

Os comerciantes passaram a pesar as cédulas em vez de contar. Os bancos limitavam os saques diários, e as filas nas agências dobravam o quarteirão. Muita gente desistiu da moeda nacional e passou a pagar em rands sul-africanos, pulas de Botsuana ou dólares americanos, trocados no mercado paralelo.

Os economistas que acompanharam o caso calcularam a inflação de novembro de 2008 em cerca de 79,6 bilhões por cento ao mês. Na prática, os preços dobravam a cada um dia e pouco. É a segunda maior inflação já medida, atrás só da Hungria de 1946.

A cédula de 100 trilhões virou souvenir. Turistas compravam a nota em Victoria Falls para levar de lembrança, e hoje ela aparece em sites de leilão por alguns dólares americanos, mais do que valia no dia em que circulou.

Seis anos depois, em 2015, o governo enterrou a moeda de vez nas contas bancárias: 35 quatrilhões de dólares zimbabuanos passaram a valer um dólar americano.

Ficam três perguntas: como um país chega a imprimir uma nota com 14 zeros, por que o banco central não parou a gráfica e o que aconteceu com quem ainda tinha dinheiro guardado. As três têm resposta nesta edição, a começar pelo dia em que o dinheiro deixou de valer.

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I  A Curiosidade do Dia

Uma moeda que perdia valor no caixa

O dólar zimbabuano nasceu em 1980, com a independência do país, e começou valendo mais que o dólar americano. Em 1980, um dólar zimbabuano comprava cerca de 1,47 dólar dos Estados Unidos.

A moeda resistiu duas décadas com inflação alta, mas controlável. O desgaste começou em 1997, quando o governo de Robert Mugabe aprovou pagamentos de 50 mil dólares zimbabuanos a cada veterano da guerra de independência, sem previsão no orçamento.

A sexta-feira negra

Em 14 de novembro de 1997, o mercado reagiu. O dólar zimbabuano perdeu cerca de 72% do valor frente ao dólar americano num único dia, que a imprensa local chamou de Black Friday. A bolsa de Harare caiu junto.

Foi o primeiro sinal de que os investidores não confiavam mais na conta do governo. Importar ficou mais caro, e os preços de combustível e farinha subiram nas semanas seguintes.

Em 1998, o Zimbábue mandou tropas para a guerra da República Democrática do Congo. A campanha consumia milhões de dólares americanos por mês, pagos com dinheiro que o país não tinha.

O Fundo Monetário Internacional suspendeu os empréstimos ao país em 1999, e os bancos estrangeiros passaram a recusar crédito. O governo ficou sem quem financiasse o déficit.

A fazenda que parou de produzir

O golpe maior veio em 2000, com a reforma agrária acelerada. O governo tomou cerca de 4 mil fazendas comerciais, a maioria de proprietários brancos, e as entregou a novos donos, muitos sem experiência ou crédito para plantar.

O Zimbábue era chamado de celeiro da África Austral, exportava tabaco, milho e trigo. Em poucos anos, a produção de alimentos despencou, as exportações de tabaco encolheram e o país passou a depender de ajuda alimentar.

Com menos comida e menos dólares entrando, o governo cobriu o rombo do único jeito que ainda tinha à mão: imprimindo dinheiro.

Em 2006, a inflação anual passou de mil por cento. O banco central cortou três zeros da moeda em agosto daquele ano e deu a ela um novo nome oficial. A conta não mudou, só a quantidade de algarismos na etiqueta.

Os preços dos supermercados viraram notícia diária. Os jornais publicavam o valor de um pão, de um litro de leite e de uma passagem de ônibus, e a lista desatualizava antes de a edição chegar às bancas.

 
 

II  A História Por Trás

A gráfica do banco central

O homem à frente do Reserve Bank of Zimbabwe entre 2003 e 2013 foi Gideon Gono, um ex-bancário escolhido por Mugabe. Na prática, o banco central virou o caixa do governo, emitindo dinheiro para pagar salários de servidores, soldados e importações.

Gono defendia a impressão como questão de sobrevivência. Em entrevistas, dizia que o país estava sob sanções e que não havia outra fonte de recursos. A cada mês, a gráfica entregava notas de valor mais alto.

O papel vinha da Alemanha

As cédulas eram impressas com papel e tecnologia da Giesecke & Devrient, uma empresa alemã de Munique. Em julho de 2008, depois de pressão do governo alemão e de grupos de direitos humanos, a empresa encerrou o contrato.

Sem o fornecedor alemão, cada nova série saía com acabamento mais simples, e os comerciantes passaram a desconfiar das cédulas recém-lançadas.

O banco central passou a imprimir com papel de outras fontes, de qualidade pior. Em agosto de 2008, cortou mais dez zeros da moeda. Cinco meses depois, a nota de 100 trilhões já estava em circulação.

Preços tabelados e prateleiras vazias

Em junho de 2007, o governo tentou outro remédio: obrigou os comerciantes a cortar os preços pela metade. A polícia fiscalizou lojas e prendeu gerentes que desobedeciam.

As prateleiras esvaziaram em semanas. Os fabricantes não conseguiam vender abaixo do custo e pararam de produzir. Pão, carne, açúcar e óleo sumiram dos supermercados e passaram a circular no mercado paralelo, por preços muito mais altos.

O tabelamento escondeu o preço da etiqueta e tirou a comida da prateleira.

A conta em bilhões por cento

Em 2008, o escritório oficial de estatística parou de publicar a inflação. O economista americano Steve Hanke, da Universidade Johns Hopkins, refez o cálculo a partir do câmbio no mercado paralelo e chegou aos 79,6 bilhões por cento ao mês em novembro de 2008.

Os hospitais ficaram sem remédios, as escolas fecharam por falta de professores e a cólera se espalhou por Harare no fim de 2008, porque não havia dinheiro para tratar a água. O desemprego passou de 80%, segundo estimativas da época.

O dinheiro perdeu também a função de guardar valor. Quem tinha poupança em banco viu o saldo de uma vida inteira encolher para o preço de uma passagem de ônibus.

 

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III  O Resto da História

Um dólar pelos quatrilhões

Em fevereiro de 2009, o governo de união nacional, formado por Mugabe e pelo oposicionista Morgan Tsvangirai, autorizou o uso de moedas estrangeiras em todas as transações. O dólar americano e o rand sul-africano viraram o dinheiro do dia a dia.

No mesmo mês, o banco central cortou mais 12 zeros da moeda. Somados os três cortes, de 2006, 2008 e 2009, foram 25 zeros apagados em menos de três anos. Em abril de 2009, o dólar zimbabuano deixou de circular.

Os preços pararam de correr

Com o dólar americano, a inflação caiu em poucos meses. As prateleiras voltaram a encher, os supermercados passaram a publicar preços fixos e os comerciantes deixaram de pesar dinheiro.

Faltava troco. Como havia poucas moedas americanas no país, os caixas devolviam o troco em balas, canetas ou fósforos, e algumas lojas aceitavam moedas sul-africanas no lugar dos centavos.

A conversão de 2015

As notas velhas continuavam guardadas em gavetas, cofres e contas bancárias. Em junho de 2015, o banco central anunciou a desmonetização, o processo oficial de trocar a moeda morta por dinheiro em vigor.

A taxa foi de 35 quatrilhões de dólares zimbabuanos para um dólar americano. Contas com saldo de até 175 quatrilhões recebiam cinco dólares americanos fixos. Quem tinha cédulas em casa podia levá-las ao banco até setembro de 2015.

Na prática, a nota de 100 trilhões valia menos de um centésimo de centavo de dólar. Muita gente nem foi trocar, porque a viagem até a agência custava mais que o valor a receber.

A moeda que voltou

O Zimbábue tentou recriar uma moeda própria em 2016, com os bond notes, e de novo em 2019, com o dólar RTGS. As duas perderam valor rápido. Em abril de 2024, o banco central lançou o ZiG, uma moeda lastreada em ouro e reservas.

A cédula com 14 zeros terminou valendo mais como lembrança do que como dinheiro.

Se for contar a alguém, três passos:

1. Comece pela nota: em janeiro de 2009, o Zimbábue imprimiu uma cédula de 100 trilhões de dólares.

2. Mostre a causa: fazendas paradas, guerra e salários pagos com dinheiro novo da gráfica.

3. Termine na troca: em 2015, 35 quatrilhões dessa moeda valiam um dólar americano.

Hoje a nota de 100 trilhões é vendida em sites de leilão, e o comprador paga em dólar americano.

 
 
Quiz da edição

Na Black Friday de 14 de novembro de 1997, quanto o dólar zimbabuano caiu frente ao dólar americano num único dia?

A50%
B72%
C90%
D35%

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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