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A montanha mais alta começa no fundo do mar

Medido da base, no leito do Pacífico, o Mauna Kea tem 10.210 metros, quase 1.400 a mais que os 8.849 do Everest.

Cume nevado do vulcão Mauna Kea, no Havaí, acima de um mar de nuvens.

10.210 m do pé ao cume, só 4.207 fora da água

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10.210 metros. É o que mede o Mauna Kea, no Havaí, quando a conta começa no pé da montanha e não na linha onde o oceano cobre o resto dela.

O Everest tem 8.849 metros. O número saiu da medição conjunta que os governos do Nepal e da China anunciaram em dezembro de 2020, e ele responde a uma pergunta bem específica: quanto o cume está acima do nível médio do mar. A pergunta não é quanto a montanha mede de baixo para cima.

A distinção parece detalhe de cartógrafo até você olhar de onde cada uma das duas parte. O Everest se ergue de um terreno que já está a mais de 4.000 metros de altitude, o planalto tibetano, e boa parte da altura que o número dele carrega foi trabalho da colisão entre duas placas continentais, que levantou uma região inteira do tamanho de países. A montanha só acrescentou o topo.

O Mauna Kea pagou o preço oposto. Ele nasceu no assoalho do Pacífico, subiu camada de lava sobre camada de lava até furar a superfície, e a água esconde quase três quintos do corpo dele. O que aparece no mapa é a ponta que sobrou de fora.

Trocar o ponto de partida troca o campeão, e é aí que o número de hoje deixa de ser trivia de almanaque. Toda altura publicada de montanha carrega um zero que alguém escolheu, e o zero mais famoso do mundo, o nível do mar, é uma superfície de referência calculada, não uma linha que exista fisicamente em lugar nenhum do planeta.

Existe ainda uma terceira maneira de perguntar, que muda o campeão de novo e coloca no pódio um vulcão do Equador de altitude modesta. A Terra não é uma bola perfeita, e quem mede a distância até o centro dela chega num terceiro vencedor.

A conta do Mauna Kea, por sua vez, começa num lugar que nenhuma foto de cartão-postal mostra, a quase seis quilômetros abaixo da superfície do oceano, e é de lá que vale descer para entender o número.

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I  A Curiosidade do Dia

Os quase seis quilômetros que ficam debaixo d'água

Do lado seco, o Mauna Kea é discreto. O cume está a 4.207 metros acima do nível do mar, medida do Serviço Geológico dos Estados Unidos, altura de uma montanha respeitável dos Alpes.

O resto está submerso. A base do vulcão se apoia no assoalho do Pacífico a cerca de 6.000 metros de profundidade, e a soma das duas partes dá os 10.210 metros que fazem do Mauna Kea o maior desnível contínuo de rocha entre uma base e um cume no planeta.

A forma explica o esconderijo. O Mauna Kea é um vulcão em escudo, construído ao longo de centenas de milhares de anos por erupções de lava basáltica muito fluida, que escorre longe antes de solidificar. O resultado é uma montanha larguíssima e de encosta suave, com dezenas de quilômetros de diâmetro na base, e não o pico afiado que a palavra montanha costuma evocar.

Do pé ao cume, o Mauna Kea mede 10.210 metros contra os 8.849 do Everest, e a diferença de quase 1.400 metros está inteira debaixo da água.

Tem um detalhe que torna a conta ainda mais generosa e que quase nunca aparece. O peso da pilha de basalto afunda a crosta oceânica embaixo dela, um efeito que os geólogos chamam de compensação isostática, e o Observatório Vulcanológico do Havaí, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, descreve o vulcão como assentado numa depressão que ele mesmo produziu no fundo do mar. Medida a partir da superfície original da crosta, antes de ela ceder, a montanha seria mais alta ainda.

O vulcão está adormecido, não extinto. A última erupção do Mauna Kea aconteceu há cerca de 4.500 anos, segundo o mesmo serviço geológico, o que em escala vulcânica é recente o bastante para o aparelho ficar na lista de monitoramento.

O nome havaiano diz o que se vê de baixo. Mauna Kea significa montanha branca, referência à neve que cobre o cume no inverno, num arquipélago tropical onde nevar é privilégio dos dois vulcões mais altos. É possível surfar de manhã e pegar geada à tarde na mesma ilha, com duas horas de estrada entre a praia e o cume.

O ar seco e parado do topo transformou o cume num dos melhores endereços de observação astronômica do hemisfério norte, com um conjunto de telescópios instalado acima de boa parte da umidade atmosférica. O mesmo cume é terreno sagrado na tradição havaiana, e a convivência entre as duas funções virou uma disputa pública que dura décadas.

Nenhuma dessas contas derruba o Everest do lugar dele. Ele continua sendo o ponto da crosta terrestre mais distante do nível do mar. As duas montanhas respondem a perguntas diferentes, e a única razão de uma parecer maior que a outra é qual das duas perguntas o mapa escolheu imprimir.

 
 

II  A História Por Trás

O Pico XV e o cálculo feito à mão em 1852

O número do Everest não veio de ninguém que tenha chegado perto da montanha. Ele veio de uma sala de cálculo em Calcutá, a mais de 600 quilômetros de distância, num levantamento que já durava meio século quando o resultado apareceu.

O trabalho se chamava Grande Levantamento Trigonométrico da Índia, iniciado em 1802 sob o comando de William Lambton e conduzido depois por George Everest, que foi superintendente-geral do levantamento entre 1830 e 1843. O método era triangulação: medir com precisão obsessiva uma linha de base no terreno e, a partir dela, encadear triângulos de ângulos medidos por teodolitos, alguns com meia tonelada de latão e vidro, carregados por dezenas de homens.

Em 1852, o matemático bengali Radhanath Sikdar, chefe da equipe de calculistas do levantamento, terminou as contas de um pico até então catalogado apenas como Pico XV e concluiu que aquele era o ponto mais alto já medido na Terra. A conta foi feita no papel, com tabelas de logaritmos, corrigindo refração atmosférica e o desvio que a própria massa do Himalaia impõe ao fio de prumo dos instrumentos.

O anúncio oficial saiu em 1856, pela voz de Andrew Waugh, sucessor de Everest no cargo, com o valor de 29.002 pés, cerca de 8.840 metros. A diferença para o número aceito hoje é de menos de dez metros, resultado obtido sem nenhum satélite e sem ninguém subir na montanha.

O ponto mais alto do planeta foi identificado em 1852 por um matemático que trabalhava com papel e tabelas de logaritmos, e a conta dele errou por menos de dez metros.

O nome veio depois e contra a vontade do homenageado. Waugh propôs batizar o pico de Everest, a Royal Geographical Society adotou a proposta em 1865, e o próprio George Everest resistiu, argumentando que o nome não podia ser escrito nem pronunciado com facilidade em hindi. A montanha já tinha nome nos dois lados da fronteira: Sagarmatha em nepalês, Chomolungma em tibetano.

Refinar o valor levou mais um século e meio. Um levantamento indiano fixou 8.848 metros em 1954, e o número só foi revisado em dezembro de 2020, quando equipes do Nepal e da China anunciaram em conjunto 8.848,86 metros, com receptores de satélite instalados no próprio cume e medição de radar da espessura da neve que cobre a rocha.

O Mauna Kea seguiu um caminho completamente diferente, porque a parte que interessa dele não podia ser vista de nenhum ponto de observação em terra. A altura submersa só ficou disponível quando o mapeamento por sonar do fundo do Pacífico avançou ao longo do século XX, transformando o assoalho oceânico numa carta topográfica em vez de uma mancha em branco.

Existe uma assimetria histórica aí que vale registrar. O Everest foi medido por gente que olhava para cima de longe, e o Mauna Kea foi medido por navios que olhavam para baixo em cima dele. Os dois números têm precisão comparável hoje, e nenhum dos dois foi obtido por alguém pisando no ponto que estava sendo medido.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três maneiras de perguntar, três campeões diferentes

A conversa se sustenta em três fatos que qualquer pessoa consegue conferir depois. Vale contar nesta ordem:

1. Comece pelo desnível: medido do pé ao cume, o Mauna Kea tem 10.210 metros e o Everest tem 8.849, e a vantagem havaiana está toda submersa.

2. Explique o empréstimo: o Everest já começa a subir de um planalto a mais de 4.000 metros, então parte da altitude dele é do terreno, não da montanha.

3. Feche pelo terceiro campeão: se a pergunta for qual cume está mais longe do centro da Terra, quem ganha é o Chimborazo, no Equador, com 6.263 metros de altitude.

O Chimborazo costuma ser o fato que trava a mesa, e ele tem explicação simples. A Terra é achatada nos polos e mais larga na linha do equador, um formato que o elipsoide de referência WGS 84, o mesmo modelo usado pelo GPS do seu celular, descreve com um raio equatorial cerca de 21 quilômetros maior que o polar. O Chimborazo fica quase em cima do equador, o Everest está a 28 graus de latitude norte, e o bojo do planeta empurra o vulcão equatoriano dois quilômetros mais para longe do centro.

Não existe uma montanha mais alta do mundo. Existem três respostas certas para três perguntas diferentes, e o mapa escolheu publicar só uma delas.

"Porque ela está lá." George Mallory, entrevista ao The New York Times, 1923.

Rende também a comparação com o outro extremo da escala. A expedição Five Deeps mediu em 2019 o ponto mais fundo conhecido do oceano, no Abismo Challenger, na fossa das Marianas, em torno de 10.925 metros. Coloque o Everest ali dentro e ainda sobram mais de dois quilômetros de água por cima do cume.

Vale contar de onde vem o zero. O nível do mar usado nos mapas não é a linha da praia nem a média da maré: é o geoide, uma superfície teórica que acompanha o campo gravitacional da Terra e que sobe e desce dezenas de metros conforme a distribuição de massa embaixo dela. Ou seja, a altitude de qualquer montanha é medida a partir de uma superfície imaginária que o próprio peso das montanhas ajuda a deformar.

E dá para fechar com o vizinho de ilha. O Mauna Loa, colado no Mauna Kea, tem cume pouco mais baixo e volume bem maior. As duas maiores construções de rocha do planeta estão na mesma ilha do Pacífico, e a maior parte das duas está debaixo da água, invisível em qualquer foto tirada da praia.

"Quantos recordes do mundo você aceita como certos só porque outra pessoa escolheu o ponto de partida da medida?"

 
 

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Segundo o texto, quem fez em 1852 o cálculo, só com papel e tabelas de logaritmos, que concluiu que o Pico XV era o ponto mais alto da Terra já medido?

AWilliam Lambton
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CRadhanath Sikdar
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