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A Mona Lisa sumiu do Louvre por 28 meses

Em 1911, um vidraceiro italiano levou o quadro debaixo do casaco. Paris fez fila para olhar a parede vazia.

Parede do Louvre com quatro ganchos vazios no lugar da Mona Lisa.

A parede vazia do Salon Carré, em 1911

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28 meses. Foi o tempo que a Mona Lisa passou longe do Louvre, entre agosto de 1911 e o fim de 1913, enquanto a parede onde ela ficava exibia só quatro ganchos de ferro.

A ausência foi notada numa terça-feira, 22 de agosto de 1911. O pintor Louis Béroud chegou cedo ao Salon Carré (o Salão Quadrado, uma das galerias nobres do museu) com o cavalete, porque queria copiar o retrato. Encontrou o espaço vazio e perguntou aos guardas onde estava o quadro.

Os guardas acharam que a obra estava com os fotógrafos do museu, que costumavam levar peças para outra sala sem avisar ninguém. Béroud insistiu. Horas depois, alguém foi conferir no estúdio de fotografia, e o quadro não estava lá.

O Louvre fechou as portas por uma semana. A polícia de Paris, chefiada pelo prefeito Louis Lépine, revistou salas, porões e telhados, interrogou funcionários e fechou a fronteira leste da França para inspecionar bagagens.

Quando o museu reabriu, em 29 de agosto, aconteceu o inesperado. Gente que nunca tinha visitado o Louvre formou fila para entrar no Salon Carré e olhar a parede. Os jornais publicavam fotografias do vazio, e os visitantes deixavam flores e bilhetes junto aos ganchos.

Até então, a Mona Lisa era admirada por artistas e estudiosos, mas não era o quadro mais famoso do mundo. Foi o sumiço que pôs o rosto dela na primeira página de jornais da Europa, das Américas e da Ásia, em cartões-postais e até em anúncios de cabaré.

Por mais de dois anos, ninguém soube onde ela estava. A investigação prendeu um poeta, interrogou um pintor espanhol e passou pela porta do ladrão sem perceber quem ele era.

A obra estava a poucos quilômetros do museu, guardada num baú de madeira, num quarto alugado de Paris. O homem que a levou tinha trabalhado dentro do Louvre e sabia como cada vitrine abria.

Três perguntas ficam abertas por enquanto: como alguém sai de um museu vigiado com um quadro, por que a polícia não achou o ladrão e o que o fez devolver a obra. As três têm resposta nesta edição.

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I  A Curiosidade do Dia

Uma segunda-feira de museu fechado

O ladrão se chamava Vincenzo Peruggia, um vidraceiro italiano de 29 anos, nascido em Dumenza, na Lombardia. Entre 1910 e 1911, ele trabalhou no Louvre para uma empresa contratada para pôr vidro de proteção sobre as pinturas mais valiosas. Ajudou a montar a caixa de vidro da própria Mona Lisa.

O museu fechava às segundas-feiras para limpeza e manutenção. Naquele dia, circulavam pelos corredores operários, faxineiros e restauradores, quase todos de avental branco, e os guardas estavam acostumados a ver gente desconhecida carregando material.

Como o quadro saiu

Peruggia entrou vestindo o mesmo avental branco dos funcionários. Na manhã de 21 de agosto de 1911, encontrou o Salon Carré sem guarda, tirou o quadro dos quatro ganchos e o levou para uma escada de serviço.

A Mona Lisa é uma pintura a óleo sobre uma tábua de choupo, uma madeira leve, com 77 centímetros de altura e 53 de largura. Sem a moldura e sem a caixa de vidro, o painel cabe debaixo de um avental largo. Na escada, Peruggia deixou para trás a moldura e o vidro, que a polícia encontrou depois.

A porta no fim da escada estava trancada, e ele tinha desmontado a maçaneta tentando abri-la. Um encanador do museu, Sauvet, passou por ali, viu um homem de branco em apuros e abriu a porta para ele com a própria chave. Depois contou à polícia que achou se tratar de um colega.

Peruggia atravessou um pátio interno, saiu para a rua e voltou para o quarto que alugava na rue de l'Hôpital-Saint-Louis, em Paris. A obra mais valiosa do museu tinha ido embora no braço de um operário.

O furto deu certo porque o ladrão parecia mais um funcionário de avental num dia de museu fechado.

Por que demoraram a perceber

Ninguém deu falta da obra na segunda-feira. Na terça, quando Béroud reclamou, os guardas apostaram nos fotógrafos, e só no meio da tarde o museu admitiu o furto. O ladrão tinha mais de um dia de vantagem.

O escândalo derrubou o diretor do Louvre, Théophile Homolle, que deixou o cargo semanas depois. O museu trocou fechaduras, reforçou a guarda e passou a vigiar os operários nas segundas-feiras.

 
 

II  A História Por Trás

O poeta preso e o ladrão esquecido

A primeira pista levou a polícia ao lugar errado. Em 1907, um belga chamado Honoré Joseph Géry Pieret tinha furtado do Louvre pequenas estatuetas ibéricas (peças antigas da Península Ibérica) e vendido duas delas ao pintor espanhol Pablo Picasso.

Pieret havia trabalhado como secretário do poeta francês Guillaume Apollinaire. Depois do sumiço da Mona Lisa, ele procurou um jornal de Paris, o Paris-Journal, e contou o antigo furto das estatuetas, se gabando de como era fácil roubar o museu.

Apollinaire na cadeia

A polícia ligou os fatos. Em 7 de setembro de 1911, Apollinaire foi preso como suspeito e passou cerca de uma semana na prisão de La Santé, em Paris. Picasso foi chamado para depor e, segundo relatos dos dois, negou conhecer o amigo diante do juiz.

As estatuetas foram devolvidas ao Louvre, e os dois acabaram liberados. Nenhum deles tinha relação com a Mona Lisa. O episódio rendeu manchete, mas a polícia continuava sem o quadro e sem o ladrão.

A ficha que ninguém conferiu

Peruggia tinha antecedentes. Em 1909, fora detido em Paris, e a polícia guardava a ficha dele no sistema de identificação criado por Alphonse Bertillon, chefe do serviço de identificação da Prefeitura de Polícia, que registrava medidas do corpo e algumas impressões digitais.

Na caixa de vidro abandonada na escada havia uma digital. A polícia tinha milhares de fichas, mas elas eram organizadas pelas medidas do corpo, e não havia como procurar uma pessoa partindo só da impressão de um dedo. A digital ficou sem dono por mais de dois anos.

A polícia tinha a ficha do ladrão desde 1909, mas o arquivo não sabia procurar por uma digital.

Os investigadores chegaram a visitar o quarto de Peruggia, como fizeram com outros operários que tinham passado pelo Louvre. Ele disse que estava em outro serviço no dia do furto. Os policiais olharam o quarto e foram embora. O quadro estava ali, num baú com fundo falso.

O motivo do vidraceiro

Peruggia diria depois que agiu por patriotismo. Acreditava que a Mona Lisa tinha sido levada da Itália por Napoleão Bonaparte e queria devolvê-la ao país onde Leonardo da Vinci a pintou.

A história dele estava errada. Leonardo levou o retrato para a França em 1516, ao aceitar o convite do rei Francisco I, e o quadro ficou com a coroa francesa depois que o pintor partiu em 1519. Napoleão chegou a pendurá-lo no quarto, mas não o trouxe de lugar nenhum.

 

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III  O Resto da História

Duas semanas em Florença

Em novembro de 1913, o antiquário florentino Alfredo Geri publicou anúncios em jornais procurando obras de arte para comprar. Recebeu uma carta de Paris, assinada por um certo Leonardo, oferecendo a Mona Lisa.

Geri achou que era piada, mas respondeu. Em dezembro, o remetente viajou de trem até Florença e se hospedou no Hotel Tripoli-Italia, perto do centro. Era Peruggia, com o quadro escondido no baú, debaixo de roupas e ferramentas.

A prova no verso

Geri foi ao hotel acompanhado de Giovanni Poggi, diretor da Galeria degli Uffizi (o grande museu de arte de Florença). Peruggia abriu o baú e entregou o painel embrulhado em pano vermelho.

Poggi virou a tábua e conferiu o verso: lá estavam o carimbo do Louvre e os números de inventário do museu. Combinou com Peruggia levar a obra aos Uffizi para comparar com fotografias e disse que voltaria com o pagamento. Voltou com a polícia, e o vidraceiro foi preso no hotel em 11 de dezembro de 1913.

A Itália exibiu o retrato nos Uffizi, depois em Roma e em Milão, com filas de milhares de pessoas. Em 4 de janeiro de 1914, a Mona Lisa voltou ao Louvre, em vagão especial de trem, e reocupou a parede do Salon Carré.

O julgamento e a fama

Peruggia foi julgado em Florença em junho de 1914. O tribunal aceitou parte do argumento patriótico, e a imprensa italiana o tratou com simpatia. Ele recebeu pena de um ano e 15 dias, reduzida depois para sete meses, e saiu da cadeia pouco tempo depois do julgamento.

Em 1932, o jornalista americano Karl Decker publicou no jornal Saturday Evening Post a versão de um suposto mandante, o argentino Eduardo de Valfierno, que teria encomendado o furto para vender cópias falsas a colecionadores. Nenhum documento da época confirma a existência desse homem, e os historiadores tratam o relato como invenção não comprovada.

O quadro voltou com uma fama que nunca tinha tido antes do furto. O hotel de Florença mudou de nome e passou a se chamar Hotel La Gioconda, como os italianos chamam o retrato, por causa do sobrenome do marido da modelo, Lisa Gherardini, casada com o comerciante Francesco del Giocondo.

O furto transformou um retrato admirado por especialistas na pintura mais visitada do mundo.

Se for contar a alguém, três passos:

1. Comece pela parede: em 1911, Paris fez fila no Louvre para ver quatro ganchos vazios.

2. Mostre o disfarce: Vincenzo Peruggia, o vidraceiro da vitrine, saiu de avental branco.

3. Termine em Florença: o carimbo do Louvre no verso entregou o quadro em 1913.

Hoje a Mona Lisa fica atrás de um vidro à prova de balas, numa sala própria do Louvre, e a parede do Salon Carré guarda outras pinturas.

 
 
 

Quiz da edição

Quanto tempo a Mona Lisa ficou fora do Louvre após o furto de 1911?

A14 meses
B28 meses
C8 meses
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