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A Marcha Real e a letra que durou cinco dias

O hino da Espanha toca há mais de 250 anos sem versos oficiais, e a tentativa de 2008 de dar palavras a ele caiu em menos de uma semana.

Banda militar espanhola tocando a Marcha Real em praça de Madri.

Banda militar tocando a Marcha Real, Madri

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7 mil letras, recebidas pelo Comitê Olímpico Espanhol no segundo semestre de 2007. Foi o tamanho da resposta quando o comitê pediu aos espanhóis versos para um hino que nunca teve palavras oficiais.

A ideia tinha um motivo esportivo. Nos pódios, nas finais de futebol e nas cerimônias de medalha, os atletas espanhóis ficavam em silêncio enquanto os adversários cantavam a plenos pulmões.

A cena se repetia havia décadas. A banda tocava a Marcha Real, a câmera fechava no rosto do campeão, e ele mexia os lábios sem som, ou cantarolava a melodia com um "lo, lo, lo" improvisado.

O presidente do comitê, Alejandro Blanco, queria mudar o quadro antes dos Jogos Olímpicos de Pequim, marcados para agosto de 2008. A meta era ter uma letra pronta, aprovada e cantada pelos atletas na China.

O concurso foi aberto a qualquer pessoa. Chegaram poemas de professores, de aposentados, de estudantes, de músicos amadores e de gente que nunca tinha escrito um verso na vida.

Um júri escolheu a vencedora. O autor era Paulino Cubero, um madrilenho de 52 anos, desempregado na época, que tinha escrito os versos em casa.

A letra começava com um grito curto, "¡Viva España!", e seguia com um convite para cantar junto, "con distinta voz y un solo corazón", com vozes diferentes e um só coração.

A apresentação pública aconteceu em meados de janeiro de 2008, em Madri, com a imprensa toda na sala. O comitê exibiu os versos impressos e anunciou que os atletas começariam a ensaiar nas semanas seguintes.

O plano tinha uma segunda etapa. O comitê pretendia recolher 500 mil assinaturas e levar a letra ao Congresso dos Deputados, que teria de aprová-la como oficial.

A segunda etapa nunca começou. Em cinco dias, o comitê retirou a proposta, diante de uma onda de críticas que veio da esquerda, da direita, das regiões e dos próprios poetas.

Para entender por que uma letra simples caiu tão rápido, é preciso olhar primeiro para a música que ela tentava vestir, e para o tempo em que essa música toca sem palavras.

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I  A Curiosidade do Dia

Uma marcha de quartel com 265 anos

A Marcha Real nasceu como toque militar. A partitura aparece em 1761, num livro de ordenanças da infantaria espanhola, com o nome de Marcha Granadera.

O livro reunia os sinais que tambores e pífaros usavam no quartel e no campo de batalha. A peça servia para honras, desfiles e saudações, sem nenhuma intenção de virar símbolo de um país.

O autor é atribuído a Manuel de Espinosa, músico da corte. A melodia era curta, solene e fácil de tocar em instrumentos de sopro, o que ajudou a espalhá-la pelos regimentos.

Em 1770, o rei Carlos III declarou a marcha como peça oficial de honra. Ela passou a tocar nas aparições públicas do monarca e da família real, e daí veio o nome que ficou: Marcha Real.

A Espanha canta o hino com a boca fechada desde o século 18, porque a música entrou na vida pública antes de qualquer verso.

No século 19, a marcha já funcionava como hino nacional na prática. Tocava em cerimônias de Estado, em atos militares e na chegada de navios estrangeiros aos portos.

A versão que se ouve hoje é um arranjo do compositor Bartolomé Pérez Casas, feito no começo do século 20. Foi esse arranjo que um decreto real de 1997 fixou como forma oficial do hino.

O mesmo decreto definiu duas durações. A versão completa passa um pouco dos 50 segundos, e a versão curta, usada em pódios e jogos, fica perto dos 27.

O Estado espanhol também comprou dos herdeiros de Pérez Casas os direitos do arranjo. Desde então, o hino pertence ao poder público e pode ser tocado por qualquer banda sem cobrança de direitos.

Letras, houve várias. Nenhuma, porém, ganhou status de lei.

Em 1927, o poeta Eduardo Marquina escreveu versos a pedido do rei Afonso XIII. A letra circulou, apareceu em discos e em escolas, mas nunca foi aprovada como oficial.

Durante o regime de Francisco Franco, entre 1939 e 1975, a versão mais cantada foi a do escritor José María Pemán. Ela também ficou fora da lei, embora fosse ensinada nas escolas e entoada em atos do regime.

A ligação com a ditadura marcou a letra de Pemán. Depois da redemocratização, cantar aqueles versos virou gesto político, e a maioria dos espanhóis preferiu ficar com a melodia sozinha.

A Constituição de 1978, que refundou a democracia espanhola, cita a bandeira no texto e deixa o hino de fora. A escolha de não escrever versos virou, aos poucos, uma decisão de Estado.

 
 

II  A História Por Trás

Por que nenhuma letra pega

A Espanha não está sozinha no silêncio. Bósnia e Herzegovina, Kosovo e San Marino também têm hinos oficiais sem letra, mas nenhum deles com tantos séculos de uso quanto a marcha espanhola.

O caso espanhol tem uma raiz política. O país é formado por comunidades com línguas e identidades fortes, como Catalunha, País Basco e Galícia, e qualquer texto sobre a "pátria" mexe com essa divisão.

Uma letra precisa dizer o que a Espanha é. A melodia não precisa dizer nada, e é justamente por ficar calada que ela consegue tocar em Barcelona, Bilbao e Sevilha sem abrir briga.

A letra de Paulino Cubero esbarrou nesse terreno logo no primeiro dia. Críticos à esquerda viram no "¡Viva España!" um eco dos gritos do franquismo, que usava a expressão em atos oficiais.

Críticos à direita reclamaram do outro lado. Para eles, a letra era genérica demais, evitava falar de Deus, do rei e da história, e soava como jingle de campanha.

Os poetas entraram na conversa com ironia. Colunistas publicaram paródias nos jornais, e as rádios passaram a semana lendo os versos em tom de deboche.

Os partidos regionais foram mais diretos. Representantes catalães e bascos disseram que não cantariam um hino que falasse em nome de uma única Espanha.

A letra caiu em cinco dias porque precisava agradar a um país inteiro, e a melodia sem palavras já agradava há dois séculos.

O Comitê Olímpico anunciou a retirada em 21 de janeiro de 2008. Alejandro Blanco disse que a proposta tinha nascido para unir e que, se dividia, não fazia sentido seguir adiante.

As 500 mil assinaturas nunca foram recolhidas. O Congresso nunca chegou a discutir a letra, e os atletas foram a Pequim do mesmo jeito que tinham ido a todos os Jogos anteriores.

Na China, a Espanha somou 18 medalhas. Em cada pódio com ouro espanhol, a Marcha Real tocou na versão curta, e os campeões ouviram a melodia em silêncio, como sempre.

O episódio deixou uma lição que políticos espanhóis repetem até hoje: mexer no hino custa caro, e quase ninguém ganha voto com a proposta.

Paulino Cubero voltou à vida comum. Deu entrevistas nas semanas seguintes, disse que tinha escrito pensando em todos os espanhóis e que aceitava o resultado.

 

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III  Pra Contar na Mesa

O hino que se cantarola

A falta de letra não impede o espanhol de participar. Em estádios, a torcida acompanha a Marcha Real com o "lo, lo, lo", e o som de milhares de vozes fazendo a melodia se tornou marca da seleção.

Na Copa do Mundo de 2010, quando a Espanha venceu o título na África do Sul, os jogadores ouviram o hino alinhados no campo, sem verso nenhum para cantar. Ninguém estranhou, porque o país inteiro faz igual.

Houve outras tentativas depois de 2008, todas fora do governo. Em 2018, a cantora Marta Sánchez apresentou num show em Madri uma letra própria para o hino, que gerou elogios, críticas e nenhuma mudança na lei.

Quem viaja pela Espanha nota o efeito em qualquer cerimônia. Nas formaturas militares, nos jogos da seleção e nas visitas oficiais, a plateia fica de pé, em silêncio, e só a banda faz som.

No exterior, a falta de letra virou pergunta frequente de turista e de jornalista. Comentaristas estrangeiros costumam explicar o caso em transmissões de Copa e de Olimpíada, toda vez que a câmera mostra um jogador espanhol de boca fechada.

O decreto de 1997 segue valendo. O hino oficial da Espanha continua sendo apenas música, com duas durações e um arranjo que pertence ao Estado.

A Espanha prova que um hino pode durar séculos sem uma palavra, desde que a melodia seja reconhecida em dois compassos.

Para levar a história da Marcha Real a uma roda de amigos, três passos bastam:

1. Comece pela origem: a Marcha Real surgiu em 1761 como toque militar de infantaria e virou marcha de honra do rei Carlos III em 1770.

2. Conte o concurso: em 2007, o Comitê Olímpico Espanhol recebeu cerca de 7 mil letras e escolheu a de Paulino Cubero, apresentada em janeiro de 2008.

3. Termine na retirada: cinco dias depois, a letra foi retirada diante das críticas, e a Espanha seguiu cantando o hino com "lo, lo, lo".

O silêncio virou costume, e o costume virou identidade. Ver uma seleção espanhola em silêncio no pódio deixou de causar estranheza e passou a ser parte do ritual.

“Se o seu país pedisse uma letra para o hino, que verso você teria coragem de mandar?”

Amanhã: o hino do Uruguai, que leva mais de cinco minutos quando é tocado inteiro.

 
 

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Segundo o texto, quem anunciou a retirada da letra escrita por Paulino Cubero, dizendo que a proposta tinha nascido para unir o país?

ABartolomé Pérez Casas
BAlejandro Blanco
CManuel de Espinosa
DPaulino Cubero

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