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A lei que deixou a Coreia do Sul 1 ano mais nova

Até junho de 2023, todo sul-coreano nascia com 1 ano e ganhava outro a cada 1º de janeiro. Uma lei trocou a conta e rejuvenesceu o país.

Rua movimentada de Seul, na Coreia do Sul, com pedestres de várias idades.

Seul, Coreia do Sul

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2 anos. Foi a idade que um bebê nascido em Seul em 31 de dezembro de 2022 ganhou no dia seguinte, com pouco mais de 24 horas de vida.

A conta não tinha erro. Pelo costume sul-coreano, ninguém nascia com zero: o recém-nascido já saía da maternidade com 1 ano, e todo mundo somava mais 1 na virada do calendário, sem esperar o próprio aniversário.

O bebê de 31 de dezembro recebia os dois números em sequência. Um no parto, outro na manhã de 1º de janeiro. Na certidão, tinha um dia. Na boca da família e dos vizinhos, tinha 2 anos.

O sistema tinha nome próprio: se-neun nai, algo como “idade contada” em coreano. Valia na conversa, no restaurante, na escola de inglês e na mesa do bar, onde a primeira pergunta entre desconhecidos costumava ser justamente a idade.

Ao lado dele corriam outras duas contas. Os documentos oficiais usavam a idade internacional, a mesma do Brasil, desde a década de 1960. E algumas leis, como a do alistamento militar e a da venda de álcool, usavam uma terceira, baseada só no ano de nascimento.

Na prática, um coreano podia carregar três idades na mesma semana. Nascido em 20 de dezembro de 1990, em 1º de dezembro de 2022 ele tinha 33 anos na conversa, 32 pela conta do ano e 31 no documento.

A confusão chegou ao Parlamento. Em 8 de dezembro de 2022, a Assembleia Nacional aprovou a mudança no Código Civil e na Lei Básica de Administração, e a regra nova entrou em vigor em 28 de junho de 2023.

Naquela quarta-feira, cada sul-coreano ficou oficialmente 1 ou 2 anos mais novo, sem tomar remédio, sem cirurgia e sem trocar de documento.

Para entender por que um país inteiro aceitou rejuvenescer por lei, vale olhar primeiro como a conta antiga funcionava, peça por peça.

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I  A Curiosidade do Dia

A conta que começava em 1

A regra antiga da Coreia do Sul tinha duas partes, e as duas eram simples. A primeira: a criança nascia com 1 ano. A segunda: todo mundo ganhava mais 1 ano junto, na passagem do ano novo.

Por séculos, a virada que contava era a do Seollal, o ano novo lunar, que cai entre o fim de janeiro e meados de fevereiro. Com o tempo, o 1º de janeiro do calendário ocidental ocupou o lugar dele na conta do dia a dia.

Daí sai a fórmula que todo coreano sabia de cor: ano atual menos ano de nascimento, mais 1. Quem nasceu em 1995 tinha 29 anos em qualquer dia de 2023 antes da reforma, fizesse aniversário em janeiro ou em dezembro.

Ninguém sabe ao certo de onde veio o 1 inicial. A explicação mais repetida diz que a conta incluía os meses de gestação, arredondados para um ano inteiro.

Outra explicação compara a idade com os séculos. Quem vive o primeiro ano da vida está no ano 1, da mesma forma que 2023 pertence ao século 21 e não ao século 20.

Nenhuma das duas hipóteses tem documento que encerre a discussão, e historiadores coreanos seguem citando ambas. O que se sabe é que a lógica não era exclusiva da Coreia.

A China usava o xusui (a “idade vazia”), com a mesma soma no ano novo. O Japão contava igual até 1950, quando uma lei recomendou a idade completa nos registros e na fala do dia a dia.

Na conta antiga, a idade media em quantos anos do calendário a pessoa já tinha pisado, contando o ano em que nasceu.

O efeito mais estranho aparecia em quem nascia perto do réveillon. Dois bebês com 48 horas de diferença, um em 31 de dezembro e outro em 2 de janeiro, passavam um ano inteiro com 1 ano de diferença na idade dita.

O bebê de 2 de janeiro esperava quase 12 meses para ganhar o segundo ano. O de 31 de dezembro ganhava no dia seguinte, e na escola os dois caíam em turmas diferentes, porque o ensino coreano agrupa as crianças pelo ano de nascimento.

As festas de família seguiam outra lógica. O dol (a festa do primeiro aniversário) e o hwangap (o aniversário de 60 anos, quando fecha o ciclo de 60 anos do calendário chinês) eram marcados pela data real do nascimento.

Resultado curioso: o hwangap caía quando a pessoa fazia 60 pela conta internacional, ou seja, 61 pela conta coreana. A festa mais importante da velhice já usava a idade completa, séculos antes da lei.

 
 

II  A História Por Trás

Três idades num só país

A troca para o modelo internacional começou no papel bem antes de 2023. Desde a década de 1960, o Código Civil sul-coreano usava a idade completa, chamada man nai (de “man”, cheio), para contratos, heranças e processos.

A lei existia, mas a rua não obedecia. Fora do cartório, a se-neun nai seguia mandando, e o coreano aprendia cedo a converter de cabeça: menos 1 se já tinha feito aniversário no ano, menos 2 se ainda não tinha.

A terceira conta, a yeon nai (a “idade do ano”), nasceu de leis específicas. Ela subtrai o ano de nascimento do ano atual e ignora o dia do aniversário.

É por ela que o governo chama os rapazes para o alistamento militar obrigatório e libera a compra de cigarro e cerveja. Quem nasceu em 2005 pôde comprar bebida em qualquer dia de 2024, fizesse 19 anos em janeiro ou em dezembro.

Com três sistemas no ar, a confusão aparecia em lugares caros. Acordos coletivos que cortavam salário a partir de certa idade foram parar nos tribunais, porque patrão e sindicato liam o número por contas diferentes.

A promessa de acabar com a bagunça veio na eleição presidencial de 2022. O então candidato Yoon Suk Yeol incluiu a unificação pela idade internacional no programa de governo, e o Ministério da Legislação Governamental redigiu o texto depois da posse.

O projeto passou na Assembleia Nacional em 8 de dezembro de 2022 e ganhou seis meses de prazo para o país se ajustar. A data marcada para a virada foi 28 de junho de 2023.

O artigo 158 do Código Civil da Coreia do Sul, na redação aprovada em 2022, passou a dizer: “A idade é calculada pela idade completa, contando o dia do nascimento, e expressa em anos.”

O mesmo artigo abriu uma exceção para os bebês. Antes de completar 1 ano, a idade pode ser dita em meses, como os pais já faziam na consulta do pediatra.

A lei de 2023 não criou idade nova: mandou a rua usar a conta que os cartórios já usavam havia seis décadas.

A yeon nai ficou de fora da reforma. Alistamento, álcool e cigarro continuam presos ao ano de nascimento, e quem confere a idade na porta de um bar segue olhando só o ano no documento.

A escola também manteve as turmas pelo ano de nascimento. Aposentadoria e pensões, que já seguiam a idade completa, não mudaram em nada.

A reforma, portanto, encerrou uma das três contas e deixou duas de pé. A conta que sumiu foi justamente a mais usada na conversa, a que somava 1 no parto e 1 no réveillon.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Como perguntar a idade em Seul

Quem visita a Coreia do Sul ainda ouve a pergunta da idade cedo na conversa. O motivo está na língua: o coreano tem níveis de formalidade, e o tratamento certo depende de quem é mais velho.

Entre amigos, o mais novo chama a mulher mais velha de unni ou nuna (irmã mais velha, conforme quem fala seja moça ou rapaz). O homem mais velho vira oppa ou hyung (irmão mais velho, pela mesma regra).

Por causa desse peso, a pergunta raramente vem crua. É comum perguntar o ano de nascimento, que resolve a hierarquia sem conta nenhuma, e por esse caminho a lei nova quase não mexeu na etiqueta.

Colegas nascidos no mesmo ano continuam chingu (amigos de mesma idade), com fala informal entre si. A diferença de um ano ainda decide quem trata quem com cerimônia e quem serve o copo de quem.

A mudança apareceu em outros cantos. Formulários de hospital, cadastros de banco e avisos de órgãos públicos passaram a pedir só a idade completa, sem a lacuna para a conta coreana.

Na rua, a adaptação veio aos poucos. Muitos coreanos mais velhos seguem respondendo pela conta antiga por hábito, e os mais novos costumam dizer as duas, a antiga e a internacional, para evitar dúvida.

A Coreia do Sul trocou a conta da idade e guardou a pergunta: o ano de nascimento continua decidindo como uma pessoa fala com a outra.

Para levar a idade coreana a uma roda de amigos, três passos bastam:

1. Comece pelo bebê: nascido em 31 de dezembro, ele fazia 2 anos no dia seguinte, pela conta antiga.

2. Explique a fórmula: ano atual menos ano de nascimento, mais 1, sem olhar a data do aniversário.

3. Termine na lei: desde 28 de junho de 2023, a Coreia do Sul usa a idade completa, a mesma do Brasil, e o país inteiro ficou 1 ou 2 anos mais novo.

A conversa costuma acabar com cada pessoa da mesa calculando a própria idade coreana nos dedos.

“Pela conta antiga de Seul, quantos anos você teria hoje?”

Amanhã: o calendário da Etiópia, que tem 13 meses e corre 7 anos atrás do nosso.

 
 
Quiz da edição

De acordo com a edição, em que data a nova lei de idade entrou oficialmente em vigor na Coreia do Sul?

A8 de dezembro de 2022
B1º de janeiro de 2023
C28 de junho de 2023
D31 de dezembro de 2023

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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