In partnership with

Curiosidade do Dia   Curiosidade do Dia
ED 009

A formiga cai de qualquer altura e sai andando

O arrasto do ar cresce com a área e o peso cresce com o volume, então a formiga toca o chão a 6 km/h, o passo de quem caminha rápido.

Formiga operária em queda livre com as seis pernas abertas, vista de perto contra o fundo desfocado de um jardim.

Uma formiga cai da beirada de uma folha

▼
 

Em 2 de agosto de 1971, na borda da cratera Hadley, o comandante David Scott parou diante da câmera da Apollo 15 com um martelo de geologia de 1,3 quilo numa mão e uma pena de falcão de 30 gramas na outra. Esticou os braços, largou os dois no mesmo instante, e a poeira lunar recebeu os dois juntos.

A demonstração provava uma coisa só. Sem ar pelo caminho, a massa não muda nada na queda: pena e martelo aceleram igual, e o tamanho de cada um deixa de ter importância.

Na Terra o resultado muda porque existe ar, e o ar empurra de volta tudo que atravessa. A força do empurrão depende da superfície que avança contra ele e da velocidade da queda, nunca do peso do corpo que está caindo.

A partir daí a queda vira uma disputa entre duas grandezas que não crescem no mesmo ritmo. O peso vem do volume, do corpo inteiro, das três dimensões. O arrasto vem da área, da sombra que o corpo projeta no ar, de duas dimensões apenas.

Para uma pessoa a disputa é desigual do lado ruim. Um corpo humano precisa de uns doze segundos e mais de quatrocentos metros de queda para o ar igualar o peso, e quando o equilíbrio chega o velocímetro já passou de 190 quilômetros por hora.

Para a formiga a mesma disputa termina do outro lado, e termina quase na hora. Ela oferece ao ar uma superfície enorme para o pouco peso que carrega, e o ar deixa de ser detalhe para virar parede.

Falta o número, e o número é a parte boa. Quanto marca o velocímetro de uma formiga que cai do décimo andar, quantos centímetros de queda bastam para ela parar de ganhar velocidade e por que, passado esse palmo inicial, a altura deixa de significar qualquer coisa.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Curiosidade do Dia

Quinze centímetros e a queda acaba

Uma operária comum pesa perto de 3 miligramas. Um grão de arroz cru pesa uns 25, e oito formigas na balança ainda não empatam com um grão de arroz.

Quando ela escorrega da beirada da mesa, a gravidade puxa esse peso minúsculo e a velocidade sobe. O ar reage na direção contrária, e a reação cresce com o quadrado da velocidade: dobre a velocidade e o empurrão de volta fica quatro vezes maior.

A disputa tem ponto de equilíbrio. Existe uma velocidade em que o empurrão do ar fica exatamente do tamanho do peso, e dali para a frente a soma das forças é zero. A queda continua, a velocidade não sobe mais. É a velocidade final.

Na formiga a conta é curta. Três miligramas de peso contra uma área de pernas abertas de uns 20 milímetros quadrados devolvem algo perto de 1,7 metro por segundo, ou pouco mais de 6 quilômetros por hora.

Seis quilômetros por hora é um número que você conhece de outro lugar. É o passo de quem caminha rápido na calçada, e é a velocidade com que a formiga chega ao chão.

E o equilíbrio chega cedo demais para a altura importar. Partindo parada, ela precisa de menos de dois décimos de segundo para alcançar a velocidade final, e nesse tempo desceu cerca de 15 centímetros.

Passado o primeiro palmo, a altura para de contar. A formiga que cai da beirada da mesa e a formiga que cai da janela do décimo andar tocam o chão com exatamente a mesma velocidade.

A batida que sobra é ridícula. Três miligramas a 1,7 metro por segundo carregam cerca de 4 microjoules, e um grão de arroz solto de dois centímetros entrega mais energia ao tampo da mesa do que a formiga entrega ao piso depois de cair trinta metros.

O corpo dela também está do lado certo da conta. O esqueleto fica do lado de fora, um tubo fechado de quitina, e tubo resiste pela área da parede, a mesma grandeza que encolheu menos que o peso.

Não existe osso comprido para partir e não existe peso suficiente para arrebentar uma junta. As seis pernas funcionam como molas curtas, e muitas espécies aterrissam de pé e saem andando no mesmo segundo.

O crédito não é da formiga, é da geometria, e a geometria vale para bicho de qualquer tamanho. Quem escreveu a regra foi um italiano de setenta e quatro anos, com um desenho de dois ossos lado a lado.

 
 

II  A História Por Trás

A lei que Galileu desenhou num osso

Em 1638, cego e cumprindo prisão domiciliar numa casa de Arcetri, perto de Florença, Galileu publicou na Holanda o livro que ficou conhecido como Duas Novas Ciências. O manuscrito saiu da Itália escondido, porque o autor estava proibido de imprimir.

Na segunda jornada do livro há um desenho que virou o retrato da regra. São dois ossos lado a lado: o de um animal pequeno e o mesmo osso ampliado três vezes em comprimento, grosso e disforme, com cara de tronco.

O raciocínio do desenho é aritmético. Dobre o comprimento de um bicho e a área da secção dos ossos cresce quatro vezes, mas o volume e o peso crescem oito. Cada milímetro quadrado de osso passa a segurar o dobro de carga.

Galileu tirou a conclusão sem rodeio. Um gigante com as proporções de um homem normal não se sustenta de pé: ou o material do esqueleto muda, ou os ossos engrossam a ponto de deformar a figura inteira.

A mesma aritmética governa a queda. O peso acompanha o volume, o arrasto acompanha a área, e a razão entre um e outro cresce junto com o comprimento do bicho. A velocidade final acompanha a raiz quadrada do tamanho.

O resultado prático engana pela suavidade. Dobrar o comprimento de um animal multiplica a velocidade de chegada por apenas 1,4, e multiplica a energia da batida por dezesseis, porque o peso octuplicou e a velocidade entra ao quadrado.

Em 1926, um geneticista britânico pegou a regra de Galileu e escreveu o ensaio mais citado sobre tamanho de bicho até hoje, poucas páginas numa revista americana de banca de jornal.

"Você pode soltar um camundongo por um poço de mina de mil jardas e, ao chegar ao fundo, ele leva um leve choque e sai andando, desde que o chão seja razoavelmente macio." J. B. S. Haldane, On Being the Right Size, 1926.

Mil jardas são novecentos e catorze metros. O camundongo chega lá embaixo a uns quarenta quilômetros por hora, e o corpo aguenta porque a energia da chegada, dividida pela superfície que a recebe, continua pequena.

A confirmação de campo veio de uma floresta do Peru, oitenta anos depois do ensaio. O biólogo Stephen Yanoviak subia ao dossel, pintava formigas com pó branco para enxergá-las contra a folhagem e as soltava de vinte e cinco metros.

O que ele viu contrariava a expectativa. A formiga-tartaruga, Cephalotes atratus, não caía como um pedaço de casca: virava o corpo, planava de costas e voltava ao tronco da própria árvore em mais de oito de cada dez quedas.

O controle vinha das pernas traseiras, usadas como leme. A publicação saiu na Nature em 2005, o comportamento ganhou nome próprio, descida aérea dirigida, e apareceu depois em formigas de outros continentes.

Chegar inteira nunca foi o problema dessas operárias. A queda já era segura pela conta de Galileu, e o que estava em jogo era o endereço: quem alcança o chão da floresta perde a árvore e a colônia.

Quem banca a edição de hoje

100+ Claude Code hacks to ship code 10X faster

Top engineers at Anthropic and OpenAI say AI now writes 100% of their code.

If you're not using AI, you're spending 40 hours doing what they do in 4.

These 100+ Claude Code hacks fix that and help you ship 10x faster.

Sign up for The Code and get:

  • 100+ Claude Code hacks used by top engineers — free

  • The Code newsletter — learn the latest AI tools, tips, and skills to code faster with AI in 5 minutes a day

O clique de apoio mantém a edição gratuita

 
 

III  Pra Contar na Mesa

O inseto do tamanho de um cachorro

Em 1954, um filme americano encheu o deserto do Novo México de formigas de três metros, e a plateia saiu do cinema com a impressão de que faltava pouco para a cena acontecer.

A conta de Galileu resolve a ficção em dois minutos. Uma operária tem uns 3 milímetros, e para chegar a três metros ela precisa crescer mil vezes em comprimento, o que multiplica o peso por um bilhão.

Três miligramas viram três toneladas. A secção das pernas, que sustenta a carga, cresceu apenas um milhão de vezes, então cada milímetro quadrado de perna passa a segurar mil vezes mais peso. A casca cede antes do primeiro passo.

A respiração fecha a porta que sobrou. Inseto não tem pulmão: o ar entra por orifícios laterais chamados espiráculos e caminha por tubos finos, as traqueias, até encostar direto no tecido que precisa dele.

O transporte funciona por difusão, e difusão só é rápida em distância curta. O tecido que consome oxigênio cresce com o volume, a secção dos tubos cresce com a área, e o bicho grande precisaria ser quase todo feito de tubo.

A natureza já testou o limite quando o ar ajudava. Há trezentos milhões de anos, no Carbonífero, a atmosfera tinha perto de 30 por cento de oxigênio, contra os 21 de hoje, e voava por ali a Meganeura, com setenta centímetros de envergadura.

O fóssil apareceu numa mina de carvão em Commentry, na França, e foi descrito em 1885. Quando o oxigênio da atmosfera caiu, o gigante saiu de cena, e o maior inseto vivo hoje é um besouro de dezesseis centímetros.

Há ainda a troca de casca. Para crescer, o inseto abandona o exoesqueleto velho e passa horas com a casca nova mole, sustentando o corpo pela pressão interna. Um bicho de cinquenta quilos nessa condição desaba sobre si mesmo.

A mesma régua desmonta a frase mais repetida sobre formiga, a de que ela carrega cinquenta vezes o próprio peso por ser excepcionalmente forte. A força do músculo vem da área da secção; o peso vem do volume.

Encolha um halterofilista até o tamanho de uma formiga, sem mudar mais nada, e ele também levantaria dezenas de vezes o próprio peso. A vantagem está na escala, não na fibra.

1. O gesto: acompanhe a chegada de uma formiga que caiu da beirada da mesa. Ela toca o chão a uns 6 quilômetros por hora e segue andando no mesmo segundo.

2. A conta: o peso cresce com o volume e o arrasto cresce com a área, então quanto menor o bicho, mais o ar segura. Depois de 15 centímetros a velocidade não sobe mais.

3. O limite: a mesma regra proíbe o inseto do tamanho de um cachorro, que não teria perna para o próprio peso nem traqueia para o próprio volume.

A regra tem uso fora da biologia. Quem projeta drone conta com ela: o aparelho de vinte gramas cai de dez metros e continua voando, e o de cinco quilos vira sucata na mesma queda.

E ela explica um desconforto antigo. Você não tem medo de altura por fraqueza pessoal. Tem medo porque nasceu grande o bastante para o ar não conseguir segurar você.

"Quantas coisas que você chama de força de um bicho são apenas o tamanho dele?"

 
 
Guia Curiosidade do Dia · Novo
Capa do guia Lembrado na Promoção

Lembrado na Promoção

O Comentário de 20 Segundos que faz a chefia repetir o seu nome na reunião que decide salário.

Quero o guia →
 
Quiz da edição

Segundo o texto, depois de quantos centímetros de queda a formiga já atinge a velocidade final, a mesma que ela mantém até o chão?

A5 centímetros
B15 centímetros
C50 centímetros
D1 metro

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🔑🔑🔑🔑🔑  ótima 🔑🔑🔑🔑  boa 🔑🔑🔑  ok 🔑🔑  ruim 🔑  péssima
 
Recomendação de Newsletter
Civilizações Perdidas

Civilizações Perdidas

Às 20:20 na sua caixa: o capítulo do dia sobre um império que nasceu, prosperou e colapsou. E o que esse ciclo revela sobre o presente.

Quero receber →

 
Sua jornada
Nível {{nivel | 0}} · {{rank_nome | Visitante}} {{xp | 0}} XP
 

Faltam {{xp_falta | 5}} XP pro Nível {{nivel_prox | 1}}

Responda o quiz de hoje: +3 XP

{{edicoes_lidas | 1}}
edições lidas
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações

Top {{top_pct | 100}}%: posição {{pos_mes | 0}} na comunidade Curiosidade do Dia nesse mês

Quero subir meu nível →

 
 
 

Amanhã tem outra.

Curiosidade do Dia

CURIOSIDADE DO DIA

Uma curiosidade por dia

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter