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A família real esticou a maratona até 42,195 km

Em 1908, Londres largou no Castelo de Windsor e chegou diante do camarote real; a medida virou regra em 1921.

Corredores na pista do estádio de White City, em Londres, na maratona de 1908.

Maratona olímpica de Londres, 1908

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42,195 quilômetros. É a distância de toda maratona oficial do planeta, de Boston a São Paulo, gravada no regulamento do atletismo em 1921.

O número quebrado chama atenção. Uma prova inventada para lembrar a corrida de um mensageiro grego teria tudo para fechar em 40 quilômetros redondos, e por alguns anos fechou.

O mensageiro da lenda se chamava Fidípides. Segundo a tradição, ele correu de Maratona até Atenas, em 490 antes de Cristo, para anunciar a vitória grega sobre os persas.

A primeira maratona olímpica, em Atenas, em 1896, saiu da vila de Maratona e terminou no estádio Panatenaico, com cerca de 40 quilômetros. Venceu Spyridon Louis, um carregador de água grego, em 2 horas, 58 minutos e 50 segundos.

Nas edições seguintes, cada cidade-sede mediu a prova do jeito que o mapa permitia. Paris, em 1900, passou um pouco dos 40 quilômetros. Saint Louis, em 1904, ficou nos 40.

O metro a mais ou a menos dependia da estrada, da ponte e do estádio disponíveis. Ninguém estranhava, porque não existia uma medida oficial para comparar.

Em 24 de julho de 1908, uma sexta-feira, Londres mudou o placar. Às 14h33, mais de 50 corredores largaram de um gramado particular da família real britânica, a oeste da capital.

A chegada ficava num estádio novo, construído para os Jogos, com lugar para dezenas de milhares de pessoas. A multidão nas arquibancadas veria um dos finais mais confusos da história do esporte.

O primeiro a entrar no estádio cambaleava. Caiu na pista, levantou, caiu de novo, e terminou a prova amparado por dois homens de terno. O segundo colocado cruzou a linha meio minuto depois, sozinho e de pé.

Os juízes precisaram decidir quem tinha vencido. A decisão virou caso diplomático entre dois países e transformou a distância daquele dia na mais famosa do esporte.

A primeira seção abaixo refaz a conta dos 42.195 metros, trecho por trecho. Depois vêm o italiano carregado na pista e a regra de 1921.

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I  A Curiosidade do Dia

Do gramado de Windsor ao camarote

O comitê organizador dos Jogos de Londres desenhou a rota com um ponto de partida já escolhido: o Castelo de Windsor, residência da família real, a oeste da capital.

A largada foi montada no gramado leste do castelo, sob as janelas dos aposentos das crianças reais. A princesa de Gales, Mary, deu o sinal de partida.

Uma versão contada até hoje diz que a família real pediu a largada ali para os netos do rei Eduardo VII assistirem da janela. Os historiadores do esporte tratam o relato com cautela, mas o lugar da largada está documentado.

Do castelo, a rota seguia por estradas de terra e de calçamento, atravessava Eton, Slough, Uxbridge e Harrow e entrava em Londres pelo oeste.

O trajeto media 26 milhas até a entrada do estádio, o Great Stadium de White City, em Shepherd's Bush. Era a maior arena do país, erguida em menos de um ano para os Jogos de 1908.

A distância nasceu de dois endereços, o gramado do castelo e o camarote da rainha, sem cálculo nenhum.

Dentro do estádio, faltava a última parte. A organização quis que os corredores terminassem diante do camarote real, onde a rainha Alexandra assistiria à chegada.

Para chegar lá, a prova entrava na pista e dava quase uma volta completa até a linha de chegada, em frente ao camarote. O trecho dentro do estádio somou 385 jardas.

A conta fecha assim: 26 milhas são 41.843 metros. As 385 jardas são 352 metros. Somadas, dão 42.195 metros, o número estampado hoje em toda medalha de maratona.

Os britânicos mediam em milhas e jardas, e o resultado em metros saiu quebrado por causa da conversão. Em unidades inglesas, a distância soa menos estranha: 26 milhas e 385 jardas.

A rota também tinha armadilhas. Parte do trajeto passava por calçamento irregular, e os trilhos de bonde nas ruas de Londres obrigavam os corredores a desviar.

A tarde estava quente e abafada para o padrão inglês. Os relatos da época descrevem corredores parando para beber água e desistindo em série nos últimos quilômetros.

Dos que largaram em Windsor, 27 cruzaram a linha de chegada. O resto abandonou pelo caminho, nas estradas entre o castelo e o estádio.

A distância de 1908 também não virou regra no dia seguinte. Os Jogos de Estocolmo, em 1912, usaram 40,2 quilômetros, e os de Antuérpia, em 1920, passaram dos 42,7.

O que deu fama aos 42.195 metros de Londres foi a cena dos últimos 352, diante da rainha.

 
 

II  A História Por Trás

O italiano carregado até a linha

O primeiro corredor a entrar em White City foi Dorando Pietri, um confeiteiro de Carpi, no norte da Itália, de 22 anos e 1,59 metro de altura.

Pietri tinha assumido a liderança nos últimos quilômetros, depois de ultrapassar o sul-africano Charles Hefferon. Chegou ao estádio exausto e desidratado.

Na pista, virou para o lado errado. Os fiscais o puseram na direção certa, e ele caiu. Levantou, deu alguns passos e caiu outra vez.

As quedas se repetiram ao longo dos últimos 352 metros, diante de uma arquibancada que gritava por ele. Os relatos contam cinco quedas.

Dois oficiais, entre eles o organizador Jack Andrew, seguraram o italiano pelos braços nos metros finais e o levaram até a linha. O relógio marcou 2 horas, 54 minutos e 46 segundos.

Logo atrás vinha o americano Johnny Hayes, balconista de uma loja de departamentos de Nova York. Ele cruzou a linha 32 segundos depois, sem ajuda.

Pietri cruzou a linha primeiro, mas cruzou carregado, e a regra proibia ajuda externa.

A delegação dos Estados Unidos protestou na mesma tarde. Os juízes aceitaram o protesto e desclassificaram Pietri. Hayes ficou com o ouro, com 2 horas, 55 minutos e 18 segundos.

O caso caiu num momento ruim entre britânicos e americanos. Os Jogos de 1908 já tinham acumulado brigas sobre arbitragem, bandeiras e regulamento entre as duas delegações.

A torcida ficou com o perdedor. No dia seguinte, a rainha Alexandra entregou a Pietri uma taça de prata dourada, em reconhecimento pela corrida.

Um dos repórteres na arquibancada era o escritor Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, contratado pelo Daily Mail para cobrir a prova.

“A grande façanha do italiano jamais será apagada dos nossos registros do esporte, seja qual for a decisão dos juízes.”

Arthur Conan Doyle, Daily Mail, 1908

Conan Doyle puxou uma vaquinha entre os leitores do jornal para o italiano abrir uma padaria na volta para casa. A campanha arrecadou 300 libras.

Pietri virou celebridade. Em novembro de 1908, foi aos Estados Unidos para uma revanche profissional contra Hayes no Madison Square Garden, em Nova York, e venceu.

A fama dele levou junto a distância. Os jornais do mundo inteiro repetiram a cena da pista de White City, e a maratona de Londres passou a servir de referência para toda prova longa.

A história chegou até à música. Em 1909, o compositor Irving Berlin lançou uma canção chamada "Dorando", sobre o italiano da pista.

 

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III  Pra Contar na Mesa

A medida que virou lei

Depois de Londres, a maratona continuou sem medida fixa por mais de uma década. Cada sede seguia o próprio mapa.

Em 1912, a Federação Internacional de Atletismo Amador, a IAAF, nasceu em Estocolmo, durante os Jogos daquele ano, com a tarefa de unificar regras e recordes.

Recorde só faz sentido quando todo mundo corre a mesma distância. Com provas de 40, de 40,2 e de 42,7 quilômetros, comparar tempos de maratona era impossível.

Em 1921, a IAAF fixou a distância oficial em 42,195 quilômetros. A escolha recaiu sobre a medida de Londres, a mais lembrada e a da corrida mais famosa até então.

A distância oficial da maratona é a de uma rota desenhada para começar num castelo e terminar diante de uma rainha.

A primeira Olimpíada com a medida já oficial foi a de Paris, em 1924. Desde então, toda maratona olímpica tem 42.195 metros.

A Maratona de Boston, corrida desde 1897, também ajustou o percurso. Até 1923, a prova americana tinha cerca de 39 quilômetros; em 1924, a largada foi recuada para fechar os 42.195 metros.

Hoje, a medição segue um método próprio. Um fiscal pedala o percurso inteiro com um contador preso à roda da bicicleta, calibrado antes e depois, pela linha mais curta que o corredor pode fazer.

O regulamento ainda acrescenta uma margem: cada percurso é medido com 1 metro a mais por quilômetro, para nenhuma prova sair curta. Uma maratona homologada tem, na prática, 42 metros de folga.

A Maratona de Londres moderna, criada em 1981, termina no The Mall, a avenida em frente ao Palácio de Buckingham, a residência oficial da família real.

O estádio de White City, onde Pietri caiu, foi demolido em 1985. No lugar ficaram prédios da BBC, e uma placa no chão marca a linha de chegada de 1908.

Para levar a história à mesa, três passos:

1. Comece pelo número: 42,195 quilômetros, uma medida quebrada para uma prova inventada.

2. Conte a rota de 1908: largada no Castelo de Windsor, chegada diante do camarote da rainha Alexandra.

3. Termine na regra: em 1921, a federação do atletismo adotou a distância de Londres para todas as maratonas.

“Você sabia que a maratona tem 42,195 km porque Londres, em 1908, largou no Castelo de Windsor e chegou diante do camarote real?”

Amanhã: o engenheiro japonês que copiou o bico do martim-pescador num trem-bala.

 
 
Quiz da edição

Em Londres 1908, quantas jardas os corredores percorreram dentro do estádio até a linha de chegada diante do camarote real?

A300 jardas
B385 jardas
C500 jardas
D250 jardas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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