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A canção de bom dia que teve dono por 80 anos

Parabéns pra Você nasceu em 1893 como saudação de jardim de infância e só virou domínio público depois de um processo em Los Angeles.

Crianças de um jardim de infância cantam em volta de um piano, ao lado da professora.

Canção de bom dia no jardim de infância

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US$ 14 milhões. Foi quanto a editora Warner/Chappell aceitou devolver em 2016, num acordo homologado pela Justiça federal de Los Angeles, a quem tinha pago para usar Parabéns pra Você em filmes, séries, comerciais e restaurantes.

A canção mais cantada em festas de aniversário, a mesma que toca em toda mesa com bolo e vela, tinha dono registrado nos Estados Unidos. Quem quisesse colocá-la num filme precisava pedir licença e pagar. Quem cantava em casa não pagava nada, porque a lei americana só cobra a execução pública, aquela feita em palco, tela ou estabelecimento comercial.

A cobrança explica uma cena que muita gente já estranhou sem saber o motivo. Em redes de restaurantes americanas, os garçons batiam palmas e cantavam uma música inventada pela própria casa para o aniversariante. Em filmes e seriados, personagens puxavam o coro e a cena cortava antes do segundo verso. Nos dois casos, a economia vinha da mesma conta: evitar a taxa da editora.

O detalhe que torna a história curiosa é a origem. A melodia não nasceu para aniversários. Ela surgiu numa sala de aula do Kentucky, no fim do século XIX, com outra letra e outra finalidade: dar bom dia a crianças de quatro e cinco anos. Duas irmãs, uma pianista e outra professora, criaram a canção para abrir a manhã escolar, muito antes de existir bolo com vela na história.

Entre aquela sala de aula e o acordo de 2016 passaram mais de 120 anos, três editoras e uma pergunta que ninguém tinha feito direito: quem, afinal, escreveu a letra do parabéns? A resposta só apareceu quando uma documentarista se recusou a pagar a licença e levou a editora ao tribunal.

A primeira seção volta a Louisville, em 1893, para mostrar como uma canção de chamada escolar trocou de letra e ganhou o mundo.

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I  A Curiosidade do Dia

O bom dia que virou parabéns

A melodia foi composta por Mildred Jane Hill, pianista e organista nascida em Louisville, no Kentucky, em 1859. A letra original veio da irmã mais nova, Patty Smith Hill, professora que dirigia o jardim de infância experimental da cidade e se tornaria uma das maiores educadoras dos Estados Unidos.

A canção se chamava Good Morning to All (Bom dia a todos). A letra era curta e repetitiva de propósito: "Good morning to you, good morning to you, good morning, dear children, good morning to all" (bom dia a vocês, bom dia, queridas crianças, bom dia a todos). A professora cantava para a turma, e a turma respondia com "good morning, dear teacher" (bom dia, querida professora).

As irmãs publicaram a peça em 1893 no livro Song Stories for the Kindergarten (Canções-histórias para o jardim de infância), impresso em Chicago pela editora Clayton F. Summy. O livro reunia músicas pensadas para vozes pequenas, com poucas notas e intervalos fáceis de alcançar.

A melodia foi desenhada para ser fácil, e a simplicidade explica por que ela se espalhou. Patty testava cada canção com as crianças da própria escola e descartava as que a turma não conseguia repetir. Só ficavam as que um grupo de cinco anos cantava de ouvido depois de ouvir poucas vezes.

A troca de letra aconteceu sem autor conhecido. Crianças e professores passaram a cantar a melodia em festas de aniversário da escola, trocando "good morning" por "happy birthday" (feliz aniversário). A versão nova circulou de boca em boca por anos antes de chegar ao papel.

O primeiro registro impresso da letra de aniversário encontrado até hoje aparece em 1912, num livro de canções infantis publicado em Cleveland, sem crédito a ninguém. Em 1924, o editor Robert H. Coleman incluiu a versão no hinário Harvest Hymns como segunda estrofe de Good Morning to All, de novo sem citar as irmãs.

O rádio e o cinema falado fizeram o resto. Nos anos 1930, a canção apareceu em musicais da Broadway e em filmes, e o Guinness Book of World Records de 1998 a listou como a canção mais reconhecida da língua inglesa.

Mildred morreu em 1916, antes da popularidade da versão de aniversário, e nunca recebeu um centavo por ela. Patty viveu até 1946, lecionou por décadas na Universidade Columbia, em Nova York, e só entrou na disputa pelos direitos depois que a música já tocava no mundo inteiro.

 
 

II  A História Por Trás

1935, o registro que valia só para o piano

A cobrança começou com a irmã caçula, Jessica Hill. Em 1935, ela e a editora Clayton F. Summy registraram nos Estados Unidos um copyright (direito autoral) de Happy Birthday to You, com base em arranjos para piano feitos pelo músico Preston Ware Orem.

A editora trocou de dono algumas vezes. Em 1988, a Warner/Chappell comprou o Birchtree Group, herdeiro do catálogo da Summy, num negócio avaliado em cerca de US$ 25 milhões, segundo o jornal The New York Times na época. O parabéns era a joia do pacote.

A Warner passou a cobrar royalties (pagamento por cada uso) de filmes, séries, anúncios e cartões musicais. O professor de direito Robert Brauneis, da Universidade George Washington, estimou em artigo de 2010 que a canção rendia à editora cerca de US$ 2 milhões por ano, parte repassada à fundação criada pela família Hill.

Brauneis foi quem abriu a dúvida. No artigo Copyright and the World's Most Popular Song (Direito autoral e a canção mais popular do mundo), ele vasculhou arquivos e concluiu que o registro de 1935 cobria os arranjos de piano, e não havia prova de que as irmãs tivessem transferido a letra à editora.

A cobrança virou processo em 2013. A cineasta Jennifer Nelson preparava um documentário sobre a história do parabéns e recebeu da Warner uma conta de US$ 1.500 para usar a canção. Ela pagou, depois entrou com uma ação coletiva em Los Angeles pedindo a devolução do dinheiro a todos que tinham pago licença.

O caso caiu com o juiz George H. King, da Corte Federal do Distrito Central da Califórnia. Durante o processo, os advogados dos autores acharam uma edição de 1927 que trazia a letra de aniversário publicada sem aviso de direito autoral, o que enfraquecia ainda mais a tese da editora.

Em 22 de setembro daquele ano de 2015, King publicou a decisão. No texto, escreveu que "como a Summy Co. nunca adquiriu os direitos sobre a letra de Happy Birthday, os réus, como supostos sucessores da Summy Co., não possuem direito autoral válido sobre essa letra" (Marya v. Warner/Chappell Music, 2015).

A Warner negociou em vez de recorrer. Em 2016, assinou o acordo de US$ 14 milhões, e o juiz homologou uma cláusula que declarou a canção em domínio público nos Estados Unidos. Desde então, qualquer filme americano pode usar o parabéns inteiro, sem pagar.

 

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III  Pra Contar na Mesa

Três frases para cantar sabendo a origem

A história rende na mesa quando contada em ordem, e três frases dão conta:

1. Comece pela origem: a melodia nasceu em 1893 como Good Morning to All, canção de bom dia das irmãs Mildred e Patty Hill para o jardim de infância de Louisville, nos Estados Unidos.

2. Conte a cobrança: a Warner/Chappell cobrou licença pelo parabéns até 2015, quando o juiz George H. King decidiu que o registro de 1935 cobria apenas arranjos de piano, e não a letra.

3. Termine com o acordo: em 2016, a editora pagou US$ 14 milhões de volta e a canção passou a ser de domínio público nos Estados Unidos.

A versão brasileira tem autora identificada. A letra de Parabéns a Você, com o verso "nesta data querida", foi escrita pela paulista de Pindamonhangaba Bertha Celeste Homem de Mello e venceu um concurso promovido em 1942 pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro, com o radialista Almirante no júri.

A letra brasileira não é tradução. Bertha escreveu versos novos sobre a melodia das irmãs Hill, e é por esse motivo que o "muitas felicidades, muitos anos de vida" não existe no original americano.

Os complementos que os brasileiros cantam depois, como o "é pique, é pique" e o "é hora, é hora", surgiram em festas e não têm autoria registrada. A origem desses gritos segue discutida, e nenhum documento da época resolve a questão.

O processo também deixou uma lição para quem trabalha com música. Um registro antigo cobre só o que foi de fato depositado no cartório de direitos autorais: se o papel descreve um arranjo de piano, a proteção vale para aquele arranjo, e não para uma letra que circulava de boca em boca décadas antes. Foi exatamente essa diferença, lida com cuidado por um professor de direito e depois por um juiz, que derrubou oito décadas de cobrança.

Para o Brasil, a decisão americana mudou pouco na prática. A versão de Bertha nunca teve cobrança parecida nas festas, e o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad, o órgão que recolhe direitos de execução musical no país) cobra de rádios, eventos e estabelecimentos pelo repertório como um todo, sem taxa especial para o parabéns.

Fora dos Estados Unidos, a situação jurídica variou. Na União Europeia, o direito autoral dura 70 anos após a morte do autor, e a proteção associada a Patty Hill, morta em 1946, expirou no fim de 2016. Hoje a canção está livre nos dois lados do Atlântico.

"Você já tinha reparado que a letra de parabéns que canta foi escrita no Brasil, e não traduzida?"

Amanhã: Wojtek, o urso que carregou munição para o exército polonês na Segunda Guerra.

 
 
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